Uma Mulher Perfeita
Capítulo trinta
Eram quase nove horas da noite quando Victoria bateu na porta de JT. A detetive Reyes estava a seu lado na entrada. O trinco estava preso, e JT falou com ela com a cabeça enfiada entre a porta e o batente.
— O que vocês querem?
— Sou a agente…
— Eu sei quem você é — interrompeu ele. — Você veio à minha casa com o detetive Riddel para pegar minha secretária eletrônica. Quem é ela?
Reyes se apresentou e mostrou seu distintivo.
— Queremos falar com você sobre Angelina — disse Victoria.
— Não posso falar agora, estou vendo um filme.
O volume da televisão estava alto no fundo. Parecia um filme tipicamente masculino, algo com muitos efeitos especiais, talvez Transformers ou Homem de Ferro.
— Você sabe que Angelina está desaparecida, não sabe?
— Sei. Abe me contou.
— E você não pode parar cinco minutos para conversar com a gente?
Ele fez a careta de um adolescente que está jogando videogame depois da meia-noite.
— Ah, tudo bem. Vou parar o filme.
JT desapareceu, a corrente fez barulho, e a porta se abriu. Ele estava usando apenas uma bermuda de basquete que chegava até seus joelhos, sem camisa nem sapatos. A tornozeleira estava no lugar, Victoria notou. Ele conduziu as duas até a sala de TV e parou o filme. Victoria tinha acertado em cheio: era o Homem de Ferro 2.
— Sentem-se.
As mulheres ocuparam o sofá. JT sentou em um pufe laranja claro. O resto da sala tinha uma decoração de bom gosto, com um toque feminino, e Victoria teria apostado que o pufe laranja era o único móvel que não tinha sido escolhido pela finada irmã. E usou isso como ponto de partida.
— Belo apartamento, JT. Sua irmã escolheu todas essas lindas peças?
— Foi. Menos o pufe.
Dois chutes, dois acertos.
— Foi contribuição sua, ou um toque do Abe?
— O pufe é meu. Dois dólares em um bazar. Abe nunca traria uma porcaria dessas para a casa de Samantha. Ele fazia tudo o que ela queria.
A conversa estava indo exatamente na direção certa.
— Eles se davam bem?
— Sim, nossa. Feitos um para o outro, se você quer minha opinião.
— O que faz você dizer isso?
Ele lançou um olhar de suspeita.
— Nada me fez dizer isso. E, de todo jeito, o que isso quer dizer? Você acha que estou usando drogas ou coisa assim?
— Não, eu não estava sugerindo…
— Você me perguntou o que me fez dizer isso. Eu disse isso porque é o que acho. Não porque alguma coisa me fez dizer. Só isso. Eu não uso drogas. Tudo bem por você?
— Claro, tudo certo. Eu só estava tentando entender o que você estava dizendo. Abe e Samantha foram feitos um para o outro. Então imagino que eles nunca brigavam.
Ele respirou fundo, e de repente a raiva pareceu ter desaparecido.
— Brigar? Não. Não na minha frente.
— E Abe e Angelina?
— O que tem?
— Você já os viu brigando?
Ele hesitou e respondeu.
— Sim. Eles brigavam.
— Brigavam. Ou brigam?
— É uma pegadinha?
— Não — disse ela. — É que “brigavam” coloca Angelina no passado. “Brigam”, por outro lado…
— Então é uma pegadinha — disse ele com firmeza. — Você está tentando me enganar.
— Esqueça o que eu perguntei.
— Não esqueço nada. A mulher do Abe está desaparecida, e vocês aparecem no meu apartamento e começam a fazer perguntas capciosas. Você acha que eu fiz alguma coisa com ela, não é?
— Estamos só conversando.
— Bom, que tal ter uma conversa que faça algum sentido? Não posso nem sair do meu apartamento. Caso você não tenha notado, estou usando uma tornozeleira.
JT levantou o pé, e Victoria viu mais do que pretendia. Ele não estava usando cueca.
— Pode abaixar a perna agora, JT.
Ele abaixou.
— Sobre que tipo de coisas Abe e Angelina discutem? — perguntou ela.
— Não sei. Eles discutem sobre tudo.
— Tudo?
— Não tudo. Muitas coisas.
— Você já ouviu os dois levantarem a voz?
— Claro.
— E alguma coisa física?
— Você quer saber se eu já vi os dois fazendo sexo?
Victoria sabia que ele estava se fazendo de idiota, um sinal claro de que preferia evitar a questão — o que só aumentou seu interesse em ouvir a resposta.
— Não, estou falando de um “confronto físico”, como Abe levantar a mão para ela.
— Abe nunca bateu em Angelina.
— Tem certeza?
— Sim, tenho certeza.
Ela se inclinou para frente e fez contato visual com ele.
— Isso é importante, JT. Se Abe alguma vez bateu em Angelina, eu preciso saber.
Ele a encarou, sem desviar os olhos.
— Abe nunca bateu nela.
Victoria deixou a resposta no ar. Ela tinha encarado muitas testemunhas, muitos suspeitos, muitos mentirosos. Exames de polígrafo tinham sua utilidade, mas às vezes não havia nada como duas décadas na polícia. JT não estava mentindo, pelo menos não na avaliação dela. Ele finalmente desviou o olhar.
— Mas…
Victoria esperou um instante e o instigou.
— Mas o quê?
Ele não respondeu, os olhos estavam para baixo.
— Mas o quê, JT?
Ele olhou para frente, fazendo o contato visual.
— Angelina bate nele.
Victoria tentou não reagir, mantendo a expressão calma.
— Angelina bate em Abe?
— Bate — respondeu ele, convicto. — É o que estou dizendo.
Ela meneou a cabeça devagar.
— Agora, quando você diz que ela bate em Abe, está dizendo que aconteceu em mais de uma ocasião?
— Aham. Mais de uma vez.
Victoria trocou um olhar com a detetive Reyes, que estava a seu lado no sofá, e voltou a atenção para JT.
— Certo — retomou ela. — Quero que você nos conte, JT.