Uma Mulher Perfeita
Capítulo dez
Fui para Coconut Grove depois do trabalho. Eu precisava conversar com Rid.
A escola modelo George Washington Carver Middle School é uma das mais bem cotadas na área e já foi conhecida como Gueto Grove. A área de Grand Avenue não é a zona de guerra que costumava ser quando Janet Reno era promotora pública nos anos 1980. Nessa época, contrastando com a região mais cara de Miami, havia um gueto que podia acomodar os maus hábitos de praticamente qualquer um, de gangues com seus ataques aleatórios até médicos e advogados que se aventuraram noite adentro para alimentar seus vícios. Esse era o bairro de Samantha. A Carver Middle foi o primeiro movimento dela para sair dali. JT, que vagou pelas ruas tarde da noite por muitos anos, não teve tanta sorte.
A região não era mais tão ruim, mas chamá-la de ingrata era uma boa descrição, especialmente depois que escurecia. Uma coisa com certeza não tinha mudado: o basquete dominava. Eu sabia que ia encontrar Rid e seu time de garotos do oitavo ano no ginásio da Carver.
— Falo com você em um minuto, Abe — gritou ele do outro lado da quadra.
Os jogadores estavam fazendo o exercício “suicida” pela campo, o ritual de correr até passar mal que os treinadores mais durões impunham aos melhores times. Sentei nas arquibancadas, pronto para ligar para a emergência ou fazer reanimação, se necessário.
— Isso não vai funcionar! — gritou ele para o time. — Todo mundo em menos de trinta segundos!
Minha amizade com Rid ia além dos casos em que trabalhávamos, era mais profunda que sair para jantar com Samantha e a mulher dele ou coisa parecida. Ele tinha até me convencido a ser treinador-assistente durante uma temporada. Eu gostei tanto que decidi treinar meu próprio time. Não era fácil conseguir o cargo de treinador em uma escola, então formei um “time itinerante”, que atuava em uma liga particular totalmente fora do sistema educacional. Durei uma temporada. Meu time estava sendo massacrado, cinquenta pontos de diferença ou mais. Não tínhamos altura. Eu me perguntei como os outros treinadores conseguiam garotos de catorze anos de um metro e oitenta que conseguiam enterrar com qualquer uma das mãos, driblar atrás do corpo e fazer arremessos livres de olhos fechados; como conseguiam convencer os pais a se mudarem com a família inteira para Orlando ou Jacksonville só para que seu filho extremamente talentoso pudesse ser treinado por um desconhecido em um time itinerante do sul da Flórida. Então consegui meu próprio craque fora do padrões em Pompano Beach, e meus olhos se abriram. Começou depois da nossa primeira grande vitória. A mãe do garoto veio falar comigo antes que a tinta do relatório do jogo tivesse secado. “Treinador, hum, a empresa cancelou minha linha telefônica. Você pode emprestar duzentos dólares?” Na vitória seguinte: “Treinador, hum, meu carro… estou com duas parcelas atrasadas.” E continuou. “Sabe, treinador, o aluguel está difícil para mim este mês.” E continuou: “Ei, treinador, meu namorado novo disse que eu ficaria linda com megahair.”
— Voltou para ser meu assistente? — perguntou Rid.
Eu me levantei e sorri.
— Quem me dera.
O time dele estava no vestiário, e estávamos só nós dois na quadra.
— Você me dá uma ajuda com o equipamento? — perguntou ele.
— Claro.
Passei uma dúzia de cordas de pular pelo pescoço, reuni o máximo de bolas de basquete que consegui carregar e fui com ele até o depósito.
— Você ficou bem quieto durante a reunião de hoje de manhã — comentei.
Ele jogou uma pilha de cones laranja de treinamento na prateleira mais alta.
— Talvez você também devesse ter ficado.
— Eu falei demais?
— Você negou demais.
— Você está falando das mensagens de voz?
— Você tem merda na cabeça se acha que alguém vai acreditar que Tyla Tomkins ligou para o seu número sem motivo, que você não ouviu as mensagens dela, e que as deletou por acidente. E, mesmo se fosse verdade, nem é o começo da explicação sobre a conversa de dois minutos em que não há mensagem de voz.
Saímos do depósito, e Rid trancou a porta.
— Me responda o seguinte — pedi. — Você acha mesmo que eu tive alguma coisa a ver com o desaparecimento de Tyla?
— Claro que não, Abe. Acho que você dormiu com ela, e essa coreografia é uma negação clássica de um homem casado.
Voltei com ele para o ginásio, atravessamos a quadra e chegamos à saída.
— Não é isso.
— É o que está parecendo.
