Uma Mulher Perfeita
Capítulo quarenta e quatro
A caminhada de dois quarteirões de volta à central me fez bem. Meu ânimo se acalmou, e recuperei o foco. Mas eu nunca iria esquecer.
Brian Belter ainda ia ouvir falar de mim.
Estávamos a trinta minutos da coletiva de imprensa. Eu queria falar com Margaret e Jake para ver como os dois estavam. Rid me parou no corredor antes que eu chegasse ao salão e me levou a uma sala de reuniões perto da suíte que tinha sido transformada em sala de espera improvisada. Alguém tinha encostado a grande mesa retangular na parede e trazido um sofá e mais duas poltronas. Carmen Jimenez se levantou para me cumprimentar. Éramos só nós três.
— Como você está, Abe? — perguntou ela, com uma voz sincera.
Eu podia ter mentido; podia ter dito a verdade. Que diferença teria feito?
— Obrigado por vir, mas não precisava — eu respondi.
— Eu quis vir — disse ela. — Primeiro, as boas notícias. O pessoal do escritório está totalmente com você. Aqui estão mais cinco mil dólares para o fundo da recompensa.
— Muito obrigado. Significa muito para mim — respondi.
Mas eu sabia que boas notícias em geral vinham acompanhadas de más notícias.
— Sente, Abe — pediu ela.
Especialmente quando alguém pede para você sentar. Ocupei uma poltrona. Ela escolheu a outra. Rid estava atrás dela, inclinando na borda da mesa.
— Eu sei do polígrafo — anunciou ela.
— Carmen, eu não matei a Angelina.
— Sei que você não passou.
— Vou repetir: eu não matei minha esposa. As perguntas eram ruins. Veja só a terceira, ele me perguntou…
— Abe, você não passou em nenhuma das três perguntas.
Fiquei gelado. Você já viu sua esposa morta? Você matou sua esposa? Você teve alguma coisa a ver com o desaparecimento de sua esposa?
— Não é possível — eu disse.
— Eu conheço o examinador — explicou ela. — E conversei com ele.
— Ele mostrou o relatório?
— Santos não deixou ele mostrar para ninguém. Mas ele não mentiria para mim sobre isso. Você não passou.
— As perguntas eram ruins, Carmen. A primeira: Você já viu sua esposa morta? Eu não tive a chance de esclarecer, mas eu sabia que ele estava falando de Angelina, então minha resposta foi apenas “não”. Mas, sim, claro que vi minha esposa morta. Pelo amor de Deus, eu enterrei a Samantha!
— Eu concordo com você — disse ela. — A número três também é ruim. Mas é a número dois que me preocupa.
Você matou sua esposa?
— Polígrafos não são infalíveis — eu respondi. — Você sabe disso. Todos nós sabemos disso. É por isso que nenhuma corte dos Estados Unidos nunca aceitou esse teste como evidência num julgamento.
— Eu entendo — continuou ela. — Pode ter sido a sequência de perguntas, pode ter sido o examinador, pode ter sido cansaço da sua parte, pode ter sido o estresse de tudo o que está acontecendo.
— Podem ter sido todas essas coisas — eu emendei.
— Pode ter sido — repetiu Carmen. — É o seguinte, Abe. Primeiro, quero você fora da coletiva de imprensa. Eu cuido disso com os pais de Angelina.
— Por quê?
— Duas razões. Não quero ninguém pegando você de surpresa com uma pergunta sobre o polígrafo. Os rumores estão circulando, e isso pode acabar mal para você.
— Eu sei me cuidar — respondi.
— Talvez. Mas não resolve o problema maior: Jake não quer que você vá.
Não fiquei chocado. Mas doeu mesmo assim.
— Eu quero participar.
— Não force as coisas, Abe. Você fez seu trabalho com a imprensa local ontem. Deixe os pais de Angelina assumirem e fazerem o anúncio hoje à noite. Eles estão colocando 25 mil do próprio bolso.
— Vai parecer estranho se eu não estiver presente.
