Uma Mulher Perfeita
Capítulo nove
Fiz questão de chegar alguns minutos adiantado para a reunião às oito da manhã no escritório de Carmen. Ela odiava esperar, o que era irônico. Na minha experiência, e sem exceção, uma reunião com Carmen seria interrompida nos primeiros dois minutos por um telefonema que ela absolutamente precisava atender, o que deixaria todo mundo esperando.
— Segure minhas ligações — instruiu ela à secretária.
Pelo jeito, as regras tinham mudado nessa manhã.
Naturalmente, Carmen tinha o escritório de canto mais espaçoso do prédio. Vista do último andar para o rio Miami, e o tribunal de justiça criminal atrás de suas cadeira de couro com encosto alto. Eu era a quinta pessoa na sala, contando Carmen e o diretor de recursos humanos, o que era o que “seguir o protocolo à risca” significava. Eu não esperava o tenente Riddel…
— Rid — eu o cumprimentei.
Tínhamos trabalhado juntos em diversos casos de homicídio, e eu gostava dele. Em algum momento, Samantha e eu tínhamos saído com Rid e a esposa, e eu ainda o considerava um amigo a ponto de chamá-lo pelo primeiro nome, DeWitt, o que ele achava que soava como “devi”, e que alguns sujeitos muito engraçados na delegacia transformaram em “dévio”.
A agente Santos estava na cadeira ao lado da mesa de Carmen, de frente para mim. A bandeira americana era uma peça de decoração da sala de Jimenez, e Santos conseguiu se sentar bem diante dela, o que a colocou na posição mais poderosa da sala.
— Bem, somos um grupo grande — comentei ao cumprimentar cada um com um sorriso desconfortável.
— Sente, Abe — disse Carmen. — Antes de passar a palavra para a agente Santos, tem alguma coisa que você queira nos contar sobre Tyla Tomkins?
Ela tinha levantado a bola amigavelmente, e eu aproveitei.
— Sim. Desde que vi o nome de Tyla ontem no noticiário, eu sabia que teria de revelar a nossa relação.
— Então você admite que a conhecia — perguntou Santos.
— Há muito tempo atrás.
Carmen colocou um bloco à sua frente na mesa, caneta em punho.
— Por que você não começa do começo, Abe?
— Eu a conheci em uma convenção profissional em Miami. Você me mandou para lá — expliquei, olhando para minha chefe. — Eu tinha acabado de começar a trabalhar aqui. Tyla estava no primeiro ano do curso de direito na época. Ela não estava interessada em trabalhar no escritório da promotoria, mas de alguma forma começamos a conversar. Acabamos jantando juntos. Meio que nos demos bem.
— E?
— E o quê?
— Foi isso. Ela voltou para Cambridge. Tyla estudava em Harvard. Uma mulher inteligente. Muito atraente.
— Quando você diz que vocês “se deram bem”…
Eu me mexi na cadeira.
— Isso está se tornando muito pessoal, você não acha?
— Meu principal promotor em uma investigação de homicídio serial teve uma relação com uma das vítimas. Se eu for considerar manter você no caso, preciso saber de tudo.
Eu conhecia Carmen bem e li nas entrelinhas. Ou ela faria as perguntas desconfortáveis, ou eu teria de enfrentar as de Santos. Melhor virem de Carmen.
— Certo, aqui vai. Eu tinha vinte e sete anos, estava trabalhando muito e não estava conhecendo muitas mulheres. Não tenho orgulho disso, mas também não estou me desculpando. Ter um encontro de uma única noite não era algo típico para mim, e tenho a impressão de que para ela também não era. Mas foi isso que aconteceu. Eu nunca mais a vi depois que ela voltou para a faculdade. Aquele foi o começo e o fim.
— Só isso? — perguntou Carmen.
— Só isso.
— Nada mais recente?
— Não.
Carmen suspirou, como se desejasse que a resposta tivesse sido diferente.
— Agente Santos, por favor, mostre os registros telefônicos ao Abe.
Olhei para Santos e em seguida para Carmen.
— Registros telefônicos?
Santos me entregou um arquivo impresso.
— O detetive Riddel encontrou um celular pré-pago no apartamento de Tyla Tomkins.
Fiz contato visual com Rid. Tínhamos acabado de trabalhar em um caso envolvendo celulares pré-pagos. Criminosos, especialmente traficantes de drogas, amavam o anonimato que esses aparelhos proporcionavam. Não era necessário fornecer nomes, identificação, informação de cobrança e nem responder perguntas. Trinta dólares compravam uma linha ativa que era praticamente impossível de rastrear.
— Por que Tyla teria um celular pré-pago? — perguntei.
— Talvez você possa nos dizer — respondeu Santos. — Estes são os registros das ligações feitas do aparelho nos últimos dois meses. Cinco delas são relevantes, as que estão destacadas.
Olhei para o arquivo e fiquei paralisado.
— É o meu celular.
— Este é exatamente o problema — emendou Santos.
Levantei os olhos da folha impressa e me deparei com o olhar acusatório do FBI.
— Não é possível — eu disse. — Eu nunca falei com Tyla por telefone.
Virei para Carmen, que desviou os olhos, como se fosse doloroso me ver naquela posição.
— É o seu número, Abe — respondeu ela.
Olhei mais uma vez para o arquivo.
— Não consigo entender. De verdade, não consigo.
Carmen olhou na direção de Santos, como se estivesse passando a bola para o FBI, por não poder mais me ajudar.
— Nossos técnicos já investigaram isso — continuou Santos. — Foram feitas cinco ligações para o seu celular. As primeiras quatro caíram no correio de voz.
