Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 1 de 67

Páginas do PDF

Uma Mulher Perfeita

Dedicatória

para Tiffany

CAPÍTULO UM

 

Inacreditável era a palavra certa para ela. Samantha Vine era inacreditavelmente linda. Era inacreditável que ela tivesse se casado comigo. Mais inacreditável ainda era que estivesse morta.

Também era bem inacreditável que eu tivesse me apaixonado e me casado novamente. Mas resiliência é mais a regra do que a exceção, não é? Pessoas se apaixonam. Pessoas morrem. De alguma forma, as pessoas se recompõem e seguem em frente, aceitando ou não a canção espiritual reconfortante de que a morte não passa de uma grande mudança de endereço. Agora, a coisa mais inacreditável sobre Samantha não tinha nada a ver conosco. Para ser específico, não era nem sobre ela, era sobre o pai dela: Luther Vine tinha sido um escravo afro-americano.

Isso é loucura, você diria, e não porque acha que sou um branco maluco tentando se inserir na história dos negros por meio do casamento. Ou talvez seja parte do que você está pensando. Mas, em grande parte, é pela desconexão entre as gerações.

Entendo totalmente o ceticismo. A escravidão foi proibida em 1865 com a adoção da Décima Terceira Emenda à Constituição dos Estados Unidos. Samantha sequer havia sido concebida quando o então presidente Jimmy Carter vestiu um cardigã em uma Casa Branca gelada e pediu para que todos os americanos fizessem como ele: preservassem energia e baixassem o termostato para 13 graus à noite. Durante todo o inverno, Luther e Carlotta Vine deitavam na cama e se aqueciam à moda antiga. A questão é que o racismo continua existindo, mas Samantha estava tão distanciada do fim da escravidão como instituição que nunca conheceu uma Suprema Corte americana sem justiça para os negros. Ela não tinha lembranças da NFL, a Liga de Futebol Americano, sem um quarterback negro. Ela não saberia sequer citar um sucesso do Prince de antes de ele se tornar “o artista anteriormente conhecido como Prince”.

Então, vamos voltar à linha do tempo complicada. Mesmo se o pai de Samantha de fato fosse um homem velho quando ela nasceu, a conta não fechava. Aliás, isso vai de encontro com a história. O último escravo americano morreu em 1971. Nenhum dos filhos de Sylvester Magee estava vivo para ver a lápide que finalmente foi feita em sua homenagem no Mississippi mais de quatro décadas depois de sua morte — coincidentemente, o mesmo ano em que perdi minha esposa.

Samantha Vine, filha de um escravo?

— De jeito nenhum — as pessoas me dizem. — Não, a menos que eu não esteja me lembrando de alguma coisa.

— Você não está se lembrando de alguma coisa.

— O quê?

— De que você não sabe de nada.

— Vá se foder, Abe. É você que não sabe merda nenhuma.

— Não — respondo. — Você não sabe de nada.

Estou falando da Açúcar Big.

No outono de 1941, um grupo de homens viajou pelo Sul dos Estados Unidos e visitou locais onde se encontrava a maioria da população negra em cidades como Memphis e Biloxi oferecendo “trabalho estável” para “agricultores de cor” de dezoito anos ou mais. Não importava que Luther Vine tivesse apenas 16 anos. Nada naquela oferta era legítimo. “Aproveite o sol da Flórida nos meses do inverno”, o anúncio prometia, “enquanto colhe cana-de-açúcar nas plantações da Companhia Nacional de Açúcar”. Luther não era idiota. Usar um facão o dia todo, cortando pés de cana de três metros e meio e da espessura do pulso de um homem e carregar toneladas de cana em um caminhão não era para garotos de faculdade. “Não importa como você corte”, Luther costumava dizer, “é sempre um trabalho braçal”. Mas a empresa prometia um bom pagamento, que podia chegar a trinta dólares por semana. Um bom alojamento, livre de aluguel e com refeições incluídas, transporte para a Flórida, atendimento médico gratuito e lazer, tudo estava incluído no pacote. Ele se inscreveu e embarcou no caminhão com os outros inscritos.