— Vai parecer pior se Jake se recusar a ficar a sete metros de distância de você.
— Muito pior — emendou Rid.
Eram dois contra um, e o um estava oscilando.
— A cobertura da mídia só vai se intensificar — eu argumentei. — Não posso andar por aí desviando de câmeras e microfones dizendo “nada a declarar”.
— Concordo totalmente — disse Carmen. — Então o plano é: seus sogros e eu vamos fazer a coletiva de imprensa. Você e Riddel vão sair antes mesmo de começar, e vou explicar que você está ocupado auxiliando os investigadores na busca da sua mulher. Hoje, você vai fazer o que for preciso para ter uma boa noite de sono. Tome um remédio para dormir se precisar. De manhã, você vai estar descansado, e vamos refazer o teste do polígrafo. Quando acabar, você pode enfrentar todas as perguntar da mídia que quiser.
Quando acabar. O que ela estava realmente dizendo era “se você passar”. Deixei para lá.
— Vai ser o mesmo examinador?
— Não. O FBI não vai fazer parte disso. Vamos usar alguém do meu conhecimento e da minha confiança e que vai formular as perguntas direito.
— Mas não alguém que eu conheça — pedi. — Se eu vou fazer isso, não quero que ninguém diga que o segundo teste estava comprometido.
— Ninguém que você conheça — concordou Carmen.
Eu estava tentando encontrar uma falha ali, mas não consegui. Tudo fazia sentido. E foi bom saber que pelo menos duas pessoas — duas pessoas que de fato importavam — não tinham me colocado no topo da lista de suspeitos.
— Certo — eu disse. — Esse é o plano.
Carmen pareceu satisfeita. Trocamos apertos de mão e fomos até a porta. Ela foi para um lado, na direção do salão. Rid e eu fomos na direção contrária, evitando a multidão. Pegamos uma saída lateral e entramos no carro dele. Ninguém nos viu sair e pegar o trânsito da US 1.
Era uma coisa idiota de se dizer, mas não consegui me conter:
— Agora tudo o que preciso fazer é passar num maldito teste — comentei, com um riso nervoso.
— Não refaça se não quiser, Abe.
Eu estava virado para Riddel do banco do passageiro, mas os olhos dele se mantiveram fixos na estrada.
— Não, eu gostei do plano da Carmen — respondi. — É uma coisa que eu preciso fazer.
Paramos em um farol vermelho. Rid virou o rosto do console e olhou direto para mim.
— Abe, estou falando como seu amigo agora, não como detetive.
— Certo, fale, amigo.
— Você provavelmente precisa de um advogado.
Rid e eu vimos a coletiva de imprensa de “Encontrem Angelina” pelo televisor da delegacia. Não foi fácil de assistir. Jake falou primeiro, lendo um roteiro preparado, que era a única maneira de lidar com aquilo.
— A família e os amigos de Angelina pedem a qualquer um que possa saber alguma coisa sobre o desaparecimento, o paradeiro ou… — ele fez uma pausa, e sua voz falhou — o destino dela. Por favor, ligue para o Departamento de Polícia de Miami-Dade no número que está aparecendo na tela, ou deixe a informação no site “Encontrem Angelina Beckham”. Uma recompensa de cem mil dólares está sendo oferecida por informações que resultem no retorno dela em segurança.
O microfone foi passado de Jake para Carmen, mas o ângulo da câmera estava aberto o suficiente para que eu visse Margaret ao lado do marido. Carmen disse tudo perfeitamente, minha estimada e confiável substituta, mas eu mal processei uma palavra. Todo o meu foco estava na mãe de Angelina. Eu quase podia sentir a tristeza, a exaustão, a preocupação, a esperança se esvaindo pesando em seus ombros. O coração dela não estava só partido. Estava despedaçado, as partes caindo ao vivo, diante da câmera, para o mundo todo ver, a dor formando poças de desespero ao seu redor, poças sem fim que podiam afogar até o mais robusto dos espíritos.
Eu me perguntei genuinamente se Margaret ia sobreviver a isso.