Mainstream: A guerra global das mídias e das culturas
16. A cultura antimainstream da Europa
Aos 41 anos, Jonathan Karp, conhecido com o “Jon”, é a estrela do m undo editorial am ericano. Sou recebido por ele num a longa sala de reuniões refrigerada, onde podem se acom odar m ais de cem pessoas. Ele é o “editor in chief”, um a espécie de diretor editorial, da Random House, a m aior editora am ericana de livros (inform a-m e Karp: “a m aior editora do m undo”). Estou no núm ero 1.745 da Broadway, em Nova York, na esquina da 56th Street, três quarteirões ao sul do Central Park. No im enso saguão da Random House Tower, sede do grupo, m ilhares de livros estão expostos em cubos de vidro em pilhados até o teto, apresentando um a visão espetacular da produção editorial da casa. O título m ais conhecido com 60 m ilhões de exem plares vendidos em 44 línguas é o Código Da Vinci de Dan Brown.
“Publicam os de três a cinco m il livros por ano”, esclarece Karp, com um a precisão im pressionante. “Som os um a editora m ainstream , e estam os preocupados com os best-sellers.” Jonathan Karp visa particularm ente os “instant” ou “runaway best-sellers” (os que agradam a todo m undo, dos dois lados dos Estados Unidos). Explica-m e que tam bém publica autores m enos conhecidos, m as de grande potencial, quando considera que o livro pode alcançar o “tipping point” (expressão fam osa no m undo editorial am ericano e nos setores de m arketing, designando o ponto de virada a partir do qual um produto se torna desej ável em m assa e viciante). Fica atento tam bém aos livros que podem ser adaptados por Holly wood e que, exatam ente por este m otivo, m uitas vezes tornam -se obj eto de um a “opção” por parte de um estúdio, antes m esm o de serem publicados. Fora de questão, contudo, publicar um a m onografia ou um livro que não tenha um a história: às “novels”, rom ances tediosos, ele prefere as ficções, e aos livros acadêm icos, com um ponto de vista, argum entos e análises, que deixa para as editoras universitárias, ele prefere o que gosta de cham ar de “pop books”.
O instinto m eio editorial, m eio com ercial de Jonathan Karp e sua capacidade de identificar os livros m ais m ainstream de “fiction” ou “narrative fiction” (um relato docum ental ou um ensaio contando um a história que os leitores possam seguir do início ao fim ) valeram -lhe elogios do m eio profissional. “Eu não cuido dos livros editados pelo grupo”, explica, no entanto, Jonathan Karp, “m as apenas dos que são publicados especificam ente pela Random House, com seu próprio selo”. Na verdade, ele trabalha para a editora conhecida no m eio com o “Little Random ”, o selo Random House no interior do grupo Random House.
Nos Estados Unidos, com o na m aioria dos países ocidentais, a indústria do livro é organizada pelo sistem a de “im prints”, ou selos. No interior de um m esm o grupo, convivem várias editoras, aparentem ente independentes, com seu próprio nom e. Na Random House, por exem plo, existe um a centena de selos, com o Alfred Knopf, Ballantine, Bantam ou Pantheon Books, e cada um a dessas editoras publica cerca de um a centena de livros por ano. “Em geral, o selo preserva um a forte identidade editorial: é nesse nível que é feita a seleção de autores, que são coordenados o m arketing, a publicidade e as relações com a im prensa. Os hom ens-chave dos selos são os editores. Em com pensação, tudo que diz respeito ao ‘back-office’ é gerado pela Random House, a m atriz.” O que Karp cham a de “back-office” abrange a produção, a im pressão, a distribuição, as vendas, a estocagem de livros, a contabilidade, as questões j urídicas e os direitos derivados (vendas no exterior, plataform as digitais, vendas em e-Books e Kindle, adaptações audiovisuais). “Na esfera da m atriz, os hom ens-chave são os ‘num bers people’, os que cuidam dos núm eros”, prossegue Karp. Pelo que se diz nos Estados Unidos, esse sistem a m isto favoreceria a liberdade de criação e a diversidade de títulos do selo, assim com o a econom ia de escala, associada à distribuição em m assa, no interior do grupo. Por um lado, a quase autonom ia de um a start-up, por outro, o poder de im pacto de um a m ultinacional. Esse m odo de funcionam ento, característico das indústrias criativas, é encontrado igualm ente nas m aj ors da m úsica, com os “labels” (Colum bia Records, Arista ou RCA são labels da Sony, por exem plo) ou nas “unidades especializadas” dos estúdios holly woodianos (Focus Features na Universal, New Line Cinem a na Warner). E os grupos editoriais am ericanos têm seus selos, com o Sim on & Schuster ou The Free Press na Viacom , HarperCollins na News Corp.