— Bom, eu nunca recebi essas mensagens.
— O relatório técnico conta uma história diferente — disparou Santos. — Mensagens de voz não são como as de texto ou como e-mails. Elas não vagam pelo cyberespaço para sempre. Quando uma mensagem de voz é deletada, ela desaparece. Mas nossos técnicos podem confirmar quando a mensagem foi deixada, quando foi deletada e quando foi deletada permanentemente. Cada um desses recados foi deletado no mesmo dia em que foi deixado.
— Então devo tê-los deletado antes de ouvi-los. Nunca recebi uma mensagem de voz sequer de Tyla Tomkins.
Santos me olhou com ceticismo.
— Você costuma deletar mensagens de voz antes de ouvi-las?
— Não, claro que não.
— Você tem um assistente que checa suas mensagens por você?
— Não. É o meu celular. Eu mesmo faço isso.
— Seu celular tem senha?
— É política da promotoria — respondeu Carmen. — Nossos promotores não podem usar nenhum celular que não seja aprovado pelo nosso departamento de tecnologia e protegido por uma senha. Cada promotor define sua senha. Não pode ser nada simples, como um, dois, três, quatro; e é absolutamente proibido compartilhar essa senha com qualquer pessoa, mesmo que seja outro funcionário do escritório.
— Era uma senha segura — eu disse.
— Então você acidentalmente deletou suas mensagens de voz em quatro dias diferentes? E por acaso todas essas mensagens eram de Tyla Tomkins?
Eu hesitei, sabendo perfeitamente que Santos tinha formulado uma perguntava que não se prestava a uma resposta crível.
— Tudo o que posso dizer é que nunca recebi nenhuma dessas mensagens de voz. Talvez tenha a ver com esse celular pré-pago que ela usou.
— As pessoas usam celulares pré-pagos o tempo todo. Eles funcionam perfeitamente.
— E temos a última ligação — disse Santos. — Ela durou dois minutos, e nossos técnicos não encontraram nenhuma evidência de um recado de voz. Foi uma conversa de fato.
— Dois minutos podem significar uma ligação perdida.
— O discurso de Gettysburg inteiro foi feito em dois minutos, Abe.
— Eu nunca falei com ela por telefone.
— Então como você explica os registros telefônicos?
— Deve ter sido um erro.
— Então quatro mensagens de voz apagadas por acidente e um registro de ligação de dois minutos errado? Essa é a sua versão.
— Sei que parece suspeito.
Santos assentiu, o primeiro sinal de que concordava desde o início da conversa.
— Considerando que você admite um relacionamento prévio, eu diria que é mais do que suspeito.
— O que você quer dizer com isso?
Carmen interveio, colocando da maneira mais delicada possível.
— Foi a pergunta que fiz por telefone ontem à noite, Abe.
Você estava tendo um caso?
— Eu não estava dormindo com Tyla Tomkins, se é disso que estamos falando.
Santos disparou:
— É exatamente disso que estamos falando.
— O que, mais uma vez, não é da nossa conta — emendou Carmen. — Só que se trata da vítima de um serial killer cujo julgamento pode ter você como promotor, e você não revelou essa informação.
— Carmen, isso não aconteceu.
Santos retomou o controle, falando tanto para ela quanto para mim.
— Na verdade, vai além de Abe continuar ou não no caso.
— Além como? — perguntei.
— Sei que estamos tratando da investigação de um serial killer — continuou ela. — Mesmo assim, em qualquer investigação de homicídio, um homem casado dormindo com a vítima é sempre uma figura de interesse. Especialmente quando o homem casado está mentindo sobre o caso.
— Eu não estou mentindo e não estava tendo um caso.
— Espere um pouco — interveio Carmen. — Antes que isso saia do controle, vamos fazer alguns ajustes simples. Abe, eu amo você, mas tenho muitos promotores talentosos. Você está fora do caso Cortador.
— Eu ia sugerir isso — respondi.
— O que é o correto a fazer — continuou Carmen. — Agora, a discussão sobre o suspeito. Agente Santos, eu entendo a perspectiva do marido adúltero. Mas Abe não matou Tyla Tomkins. Então se sentir a necessidade de colocá-lo em alguma lista que a força-tarefa está criando, peço que você seja extremamente discreta. É a reputação profissional de um bom homem que está em jogo, sem contar seu casamento.
— Discrição é uma coisa boa — respondeu Santos.
— Obrigada — disse Carmen. — Então está tudo certo?
Ninguém discordou. Carmen levantou, agradeceu e nos acompanhou até a porta.
Rid tinha trabalho a fazer com outro promotor e foi em uma direção. Santos foi para o outro lado, rumo ao elevador.
Fiquei incomodado como as coisas tivessem se tornado tão gélidas entre Santos e eu. Agora eu estava fora da investigação do Cortador, então não era mais fundamental que nós nos déssemos bem, mas eu odiava perder o respeito de qualquer agente da justiça. Fui atrás dela pelo corredor.
— Agente Santos?
Ela parou, e eu a alcancei perto dos elevadores.
— Tenho a impressão de que houve algum dano à nossa relação aqui.
— Você acha?
— Quero que você saiba que eu não tive um caso com Tyla Tomkins.
Santos não esboçou nenhuma reação — nada além de um olhar de reprovação para um homem cuja esposa era a última a saber. O elevador chegou, e as portas se abriram.
— Eu entro em contato, sr. Beckham.
De repente, eu virei o sr. Beckham.
Ela entrou no elevador e desapareceu.