Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
As novelas do Ramadã
As novelas do Ram adã A um a hora de estrada a oeste do Cairo, perto das
pirâm ides, encontram -se os estúdios de cinem a e televisão egípcios, um a verdadeira cidade conhecida com o Media City. Na realidade, essa nova cidade, construída do zero no deserto, cham a-se 6th October City (referência à guerra do Yom Kippur em 1973, que os egípcios dizem ter vencido).
Aqui é que são produzidos os “m ousalsalets”, as novelas de televisão do Ram adã. Inventadas pelos egípcios, essas soap operas são populares em todo o m undo árabe. Com duração m édia de cinquenta m inutos e equivalendo, com a publicidade, a um a hora de program a de televisão, cada série com porta trinta episódios, transm itidos diariam ente durante o Ram adã e depois retransm itidos à saciedade no resto do ano. Em Media City são rodadas cerca de vinte séries com pletas por ano.
“O sucesso dos m ousalsalets está estreitam ente ligado ao Ram adã”, explica Yussef Cherif Rizkallah, diretor do departam ento internacional de Media City. “As fam ílias ficam fechadas dentro de casa o dia inteiro durante um m ês e assim assistem à televisão o tem po todo. Até os j ovens não podem m uito ir ao cinem a, exceto durante a noite.” O m odelo é m uito sim ples: trata-se de um divertim ento para o grande público, leve e com preensível por todos. Em bora possam abordar questões da vida cotidiana, problem as conj ugais ou sociais, trata-se antes de m ais nada de novelas de fundo m oral. “É um divertim ento com valores e princípios”, frisa Yussef Osm an, diretor de produção das novelas em Media City, acrescentando, com lucidez: “Esses valores, perfeitam ente adequados à religião m uçulm ana, é que fazem o sucesso das novelas do Ram adã no m undo árabe, assim com o seu fracasso em qualquer outra parte do m undo”.
Esse divertim ento egípcio popular tem seus lim ites, m esm o no recesso do lar. “Os j ovens querem m ais ação e m enos m elodram a”, prossegue Yussef Osm an. “Com isso, j á se com eça a produzir séries de 15 episódios em vez de trinta, para acelerar a história. Os j ovens tam bém querem ver m oças m ais bonitas, sem véu, com m enos roupa.” Os j ovens querem m ais sexo? “Eu não diria que querem sexo, m as querem pelo m enos que o rapaz possa beij ar a m oça. E agora j á acontece de perm itirm os que os rapazes beij em as m oças.” Esses film es, com m ais liberdade, são atualm ente bem tolerados no Egito, no Marrocos e na Tunísia, no Líbano, na Síria ou na Palestina, m as todas as cenas de beij o ou com um pouco m enos de roupa são sistem aticam ente cortadas nos países do Golfo e na Arábia Saudita. “Acredito que o sucesso do cinem a egípcio no m undo árabe, e especialm ente dos m ousalsalets, decorre do fato de serm os m ais livres e m ais liberados que o resto dos países m uçulm anos”, acrescenta Yussef Osm an. “Nossos film es abrem um espaço de liberdade, abrem o im aginário dos j ovens árabes, e eles gostam da beleza de nossas m ulheres e da força de atração de nossos hom ens.” O ressurgim ento do islam ism o poderia m udar a tendência? Yussef Osm an se retrai um pouco em sua poltrona, debaixo do retrato do presidente Hosni Mubarak: Verem os. A televisão e o cinem a egípcios são cada vez m ais controlados por capitais dos países do Golfo. Isso não poderá deixar de ter efeitos. As atrizes voltam a usar o véu para atender ao m ercado e atingir um público m aior, especialm ente no Golfo. Certam ente tem os hoj e m uito m ais m ulheres cobertas com o véu do que há vinte anos. Manifestações sorrateiras de islam ização tam bém se m ultiplicam no audiovisual egípcio. O que igualm ente terá seus efeitos. Globalização versus islam ização: é este o debate atualm ente.
Verdadeira Cinecittà do Oriente Médio, espécie de Holly wood oriental, Media City é um com plexo cinem atográfico de alto nível, um dos m ais m odernos do m undo árabe. Seus estúdios, construídos no deserto, não têm concorrência, à parte talvez a Media City de Dubai. Zona franca oferecendo condições vantaj osas de film agem , o com plexo cinem atográfico foi criado pelo Ministério da Inform ação egípcio em 1998, com capitais públicos e privados. Inaugurado em 2002, ele oferece infraestruturas, equipes técnicas com contingentes e com petências consideráveis, autorizações de film agem no deserto ou diante das pirâm ides. “Se um produtor precisa de m il figurantes, eu posso encontrá-los em poucas horas”, explica Yussef Cherif Rizkallah. Com dois im ensos estúdios de cinem a, 75 palcos de film agem com cenários, cinquenta estúdios de televisão e 15 zonas de film agem ao ar livre em cenários naturais, o local, que visitei longam ente, é fascinante. Precise a produção de um a pirâm ide (de cim ento, apenas com a fachada), de um a estação ferroviária, de um a velha rua do Cairo, de um acam pam ento de beduínos, de um rio ou de um a floresta tropical ou até m esm o de um cam po de m inas com soldados israelenses de plástico, tudo está à disposição.