O destino deles era Clewiston, a “cidade mais doce do mundo”, onde milhares de acres de cana-de-açúcar tocavam a margem sul do lago Okeechobee nos Everglades da Flórida. A viagem levou dois dias. Os homens eram alimentados duas vezes ao dia, com mortadela e uma fatia de pão. Ao chegar, cada recruta recebeu uma conta de 11 dólares — o custo do transporte “gratuito” desde Memphis. Mais cobranças logo se acumularam. Setenta e cinco centavos por um cobertor. Cinquenta por um facão. Mais trinta centavos por uma lima para afiar a lâmina. Um dólar por um crachá que identificava o trabalhador como funcionário da empresa. Cinquenta centavos pela água que não fosse suja demais para beber. Os trabalhadores estavam atolados até o pescoço em dívidas antes mesmo do primeiro dia de trabalho, que começou com o café da manhã às três e meia da madrugada. Eles chegaram ao canavial às quatro e meia, depois pararam para um almoço rápido e cortaram mais cana até escurecer. O pagamento pelo primeiro dia foi um dólar e oitenta centavos, quatro a menos do que a quantia prometida. Os superintendentes patrulhavam, armados com cassetetes e revólveres, ameaçando qualquer um que não trabalhasse duro o bastante ou que estivesse resmungado que gostaria de ir para casa. A melhor chance de fugir era à noite. Depois de três semanas — 21 dias de trabalho ininterrupto, chovesse ou fizesse sol, do nascer ao pôr do sol — nove trabalhadores escaparam dos alojamento no acampamento da empresa. Luther era um deles. O plano era pegar carona até Memphis. Eles foram capturados a trinta quilômetros de Clewiston, multados em quarenta dólares por “vadiagem” e levados de volta ao campo. A única maneira de pagar a multa era cortar mais cana. Ingenuamente, Luther pediu permissão para converter a multa em encarceramento, preferindo a cadeia. O superintendente o acertou com o cassetete e disse que ele poderia ir assim que pagasse o que devia à empresa, e ele tinha uma dívida que aumentava a cada dia, pois bebia água demais no canavial e tinha precisado de atendimento médico por causa de uma picada de cobra.

Houve fugas suficiente para que as notícias chegassem a Memphis e, de lá, até o Departamento de Justiça em Washington, DC. O próprio Herbert Hoover aprovou o relatório de sessenta páginas da investigação do FBI. Um júri federal na Flórida indiciou a Companhia Nacional de Açúcar e diversos funcionários por “conspiração para violar o direito e o privilégio dos cidadãos de serem livres da escravidão de acordo com a Décima Terceira Emenda”.

Então, chamar Luther Vine de ex-escravo não era exagero, mesmo que a acusação tenha sido tecnicamente indeferida. Os advogados dos canavieiros alegaram que o júri estava comprometido, pois não havia nenhum fazendeiro. Claro. E Timothy McVeigh deveria ter reclamado da ausência de terroristas no júri que o indiciou pelo bombardeio de Oklahoma City.

De todo modo, o pai de Samantha estava chegando a seu nonagésimo aniversário. O velho e eu ainda éramos próximos, ou o mais próximos que podíamos ser. Luther estava demonstrando sintomas de demência e, mesmo tendo dias bons, ainda dizia às pessoas da clínica que seu genro era Abraham Lincoln. Um exagero, claro, mesmo que eu fosse um advogado alto e branco com 87 julgamentos no currículo. Eu só concordava com qualquer coisa que Luther dissesse.

Só o deixava confuso ouvir que eu era o advogado sênior do Escritório da Promotoria do Condado de Miami-Dade, a referência para casos em que a pena capital estava envolvida.

— Estou procurando a agente do FBI Victoria Santos — informei à policial.

Seu carro preto, os faróis piscando, era uma das seis viaturas bloqueando o acesso a uma ponte de um quilômetro e meio que atravessava o coração dos Everglades. A Tamiami Trail era a via principal que ligava o leste e o oeste da Flórida abaixo do lago Okeechobee, o segundo maior lago dos Estados Unidos continentais.

— E quem é você?

— Abe Beckham, promotor público — respondi, mostrando meu distintivo.