— Então eu preciso acertar as coisas.
Paramos na porta de metal atrás das arquibancadas
— Abe, vou ser bem direto. Você violou a regra número um de ser interrogado: sempre parta do princípio de que quem está fazendo as perguntas sabe mais do que você acha que sabe.
— Certo. Você vai me contar o que Santos sabe ou vai me fazer implorar?
— Vou lançar uma hipótese.
— O nome dela é Tyla?
— Isso. Tyla Hipo. Ela é jovem, maravilhosa, tem um corpão, é esperta e se casou com o trabalho. Não tem tempo para um relacionamento, nunca se casou. Mas ela tem três anéis de noivado com aliança de casamento diferentes. Diamantes de tamanhos diferentes, de meio quilate até dois quilates. O que você diria?
— Não sei. Ela coleciona anéis?
— Ela estava usando outro par de anéis quando o corpo foi encontrado. Não é só uma coleção.
— Então ela quer que as pessoas achem que é casada.
— As pessoas, não, Abe. Os homens. Ela quer que homens casados achem que ela é casada.
— Por quê?
Rid balançou a cabeça e abriu porta.
— Nossa, Abe. Não banque o idiota comigo.
Saí com ele do ginásio. O sol tinha se posto, e o brilho amarelo do prédio de treinamento de cinco andares dos bombeiros ao lado da escola era a única luz do estacionamento.
— Não estou me fazendo de idiota — respondi, enquanto andava. — Sério, por que ela faria isso?
— Você não está vendo o fator principal. Ela não tem tempo para relacionamentos. Os únicos homens que interessam são os que não querem se mudar para o apartamento dela e complicar sua vida. Homens que têm medo demais de criar um rastro para mandar mensagens o dia todo e interferir no trabalho dela. Homens que não têm expectativas de que ela vá a algum evento de gala do trabalho pendurada no braço deles porque ela não tem tempo, porque ela precisa cuidar de seu próprio desenvolvimento profissional. Homens que não têm interesse em levá-la para casa para conhecer os pais. Entendeu?
— Tudo isso faz sentido. Mas os amigos, os colegas do escritório, todo mundo que ela conhece, achariam que ela é louca. Essas pessoas sabem que ela não é casada.
— Ela não usa os anéis perto das pessoas que conhece. Tyla trabalhava para um escritório de advocacia muito poderoso. Ela ia para Londres uma semana, para São Francisco na outra, e para Hong Kong em seguida. Em vez de jantar num quarto do hotel sozinha, ela se envolvia com homens casados e solitários que passavam duzentos dias úteis por ano longe das esposas.
— Mas ela não precisa fingir ser casada para ter um caso com um homem casado.
Paramos no carro de Rid.
— Você é mesmo tão idiota assim?
— Pelo jeito...
— Abe, vá comprar um exemplar de Traição para Leigos. Capítulo um: Nunca tenha um caso com alguém que tem mais a perder do que você. Se sou casado, e estou dormindo com uma mulher solteira, o poder é todo dela. Eu vivo com medo de que ela vá querer mais de “nós”, ligue para a minha esposa e me entregue. Mas se estou dormindo com uma mulher que também é casada, que tem algo a perder, estamos em pé de igualdade.
— Então, se Tyla usar os anéis…
— O mundo está ao dispor dela — emendou Rid. — Homens solteiros, casados, até casado com algo a perder. Homens casados que são espertos demais para colocar tudo em risco por alguma interesseira dormem com mulheres casadas. Estão todos no jogo, e todos querem o mesmo que ela. Diversão, sem complicações.
— É bem calculista da parte dela, se você estiver certo.
Rid destravou o carro. A porta fez barulho ao abrir.
— Ninguém disse que Tyla era burra.
— Ninguém vai dizer — eu disse.
Rid sentou no banco do motorista e deu a partida no carro.
— A propósito, Abe. Sobre aquela lista de números que você viu hoje de manhã do celular pré-pago de Tyla.
— O que tem?
— Ela ligou para seis números diferentes com aquele celular. Até agora, localizamos cinco. Cada um deles pertence a um homem casado. Incluindo você.
Foi como um soco no peito. Isso explicava o telefonema de Carmen tarde da noite, o motivo pelo qual ela veio com quatro pedras na mão e acertou uma bem no meio da minha testa: Você estava tendo um caso?
— Estou do seu lado, Abe. Mas faça um favor a si mesmo: converse com Angelina.
Ele fechou a porta do carro e manobrou, saindo da vaga.
Fiquei vendo os faróis vermelhos desaparecerem escuridão adentro, parado sozinho no estacionamento, do lado de fora da antiga escola de Samantha.