Com isso, equipes de produção vêm film ar em Media City de todo o m undo árabe, sobretudo dos países do Golfo, m as tam bém do Líbano, da Síria ou do Iraque, sendo os m ousalsalets iraquianos rodados atualm ente nos estúdios de October City. Os dirigentes de Media City tam bém esperam atrair equipes de film agem da Europa: na conversa com igo, fazem propaganda de seus equipam entos, sem se dar conta de que as regras de film agem , a questão do véu islâm ico e a proibição total de álcool podem determ inar um a certa hesitação dos produtores ocidentais. Mais um a vez, o que faz a força do Egito frente aos dem ais países árabes representa tam bém sua fragilidade diante do resto do m undo.
No fim da visita, no entanto, fica um a im pressão estranha, com o se o lugar encarnasse um a certa m ania de grandeza de outras épocas, não tanto o Egito dos faraós m as a Rom ênia de Ceausescu — versão Hosni Mubarak. Enorm es fontes das quais não sai nenhum a água; avenidas desérticas que não levam a lugar nenhum ; m ontanhas artificiais form adas de escom bros; pálidas cópias de esculturas egípcias; por toda parte, até na Master Control Room , vem os hom ens fazendo a sesta. O próprio prédio principal — batizado de “com plexo Mubarak A” — tem a form a da letra H. Pergunto por quê. “H de Hosni”, responde Yussef Cherif Rizkallah.
“As novelas do Ram adã feitas pelos egípcios não são m ais m odernas. Os m ousalsalets são históricos dem ais, invariavelm ente film ados em estúdio e abordam os m esm os tem as há quarenta anos. O público árabe não vai continuar suportando por m uito tem po, e os j ovens j á estão fugindo deles.” Em Dam asco, m eses depois, Firas Dehni, fam oso diretor de novelas de televisão e antigo diretor do departam ento de produção da televisão nacional síria, m anifesta suas dúvidas sobre o m odelo egípcio.
Na Síria, as séries de televisão vão de vento em popa. Enquanto o cinem a nacional está em pandarecos, as novelas vão m uito bem . “Elas encarnam a ‘Intifah’, a atual abertura do país”, explica Firas Dehni, com quem m e encontro num restaurante da cidade velha de Dam asco, num m om ento de pausa de sua equipe durante um a film agem . Prossegue ele: “Aqui, nós film am os na rua, em exteriores, e abordam os todos os tem as tabus, com o a corrupção, o sexo, o aborto, as drogas, as relações sexuais fora do casam ento e até a transexualidade. Mas é claro que existe um a linha verm elha além da qual não se pode ir” (trabalhando para a televisão estatal, Firas Dehni não diria m esm o qual é essa linha verm elha, m as eu sei que qualquer crítica política ou religiosa, qualquer distanciam ento em relação ao princípios m uçulm anos, qualquer defesa dos direitos hum anos ou da liberdade de associação, qualquer apologia de Israel, qualquer crítica ao presidente Bachar al-Assad levam diretam ente para a prisão, com o m e confirm ou o diretor de um a ONG entrevistado em Dam asco, depois de passar dois anos na prisão por ter defendido os direitos hum anos).
As novelas sírias são form atadas segundo o m odelo das séries am ericanas: cada episódio contém um a história com pleta, com início e fim , não sendo portanto necessário assistir toda noite para acom panhar o enredo. É o seu trunfo em relação aos “m ousalsalets” egípcios, nos quais os episódios vão se sucedendo durante toda um a tem porada, especialm ente durante o Ram adã.
Sentado à m inha frente num hotel do centro histórico de Dam asco, Makram Hannoush, um libanês que produz na capital síria várias séries de televisão, tenta entender o atual boom do audiovisual sírio.
É preciso relativizar as coisas. Em prega-se gíria, as film agens são feitas
em exteriores, existe m ais liberdade: tudo isso é verdade. Mas se por um
lado nossas séries são m uito inventivas, por outro dispom os de m enos
liberdade quando vem o Ram adã. Nesse período, tem os de retom ar
form atos tradicionais m uito rígidos, com o os egípcios, e voltam os ao
form ato em trinta episódios de 45 m inutos, num total de 22 horas e cinquenta
m inutos. Nem um m inuto a m ais! É isso o Ram adã.