Não era meu trabalho visitar todas as cenas de crimes do condado Miami-Dade, mesmo que houvesse um possível homicídio. Mas quando o FBI estava rastreando um serial killer, então era crucial que alguém de um escalão mais alto no escritório da promotoria se mantivesse a par da investigação. O assessor da promotoria tinha me pedido pessoalmente para dar andamento ao relato de um corpo nos Everglades e que parecia ser uma quinta vítima no sul da Flórida.

— Naquela direção — disse a policial, apontando para um grupo de agentes da polícia ao lado da ponte. Eles estavam na pista dupla da rodovia que corria paralela à ponte nova, e que não estava mais em uso.

Agradeci e passei por baixo da faixa amarela da cena do crime.

— Olá, Abe! E aí?

Parei ao ouvir a voz familiar. Era a repórter policial do Action News. Estávamos a três quilômetros da fronteira oeste da área urbana, longe demais do centro de Miami para que os arranha-céus estivessem visíveis, mas dava para ver as torres das vans da imprensa na longa fila de congestionamento que seguia na direção do sol da manhã. Os helicópteros, com certeza, viriam na sequência. Não teria me surpreendido ver uma equipe de televisão ou duas chegando de barco — tudo para ter a notícia em primeira mão.

— Nada a declarar, Susan.

— Ah, qual é, Abe.

Susan Brown tinha coberto pelo menos uma dúzia dos meus casos de assassinato, e em geral eu revelava o que podia para ela, mas, desta vez, eu não tinha nada. Virei as costas e continuei caminhando pelo dique.

A velha estrada tinha passado por muitas melhorias desde que os primeiros Fords T passaram por ela, em 1928, e para muitos uma nova ponte elevada parecia um desperdício de dinheiro. Mas fazia parte de um projeto multibilionário de restauração dos Everglades, sendo que boa parte tinha como objetivo desfazer o impacto negativo da bem-intencionada, mas catastrófica, obra da Usace, o Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos no século XX. Aterros e canais construídos pela Usace abriram planícies de restinga para canaviais e outras fazendas, e estradas como a Tamiami Trail, com seus mais de 440 km, tornavam os pântanos trafegáveis por motoristas. O problema na obra toda era o fluxo de água essencial para a saúde dos Everglades. A nova ponte era elevada por estacas, adjacente à estrada antiga, para aliviar o efeito de represamento.

Pulei da barragem para a velha rodovia, mas não cheguei ao outro lado e afundei até os joelhos na lama.

— Ah, merda.

Não eram só os sapatos e a calça molhados: são mil anos de decomposição para criar trinta centímetros de turfa, e eu tinha acabado de liberar o fedor de 999.

— Me deixe ajudar, parceiro — disse um dos guardas.

Ele me puxou pelo braço, e a lama me puxou como uma ventosa conforme meu pé emergia da versão de areia movediça dos Everglades.

Cogitei lavar a sujeira preta na água parada do aqueduto, mas o jacaré de quase três metros tomando banho de sol na margem me fez mudar de ideia.

— Bem-vindo a Shark Valley — anunciou o guarda.

Da margem sul do lago Okeechobee, a água cor de chá corria por 150 km, ao sul da parte continental da Flórida e oeste do Golfo do México, parecendo leite derramado na mesa da cozinha. Cobrindo esses milhões de acres de águas tão calmas quanto um campo de trigo no Kansas, ondas de vegetação de restinga, uma espécie rara de junça que crescia há mais de quatro mil anos. Esse lendário “rio de grama” dividia a costa leste da Flórida da oeste, uma maravilha ambiental onde os visitantes encontravam répteis exóticos, peixes-boi e caracóis das cores do arco-íris, colhereiros, orquídeas-fantasma, imponentes palmeiras-imperiais e aroeiras-do-sertão. Aqui, nuvens bíblicas de pernilongos podiam escurecer uma canoa branca em questão de segundos, e oceanos de estrelas preenchiam o céu noturno intocado pelas luzes da cidade. Não havia outro lugar na terra como esse. Raramente vinha para cá, exceto de passagem a cem quilômetros por hora a caminho de Naples.

Ou, num dia como hoje, para resgatar um corpo.

