Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 43 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo quarenta e três

 

A ligação me surpreendeu. Era Brian Belter, que queria me encontrar para um café, o mais rápido possível.

— É mais do que importante, vai compensar muito o seu tempo, e não é nada que eu possa discutir por telefone — disse ele.

— Você pode vir para a central? — perguntei.

E passei o endereço. Belter sugeriu um café a dois quarteirões de distância. Combinamos de nos encontrar em vinte minutos.

A urgência na voz dele despertou meu interesse, mas eu não sabia ao certo o que pensar. Eu sabia que Ed Brumbel me diria para fazer, mas eu não estava em condições de interrogar Belter até ele desabar, chorar e admitir que a Açúcar Big tinha escravizado os trabalhadores, destruído os Everglades e afundado o Titanic. Saí sozinho e não contei para ninguém aonde estava indo.

Belter estava esperando numa mesa no fundo. Ele estava usando uma camisa de golfe do resort Cortinas na República Dominicana, o que me fez lembrar que menos de 48 horas tinham se passado desde a inesperada viagem de negócios que tinha resultado em sua ausência no velório de Tyla. Parecia fazer um mês.

Belter levantou para me cumprimentar.

— Obrigado por vir — disse ele.

Sentei, e ele fez o mesmo, de frente para mim. Havia um café expresso curto soltando fumaça diante dele.

— Posso pedir um café para você? — perguntou Belter.

— Não. Meu estômago já está revirado.

Ele olhou para baixo, mexendo o café.

— Sinto muito que você tenha que passar por isso. De verdade.

— Obrigado. Não posso ficar muito tempo.

— Entendo. Eu queria dizer que gostaria de contribuir com o fundo da recompensa da sua esposa.

Não parecia exatamente algo que não pudesse ser dito por telefone.

— É muita gentileza sua.

— Vinte e cinco mil dólares.

Levei um susto.

— É muita gentileza sua. Obrigado.

— Tudo o que peço é um pequeno favor. Mais um sinal de apoio, na verdade.

— Ah — eu disse. Essa era a parte do “frente a frente”. — Apoio em relação a quê?

— A verdade. Eu nunca dormi com Tyla Tomkins.

Meu instinto era ir embora, mas era a primeira vez que eu me sentava em horas, e meu corpo se recusou a levantar.

— Não sei nada sobre isso.

— Tenho certeza de que Tyla deve ter mencionado para você.

— Na verdade, eu nunca…

— Abe — Belter me interrompeu antes que eu pudesse fechar a porta para qualquer proposta que ele tivesse em mente.

Ele sacou o talão de cheques do bolso do casaco, abriu uma caneta tinteiro Montblanc, mas parou antes de preencher o número.

— Quanto eu disse que seria minha contribuição?

— Vinte e cinco mil.

— Desculpe. Foi um erro. Esqueci um zero.

Fiquei olhando sem conseguir acreditar enquanto ele fazia um cheque de 250 mil dólares.

— Tem um fundo criado por vocês ou devo fazer o cheque nominal a você?

— Para mim?

— Ou podemos nos livrar desses ridículos cheques de papel de uma vez, e eu transfiro o valor. Para uma conta à sua escolha, em uma país à sua escolha.

— Você de fato está tentando subornar um promotor assistente?

Belter nem piscou. Sua expressão era totalmente profissional, nada mais, nada menos, como se quisesse lembrar com quem eu estava lidando. Como quem diz: “a Açúcar Big já subornou peixes muito maiores do que você, Abe Beckham.”

— Fique com seu dinheiro — eu disse, me levantando.

Ele segurou meu punho antes que eu saísse da mesa, mas foi a intensidade em seus olhos que me prendeu.

— Eu sei de quem é o número desconhecido.

— A ligação não identificada? — perguntei.

— Tyla ligou para seis números diferentes do celular pré-pago — disse ele, a voz calma, as palavras fluindo com a cadência de uma metralhadora.

— Cinco dos números foram conectados a cinco homens casados que traíram a esposa: você, eu e três outros imbecis que vão ter muito para explicar quando a investigação do assassinato de Tyla Tomkins bater na porta deles. Por favor, não se ofenda, estou só sendo realista, não cruel, mas é provável que sua mulher esteja morta, o que libera você, sem dever nenhuma explicação para ela nem para ninguém. Por outro lado, minha esposa está bem viva, não é nada misericordiosa, e nosso acordo pré-nupcial expirou um ano e meio atrás por ocasião auspiciosa do nosso vigésimo aniversário de casamento.

— Que romântico.

— Escute. O sexto número que apareceu no celular pré-pago de Tyla nunca foi identificado. É porque a ligação foi feita de outro pré-pago, tão impossível de rastrear quanto o de Tyla. Mas eu sei de quem era o outro aparelho.

— De quem?

— De outra pessoa — ele respondeu, chegando mais perto. — O que estou tentando dizer é: eu nunca dormi com Tyla. A única vez que falei com ela pelo pré-pago foi para “organizar” as tardes dela com outra pessoa.

Eu sabia exatamente de quem Belter estava falando.

Ele deslizou o cheque pela mesa. Estava em meu nome.

— Eu era só um mensageiro. Tyla deve ter mencionado isso para você — insistiu ele.

Eu o encarei. Havia muitas coisas que eu podia ter dito, muitos nomes de que eu poderia tê-lo chamado. Mas meu corpo estava vazio, e até mesmo um ataque verbal parecia um desperdício de energia.

— Nunca mais me ligue — eu disse.

Fui embora, deixei o cheque na mesa, e voltei para a central.