Uma Mulher Perfeita
Capítulo sete
A agente Victoria Santos estava sozinha em seu sedan do FBI na MacArthur Causeway, o porto de Miami era um borrão na janela do lado do passageiro. As gigantescas embarcações que tornavam Miami a capital de navegação do mundo estavam no mar, mas havia diversos navios porta-contentores no porto, e rebocadores levavam diversos outros pela rota marítima de Government Cut. Victoria passou por três faixas de trânsito que seguiam para o leste, dirigindo a 110 quilômetros por hora em uma área de oitenta quilômetros por hora, ansiosa para chegar a South Beach.
Victoria era nova no trabalho de campo do FBI em Miami, mas a cidade não lhe era desconhecida. Em seu primeiro ano em Quantico, ela travou uma batalha mental com um serial killer geograficamente itinerante com meia dúzia de vítimas encontradas. A única pista era um informante anônimo de jornal que tinha uma estranha habilidade de prever cada assassinato, ocasião, local e vítima. Ou seria ele o assassino? Quem recebia as dicas era Mike Posten, um repórter policial do Miami Tribune. A caça em escala nacional tinha sido uma coordenação incomum entre a polícia e a imprensa, e houve diversas reuniões tarde da noite e conversas intensas entre Victoria e Mike. Ela era solteira, mas Mike era casado, o que impedia a “coordenação” em qualquer outro nível.
Tinha ficado para trás, junto com a ponte Tamiami.
Victoria passou por um caminhão que se deslocava devagar e continuou rumo a South Beach. Mas Mike continuava em sua mente. Naquela época, a sede do Miami Tribune ficava perto das margens da baía Biscayne, e a redação tinha uma vista impressionante de Miami Beach a leste. Santos se lembrou de uma noite, tarde, quanto o silêncio e a distância entre ela e Mike tinham se tornado ambíguos, até ele de repente romper o contato visual, ir nervosamente até a janela e começar a bancar o guia turístico, só para mudar de assunto.
— Sabia que Miami Beach na verdade é uma ilha artificial? — perguntou Mike. — O Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA a construiu, só para criar algum tipo de proteção contra um furacão no continente.
Ela não lembrava ao certo se Mike tinha usado o termo “faixa de areia de um bilhão de dólares” ou se essa lembrança vinha de algum outro relato de como essa área estreita de aterro tinha atraído milhões para trabalhar, se divertir e viver.
Tyla Tomkins estava entre essas pessoas, e seu apartamento em South Beach era oficialmente a mais recente cena de crime do condado.
Victoria forçou as lembranças a desaparecerem e olhou pelo retrovisor, vendo de relance o centro de Miami e a torre de escritórios de 55 andares onde Tyla tinha trabalhado com direito corporativo para uma das firmas mais poderosas da cidade. Mais para o interior do continente, a oeste da linha do horizonte cheia de prédios, era onde o dia de Victoria tinha começado — no escritório do médico legista, local de repouso temporário de Tyla.
Victoria atravessou uma antiga área residencial diversos quarteirões ao sul e o brilho e o glamour da lendária Ocean Drive e sua irmã mais nova e boêmia, a Washington Avenue. A condomínio de Tyla tinha sido construído seguindo um revival de estilo de South Beach nos anos 1980, não no clássico art déco original de Miami Beach, mas aquela vista de frente para o mar, aliada a um encanamento e sistema de ar-condicionado que funcionavam, era digna de nota. Todas as vagas dos dois lados da rua estavam ocupadas, o que era normal.
A fila dupla de carros parados sem dúvida era uma aberração, especialmente no meio da tarde. Victoria parou atrás de um dos carros verdes e brancos do Departamento de Polícia de Miami-Dade, deixando a sirene no painel, e entrou no prédio. Ela mostrou suas credenciais ao policial uniformizado de Miami Beach posicionado do lado de fora das portas duplas do lobby no térreo.
— Estou aqui para falar com o tenente Riddel — avisou Santos.
Riddel estava com o esquadrão de homicídios.
— Sétimo andar — respondeu ele. — Você vai precisar usar as escadas, que já foram liberadas. A equipe de investigação criminal ainda está trabalhando nos elevadores.
— Sem problema — respondeu Victoria.
O policial voltou sua atenção para um grupo de moradores que estava reclamando por não poderem entrar no próprio prédio. Victoria passou por baixo da fita de isolamento que demarcava a área e subiu as escadas.
Era fácil imaginar Tyla Tomkins naqueles degraus, preferindo fazer exercício em vez de pegar o elevador depois de um dia longo e sedentário no escritório. Até onde se sabia, ela era viciada em exercícios físicos e tinha sido abençoada com inteligência e com uma beleza impressionante. Uma aula de spinning perdida tinha sido o primeiro alerta.
— Tyla nunca perdia a aula das seis da manhã — disse o instrutor à polícia — não importava o que tivesse feito na noite anterior.
Victoria encontrou outro policial posicionado no sétimo andar. Ele a escoltou pelo corredor até o apartamento de Tyla. A porta estava aberta. Lá dentro, uma equipe de investigadores estava trabalhando, vasculhando tudo com feixes de luz, fazendo um pente fino em cada detalhe, embalando, rotulando e fotografando tudo o que pudesse ser importante. Victoria foi direto para a sacada, atraída pela vista do Atlântico, mas a equipe de investigação criminal já estava imune a ela, concentrada em sua tarefa. Ela encontrou o detetive Riddel na sala.