— Que frio do cão que faz aqui — murmurei, mas meu amigo guarda já tinha se afastado para tirar algum outro idiota da lama. Dez graus em fevereiro é simplesmente congelante para os padrões de Miami, e os agentes do FBI eram prontamente identificáveis com seus casacos impermeáveis azul-escuros com letras amarelas. Os agentes federais faziam parte de uma força-tarefa muito maior e multijurisdicional. A polícia de Miami-Dade estava no local, incluindo dois detetives do departamento de homicídios que eu conhecia bem e uma equipe da South Florida Homicide Clearing House, que tinha um papel fundamental em qualquer investigação que envolvesse uma cooperação interagências. A van do médico-legista estava estacionada na estrada. Vi apenas uma mulher com identificação do FBI, e ainda que ela provavelmente não se lembre de nosso encontro anterior, reconheci Victoria Santos. Fui em sua direção. A agente conversava com um membro da equipe de demarcação da estrada que estava repintando as faixas na ponte nova. Os olhos atentos dele tinham visto o corpo na vegetação à margem da estrada antiga.

— De início não parecia humano — disse o funcionário para ela.

Eu estava de lado, perto o suficiente para ouvir. Santos era uma mulher bonita, com cabelo curto e escuro, que refletia matizes carmim do sol da Flórida. Como era a coordenadora residente do Centro Nacional para a Análise de Crimes Violentos, estava na linha de frente como contato principal entre o FBI e a polícia local. Mas Victoria Santos era nova em Miami, e eu só a tinha visto uma vez, como instrutora do bureau de um curso somente para promotores convidados realizado na academia nacional em Quantico. Santos era uma veterana de vinte anos e uma espécie de lenda no FBI, não só porque era boa, mas também porque ela não tinha medo de desobedecer as regras, o que nem sempre significava fazer amigos na sede do FBI. Eu imagino que esse tenha sido o motivo pelo qual ela foi transferida da prestigiosa Unidade de Análise Comportamental, uma responsabilidade nacional, para o trabalho de campo em Miami, onde seu primeiro caso a afundou até o pescoço, por assim dizer, na lama dos Everglades.

— A primeira coisa que notei foi o anel — relatou a testemunha para Santos. — O diamante refletiu o sol e brilhou de um jeito que era impossível não ver. Eu estava na carroceria da picape, entregando os cones de trânsito para a equipe da estrada. Mas quando alguma coisa brilhou na vegetação e chamou minha atenção, eu apertei os olhos para ver melhor e pensei “O quê? Tenho certeza de que o anel está preso a um dedo”, então bati no teto da caminhonete e disse: “Charlie, pare a caminhonete!” Então Charlie e eu fomos até o guarda-corpo da ponte, e estávamos a quase vinte metros de distância, olhando para o pântano. Charlie concordou comigo. Com certeza era um anel na mão de alguém. Então joguei uma pedra naquela direção, e um jacaré monstruoso fugiu para lá. — Ele apontou para um monte a uns seis metros de distância. — Foi quando vimos o restante do corpo flutuando na superfície.

Santos era uma profissional e demonstrou pouca reação, mas o fotógrafo da cena do crime já estava fazendo seu trabalho, e eu sabia que um dia, em pouco tempo, se todos nós fizéssemos nosso trabalho, eu teria de mostrar ao júri algumas evidências bem horríveis. Fiquei ouvindo discretamente por mais dez minutos e deixei Santos terminar de questionar a testemunha antes de me apresentar. Ela respondeu me dizendo que estava liderando a força-tarefa de investigação de um serial killer conhecido como o Cortador. Era procedimento padrão do FBI lembrar a polícia local de que estava no comando, mas naquela situação Santos não estava apenas se impondo. As quatro vítimas anteriores do Cortador viviam no condado de Palm Beach, mais de 110 km ao norte, os corpos foram encontrados nos canaviais perto de Clewiston. Como todo mundo do condado de Miami-Dade, eu era um estranho na investigação mais ampla e ainda não era membro oficial da força-tarefa.

— Podemos falar por um minuto? — perguntei.