Desde nossa prim eira conversa, a estrela do m undo editorial am ericano, Jonathan Karp, que ficou na Random House durante 16 anos, dem itiu-se para se transferir para o grupo concorrente, a Warner Books, ram o editorial da gigante Tim e Warner. A sede do grupo fica m ais ao sul, no núm ero 1271 da Avenue of the Am ericas, na m esm a torre que a revista Time. Karp foi nom eado presidente de um novo selo criado por ele próprio: Warner Twelve. “Nós publicam os livros dem ais e não encontram os tem po para cuidar deles. Vem daí o nom e desse selo, no qual passei a publicar apenas doze livros por ano”, explica agora Jon Karp.
Assim funciona a edição am ericana. E no entanto nenhum desses dois gigantes do m undo editorial além -Atlântico, nem a Random House nem a Warner Books, é am ericano realm ente. A Random House, a m aior editora dos Estados Unidos, pertence ao gigante alem ão da m ídia Bertelsm ann. Quanto à Warner Books, foi com prada em 2006 pelo francês Hachette Book Group (Lagardère), e o selo Warner Twelve de Jonathan Karp passou a se cham ar sim plesm ente Twelve. Duas das principais editoras am ericanas são na verdade europeias.
“Nós som os m uito descentralizados. Tentam os encontrar a necessária sinergia, m as a edição de livros continua sendo um a atividade m uito artesanal. A concorrência interna é sadia”, explica Arnaud Nourry, diretor-presidente da Hachette Livre. Por sua vez, Axel Gantz, editor de sucesso e um dos representantes da Bertelsm ann na França, conversando com igo longam ente num trem -bala, confirm a: “A Bertelsm ann tem um a filosofia de total descentralização, todas as decisões são tom adas no nível daqueles que estão realm ente com a responsabilidade”. Na Alem anha, na sede da Bertelsm ann, onde eu não sou recebido e onde as raras pessoas com quem consigo conversar só falam sob condição de não serem identificadas, fico sabendo que “a Bertelsm ann é um a m ultinacional extrem am ente descentralizada, cada unidade tem total liberdade para conduzir seus negócios; só a estratégia e a política de investim entos são coordenadas”. A m atriz, Bertelsm ann, adm inistrada por um a fundação fam iliar e sem cotação na bolsa, não quer controlar nem coordenar a política editorial da Random House, com o tam pouco dirige os program as da RTL, do Channel 5, da M6 ou da Fun Radio, igualm ente pertencentes ao grupo. “O verdadeiro patrão da Bertelsm ann durante quase sessenta anos, Reinhard Mohn, recentem ente falecido, encarnava um a espécie de sobrevivência do m odelo capitalista renano: fam iliar e regionalizado. Cada ram o, assim , é extrem am ente autônom o, e cada em pregado tem suas responsabilidades, graças a um a cultura de parceria entre a direção e os em pregados”, explica-m e um dos m em bros do conselho fiscal da Bertelsm ann. Em bora eu não tenha obtido confirm ação prática desse m odelo salarial idílico, é verdade que a descentralização é bastante acentuada nos ram os do grupo que visitei, em Praga, Paris e Nova York. “Não precisam os pedir sinal verde à Bertelsm ann. Eles não nos controlam na frente editorial nem em nossas decisões com erciais, m as apenas nos rendim entos e resultados de vendas”, confirm a, em Praga, Jan Knopp, diretor de m arketing da editora Eurom edia, que pertence à Bertelsm ann.
Com isso, os livros e j ornais editados pela Bertelsm ann, as m úsicas com ercializadas por sua filial BMG Publishing, os program as de televisão e rádio do grupo não são alem ães — m uitas vezes, sequer europeus. A Random House é um a editora inteiram ente am ericana.
A Europa dos 27 países reunidos na União Europeia é um continente vasto e extraordinariam ente diverso que m ereceria um trabalho voltado exclusivam ente para seus m eios de com unicação e sua cultura do divertim ento. Seria necessário descrever o papel crucial da BBC no m undo, o im pério Berlusconi no contexto italiano, analisar detalhadam ente as m ultinacionais francesas Vivendi e Lagardère, as britânicas EMI e Pearson, a espanhola Prisa, a portuguesa SIC, a rom ena CEM e tantas outras. Em certa m edida, realizei essa investigação nesses diferentes grupos, m as sua descrição, repetitiva, e podendo ser lida em outras obras, seria aqui fastidiosa. Sendo assim , preferi privilegiar neste capítulo europeu final um a abordagem oblíqua, m ais defasada e im pressionista, girando em torno de cinco narrativas: os paradoxos do sucesso do video gam e francês, o retorno dos tchecos à Europa, as tensões culturais na Bélgica, o papel de Londres e Paris com o capitais da m úsica africana e, finalm ente, nos confins do continente, as expectativas europeias da Turquia, entre a am ericanização e a islam ização.