— Está basicamente limpo — comentou ele. — Não há uma gota de sangue em lugar algum.
Victoria já tinha trabalhado com ele anteriormente. Tinham se cruzado pela primeira vez três anos antes, quando o departamento de polícia de Miami-Dade chamou a Unidade 2 de Análise Comportamental para ajudar em um sequestro que, tragicamente, se tornou um homicídio. Ela sabia que Riddel era meticuloso e dedicado — tão dedicado que, rezava a lenda, raspava a cabeça só para evitar uma possível contaminação de uma cena de crime com seu próprio cabelo. O fato de isso deixá-lo parecido com Taye Diggs era só um efeito colateral benéfico.
— É consistente com nossas vítimas anteriores — disse Victoria. — Nenhuma delas foi atacada em casa. Mas ainda precisamos determinar o local do crime de fato.
— Depois de ver as fotos da autopsia, eu diria que ele usou seu facão em algum outro lugar. Mas ainda é possível que o assassino tenha estado aqui. Também não posso eliminar a possibilidade de a vítima ter morrido aqui e ter sido levada para outro lugar.
— Algum sinal de resistência?
— Até agora, nada.
O olhar de Victoria percorreu a sala. Os móveis eram modernos, do tipo caros, mas não muito confortáveis. As cadeiras basicamente eram tiras duras de couro sobre estruturas cromadas, de alguma forma amenizadas por almofadas. O sofá não era nem largo nem macio o suficiente para alguém desabar depois do trabalho, e não havia aparelho de TV para assistir. O medo de macular o tapete de seda tibetana teria paralisado qualquer convidado merecedor de uma taça de vinho. A aparência e a sensação pareciam ter saído direto de um editorial de revista de decoração, o apartamento estiloso de uma jovem profissional que morava sozinha e passava muito mais tempo no escritório do que relaxando em casa, e ganhava mais do que o suficiente para contratar um decorador de sucesso e esvaziar um showroom de uma loja de decoração cara.
— Vou mostrar o quarto para você — disse Riddel.
Era um apartamento de dois quartos, mas o menor era um escritório. Victoria o acompanhou até a suíte, que não era muito pequena para um imóvel em South Beach, mas com certeza não era grande o bastante para a cama king-size que a dominava. Quase não havia espaço para caminhar entre o pé da cama e a cômoda. O espelho acima dela, virado para a cama, também era grande demais para o quarto.
— Pelo jeito, ela gostava de se ver dormindo — comentou Riddel.
Victoria entendia que o humor policial fazia parte do kit de sobrevivência da equipe de homicídios, mas lançou um olhar para ele que demonstrava zero tolerância para piadas sobre vítimas. O detetive entendeu a mensagem.
— Desculpe — disse ele.
A agente Santos foi até a cama. A roupa de cama tinha sido tirada, deixando apenas o colchão nu.
— Algum sinal de sangue ou fluidos corporais nos lençóis? — perguntou ela.
— Não que tenhamos detectado. O laboratório pode revelar outra coisa, mas eu duvido. A cama estava bem-feita quando chegamos aqui. Não parecia ter sido usada para dormir nem para outra coisa.
— Então se ela foi morta sábado à noite, que é o que o legista acredita, Tyla provavelmente saiu e não voltou para cá.
— É a minha aposta — disse ele. — Falei com a senhora Elias, uma moradora fofoqueira de setenta anos. De acordo com ela, Tyla quase não dormia aqui nos fins de semana.
— Ela tinha um namorado?
— Estamos investigando. Não identificamos ninguém em especial até o momento, mas temos uma coisa interessante.
Riddel a levou até uma caixa de joias sobre a cômoda. A caixa estava aberta, revelando uma bandeja superior forrada com veludo marrom. Os diversos brincos e correntes de ouro eram bonitos, mas foram os anéis de diamante que chamaram a atenção de Victoria. Havia dois, cada um com uma aliança de ouro.
— Anel de noivado e casamento? — perguntou ela, confusa.
— É o que me parece.
Victoria olhou mais de perto, mas não encostou em nada. Os diamantes tinham um corte redondo clássico, em estilo Tiffany.
— O da esquerda parece ter meio quilate. O outro, provavelmente quase dois.
— Um belo anel — comentou Riddel. — Se for verdadeiro.
— Tyla estava usando um anel de diamante de um quilate quando o corpo foi encontrado. Era verdadeiro.
— Até onde eu saiba, ela nunca foi casada. É a mesma informação que você tem?
— Exato — respondeu Victoria. — Nunca foi casada.
— Então uma deslumbrante mulher solteira sai num sábado à noite usando um anel de noivado e uma aliança de casamento? E tem outro jogo em sua caixa de joias em casa?
— É o que parece.
— O que isso significa? — perguntou Riddel. — Tyla enrola os homens, os faz comprar anéis de noivado e termina com eles?
— Pode ser — disse Victoria. — Ou ela mesma os compra.
— De todo jeito, isso é bem interessante, você não acha?
Victoria olhou para a cama gigantesca, para o espelho exagerado e de volta para os anéis.
— Pois é — disse ela. — Muito interessante.