Uma Mulher Perfeita
Capítulo quarenta e dois
Victoria estava trabalhando na central da força-tarefa do Cortador no escritório de Miami, longe dos voluntários. Angelina continuava em sua cabeça, mas o Cortador e as vítimas deixadas por ele nos canaviais de Palm Beach também estavam. Suas fotos estavam no mural, com informações pessoais e uma breve descrição física. Elizabeth, 23 anos; Caitlin, 25 anos; Holly, 21 anos; Amanda, 28 anos. E a mais recente, Megan, 31 anos. Vidas encurtadas por um monstro com um facão. Em todo o sul da Flórida, mulheres brancas com maridos ou namorados negros estavam aflitas, mas pouco tinha sido comentado sobre as vítimas de Palm Beach desde o assassinato de Tyla Tomkins e o desaparecimento de Angelina Beckham. Para cada homicídio que se tornava uma obsessão da TV, dúzias passavam batidos. Muitos não eram solucionados.
Vocês não, meninas. Eu prometo.
Victoria estava sentada sozinha na mesa de reunião, laptop à sua frente, caixas de arquivos e materiais espalhados pela mesa. Ela estava telefonando de uma linha segura para uma atualização com o agente de tecnologia quando seu celular tocou. Era Abe Beckham. Ela desligou o telefone fixo e atendeu a ligação de Abe.
— Preciso ver uma cópia do relatório do examinador do polígrafo — disse ele.
— A resposta continua sendo não — respondeu Santos.
— Meu sogro quer ver.
— Ele também não vai poder.
— Por que você disse a ele que fiz o teste?
— Porque ele perguntou.
Ela podia quase sentir a surpresa de Beckham.
— Jake perguntou se eu fiz um teste de polígrafo?
— Sim.
— Só para deixar claro — insistiu ele, a voz marcada pela incredulidade. — Jake perguntou se eu tinha feito um teste de polígrafo antes de você mencionar qualquer coisa. É isso que você está dizendo?
— Sim.
Santos não estava brincando. Era a verdade.
— Você disse o resultado para o meu sogro?
— Não. Eu disse a ele para perguntar para você como tinha sido. Dr. Beckham, eu preciso fazer uma ligação. Preciso desligar.
— Espere. Eu quero o relatório.
— Não quer, não. E não vai receber.
— Ah, eu não quero? O quê? Você está me fazendo outro favor?
— Não. Estou fazendo um favor para mim. Até logo.
Santos desligou e foi até o micro-ondas no balcão preparar o “jantar”. Alguns agentes não podiam viver sem uma cafeteira, mas, para Victoria, uma central não estava funcionando oficialmente sem pipoca de micro-ondas.
Ela sabia que provavelmente tinha soado como uma espertalhona, mas estava fazendo um favor para si mesma. E para Elizabeth, Caitlin, Holly, Amanda e Megan. Se divulgasse o relatório do teste para Abe Beckham, o sogro ou qualquer pessoa, ele com certeza ia vazar para a imprensa. Do dia para a noite, o desaparecimento seria uma sensação midiática. Victoria tinha trabalhado em casos suficientes para saber que o sensacionalismo naquele nível não ajudaria a pegar o Cortador.
E também não a ajudaria a descobrir o que tinha acontecido com Angelina.
A pipoca parou de estourar. Ela abriu o saco para deixá-lo esfriar, voltou para o telefone e discou da linha segura. Durante a conversa, Santos saboreou a sua “entrada”, gomos de tangerina, outro clássico de sua dieta.
— Você pode falar, Albert?
Albert tinha um pouco mais do que a metade da idade de Victoria, era um agente talentoso que tinha construído sua carreira de assuntos tecnológicos gerais a um cobiçado cargo na Unidade Cyber do FBI em Washington. Ele se esforçava para agradar, assim como Victoria quando estava começando, e ela explorava a ambição do rapaz, assim como seus supervisores tinham feito com ela. Albert ficava mais do que feliz de ajudar num fim de semana, mesmo que estivesse apenas confirmando as descobertas dos agentes de tecnologia de Miami.
Victoria queria ter certeza sobre isso e estava certa de que os agentes de Miami eram bons. Mas Albert era alguém que ela conhecia, e ele estava sempre certo.
— Certo, tenho uma coisa para você — anunciou ele. — Primeiro, sobre as quatro mensagens de voz que Tyla Tomkins deixou no celular de Abe Beckham. Seus agentes de Miami estavam certos: todas elas foram recebidas e deletadas no mesmo dia.
— Tem certeza?
— Tenho. Mas tem uma coisa interessante que, sem querer ofender, o pessoal de Miami não pegou. Quando se trata de correio de voz, existem mensagens deletadas, e mensagens permanentemente deletadas. A diferença é o que a palavra “permanente” implica: você nunca vai recuperar aquilo. Desapareceu. Ainda que cada uma das mensagens tenha sido recebida num dia diferente, as quatro foram permanentemente deletadas no mesmo dia.
Victoria colocou sal na pipoca.
— Quando?
— Domingo, 19 de janeiro.
— O médico legista determinou a morte de Tyla Tomkins sábado à noite ou domingo bem cedo.
— Se for esse o caso — disse Albert — é uma descoberta ainda mais interessante do que eu imaginei.
— Pois é. Significa que a pessoa que deletou as mensagens sabia que Tyla Tomkins estava morta pelo menos um dia antes de o corpo ser encontrado nos Everglades, pelo menos dois dias antes de ela ser identificada.
— Bom, então, de nada — disse ele.
— E o celular pré-pago de Tyla? — perguntou ela, mudando de direção. — Alguma coisa sobre o número que não conseguimos identificar?
— Infelizmente não vou poder ajudar. Cinco dos dois números para os quais ela ligou eram celulares registrados. Isso inclui Beckham. Mas esse sexto número é de um celular igual ao de Tyla. Pré-pago, descartável, sem registro. Não há como saber de quem era o celular e com quem Tyla estava falando. A menos que você recupere o aparelho de fato e encontre as impressões digitais.
O agente de Miami tinha dito a mesma coisa. Mas agora ela tinha dupla certeza.
— Certo, vamos ter que trabalhar nisso. Muito obrigada.
Os dois desligaram. Victoria atacou o saco de pipoca, recostou na cadeira e pensou sobre aquilo tudo. Às vezes, todas as peças do quebra-cabeça estavam espalhadas na mesa bem diante de você. Era só uma questão de configurá-las da maneira certa. Mas, às vezes, uma peça estava faltando. Se você tivesse sorte, sabia qual era a peça. Ou pelo menos fazia uma ideia de que peça estava faltando. Victoria fazia uma ideia.
Não havia como saber com quem Tyla estava falando. A menos que o aparelho em si fosse encontrado, e com impressões digitais.
Ela pegou o telefone de novo e ligou para a detetive Reyes, seu contato no setor de violência doméstica na polícia de Miami-Dade.
— Preciso que você consiga uma declaração assinada para um pedido de mandado de busca no escritório da promotoria.
— O que estamos procurando?
— Um celular.
— Quando.
— Neste instante.
— Você quer dizer esta noite?
— Isso — confirmou Victoria. — Definitivamente esta noite.