Uma Mulher Perfeita
Capítulo vinte e oito
De trás da fita amarela da polícia, vi a agente Santos e sua nova fiel escudeira do setor de violência doméstica. As duas estavam fingindo não me ver. Eu estava fingindo que isso não me incomodava.
Uma esnobada da detetive Reyes era especialmente difícil de engolir.
Muitos promotores experientes do nosso escritório, incluindo eu, tinham trabalhado com violência doméstica em algum momento da carreira. Algumas das minhas melhores atuações profissionais tinham sido ao lado de Reyes, todo um espectro de casos — agressão, violência sexual, violação de liminares, perseguição. O chefe do setor de crimes domésticos tinha sido um dos maiores entusiastas da minha promoção para a Homicídios, aonde fui para processar quatro casos de uxoricídio. Todos envolvendo infidelidade. Dois eram adúlteros cujas esposas tinham prometido levar tudo no divórcio. Um não conseguiu se controlar quando a mulher disse que ia deixá-lo por outro homem. Um quarto era só bizarro, um sujeito que gostava de se masturbar enquanto via a mulher fazer sexo selvagem e que não fez nada para impedir que um halterofilista entupido de anabolizantes a estrangulasse até a morte. Com exceção dos casos envolvendo uma confissão, eram o casos mais fáceis de obter condenação em que eu já tinha trabalhado. Todos receberam a pena de morte.
Tentei não demonstrar raiva quando Rid veio na minha direção. Ele parou na fita. Parecia exausto, como se tivesse lutado dez rounds com um campeão peso-pesado.
— Santos quer ver meu release de imprensa.
O campeão tinha acabado de desferir mais golpe e, desta vez, tinha sido em mim. Eu era o autor do texto.
— O que você disse?
— Que estava no carro.
— Você vai mostrar a ela?
Ele olhou para o outro lado da estrada, na direção de Santos, e virou para mim.
— Não posso recusar. Santos é a coordenadora da força-tarefa da investigação do Cortador.
Eu estava lidando com os medos e a realidade o dia todo, mas ainda me dava um frio na espinha ouvi-lo falar de um serial killer em termos tão objetivos.
— É disso que estamos falando? — perguntei. — Angelina faz parte da investigação do Cortador?
— Não, não, Abe. Ainda não chegamos lá. Talvez não cheguemos nunca. Não perca a esperança. Deus permita que não seja um homicídio, mas, se as coisas seguirem esse rumo, para algumas pessoas as únicas duas possibilidades parecem ser o Cortador ou…
— Ou eu.
— Sim. Você.
— Por quê? — perguntei, mas era quase retórico. — Como Santos pode achar que matei minha mulher?
Ele não respondeu imediatamente, mas eu podia ver em sua expressão que Rid estava se perguntando a mesma coisa.
— Quer minha opinião sincera?
— Quero, sim.
— Já lidei com esses tipos do FBI antes, as estrelas em ascensão que chegam até a Unidade de Análise Comportamental e fazem uma investigação de serial killer seguida da outra. O índice de exaustão no meu trabalho é ridículo, mas, comparado com essas figuras, não é nada. Eles têm as piores estatísticas da polícia. Chega um dia em que você entrou na cabeça de psicopatas demais, olhou nos olhos de muitas vítimas sem vida do pior dos piores assassinos. Santos não me disse isso, mas estou imaginando que é por isso que ela foi transferida para Miami. A agência está contando que um pouco de tempo trabalhando em campo coloque alguma vida de volta nela.
— Então o que você está dizendo? Ela foi demovida, e está descontando em mim?
— Não, você não entendeu nada. Acho que Santos elaborou tantos perfis de serial killers sádicos sexuais que seu cérebro está condicionado. Alguma coisa em Angelina não se encaixa nisso.
Parei para pensar um pouco nisso antes de responder. O barulho dos geradores era o único som ao nosso redor.
— Acho que se você inverter as coisas, e olhar pelo lado positivo, eu deveria me sentir reconfortado.
— Reconfortado?
— Sim. Na verdade, é uma coisa boa, certo? Uma das mentes mais bem-treinadas do país parece convencida de que minha esposa não foi vítima de um serial killer.
— É um olhar positivo — concordou Rid.
— Mas faz surgir uma questão, não faz? Se não foi o Cortador, e não fui eu… onde ela está?
— Eu prometo uma coisa, Abe. Não vou parar de procurar até ter uma resposta.
Um dos geradores rugiu, emitindo uma luz industrial pela estrada até o aterro, na direção da equipe de busca procurando mais um corpo nos Everglades. Uma resposta.
— Vamos torcer que seja uma resposta com que eu possa viver — eu disse.