Santos assentiu, e procuramos um espaço longe da multidão. Atrás de nós, depois de um campo cor de bronze, havia uma vegetação de restinga onde um bando de garças encontrou um lugar para descansar acima das raízes retorcidas do mangue. O reflexo dos pássaros brancos nas águas calmas e pretas parecia ter saído direto de uma exposição de Clyde Butcher.

— Você acha que é a vítima número cinco? — perguntei.

— Difícil dizer neste momento — respondeu Santos. — Até agora, temos alguns indícios em comum. Mulher jovem. Corpo nu. Já conto pelo menos um ferimento grave feito por lâmina, provavelmente um facão. Mas seria o primeiro ataque do Cortador fora do condado de Palm Beach.

— Ou pode ser uma vítima do condado de Palm Beach e o primeiro descarte do corpo em Miami-Dade — eu disse. — O que faria sentido, não é? Depois de quatro vítimas deixadas nos canaviais de Palm Beach, deve ser bem arriscado despejar outro corpo ali. Ele deve acreditar que a polícia está em alerta máximo naquela área.

— Concordo totalmente com você em relação a isso — respondeu ela. — Mas, neste momento, ainda é muito cedo para saber se é o mesmo assassino. Definitivamente existem semelhanças, mas vamos ter de esperar para confirmar a violência sexual e alguns outros indicadores.

— Quais são os outros indicadores?

Ela fez uma pausa, sabendo o que eu estava perguntando: a marca registrada.

Muito havia sido divulgado na mídia sobre o Cortador, o assassino que mutilava suas vítimas com um facão de cortar cana e descartava os corpos nos canaviais. Mas a polícia sempre omitia alguma coisa nas investigações de crimes cometidos por serial killers, uma característica fundamental tão única dos crimes que funcionava como marca registrada do assassino.

— As marcas no rosto — disse Santos. — Mas vamos ter de fazer uma busca mais minuciosa para confirmar.

— Busca mais minuciosa para quê?

Santos olhou na direção da van do médico-legista, onde os restos da vítima estavam embaixo de um lençol branco em uma maca. Então o olhar dela percorreu os acres de vegetação ao longo da estrada, como se para medir a tarefa intimidante diante deles.

— Ainda estamos procurando a cabeça da vítima.

Eu inspirei e soltei o ar. Aquelas evidências tinham acabado de se tornar mais horríveis.

O assistente do médico-legista chamou Santos e caminhamos até a van. O FBI podia estar no comando da coordenação da investigação sobre o Cortador do ponto de vista administrativo, mas, em geral, homicídios eram questões locais, e o escritório do médico-legista do condado de Miami-Dade era meu território.

— Gostaria de apontar um grande desvio do perfil do Cortador — disse o legista.

— O quê? — perguntou Santos.

— Estamos muito longe de confirmar a identidade, e a decomposição acelerada que acontece nos Everglades pode tornar mais difícil a identificação da etnia da vítima. Mas posso afirmar com confiança que, se foi o Cortador, esta seria a primeira vítima não caucasiana.

Olhei para a maca, depois para o céu azul sem nuvens, meus olhos atraídos para o zumbido de um helicóptero. O primeiro helicóptero da mídia estava acima do local do crime, e eu podia sentir as questões intensas prestes a nos bombardear.

— A etnia de uma vítima costuma ser um componente crucial no perfil psicológico de um assassino — comentei, sabendo que não estava dizendo nada que Santos já não soubesse. — Isso muda sua opinião sobre ter sido o Cortador?

Ela pensou por um instante antes de responder:

— Você teria tempo para fazer uma viagem até o condado de Palm Beach comigo?

Eu tinha apenas um caso de apelação para reversão de pena de morte para prisão perpétua sem condicional, então minha agenda de julgamentos estava atipicamente livre.

— Claro. Para quê?

— Acredito que sempre podemos examinar as evidências com um novo olhar — respondeu ela. — E também adoraria ouvir você responder sua própria pergunta.

— Combinado — eu disse.

— Mas me faça um favor antes de nós irmos.

— Qual?

Ela olhou para meus sapatos cobertos de lama.

— Livre-se do visual de caçador de jacarés.

— Tudo bem. Eu posso fazer isso.