Uma Mulher Perfeita
Capítulo cinquenta e sete
Victoria Santos tinha uma prioridade: encontrar o assassino de Tyla Tomkins.
Ela sabia que não era o Cortador, e não só porque uma mulher negra de Miami-Dade não correspondia ao perfil da vítima, mulher branca do condado de Palm Beach que se relacionava com homens negros.
Não havia nenhum vídeo sádico de Tyla no computador de Tommy Salvo e nenhum sinal do DNA dela na sala dos assassinatos ou em nenhum lugar da casa ou do carro. Tecnicamente, não era jurisdição do FBI solucionar um homicídio não relacionado a um crime federal, mas detalhes técnicos legais à parte, esse caso era diferente: tinham mentido para Victoria.
O vídeo do YouTube quase a fez perder o controle.
Era um clássico Jeffrey Winters, um advogado de defesa peso-leve que se considerava um mestre na corte da opinião pública. Nada satisfaria Victoria mais do que fazê-lo cair em sua própria cilada, usar sua própria estratégia para solucionar o caso de Tyla Tomkins. Ela tinha visto o vídeo mea culpa de Angelina três vezes e depois foi para a residência dos Beckham. Um exército de jornalistas da TV correu para o seu carro. Victoria teve de forçar a porta do motorista e empurrar a multidão para sair do carro. Os jornalistas a cercaram enquanto Victoria atravessou o gramado, e as perguntas vieram de todas as direções.
O FBI tem algum comentário sobre o vídeo de hoje de manhã?
Alguma acusação foi feita?
Por que a casa dos Beckham ainda é uma cena de crime?
Àquela altura, era do interesse de Victoria não responder nenhuma das perguntas. Ela seguiu, olhando para a frente, “sem comentários”. Os repórteres a seguiram até a fita da polícia nos degraus de entrada.
Victoria passou por baixo da fita amarela, entrou e fechou a porta. A detetive Reyes, da unidade de violência doméstica de Miami-Dade, estava esperando na sala.
— Tem um circo da mídia lá fora — comentou Reyes.
Victoria olhou pela janela. E reconheceu muitas das mesmas equipes que participaram da cobertura “Encontre Angelina” no fim de semana, mas outras tinham se juntado à confusão para essa última reviravolta.
— Eles sentem o cheiro de sangue — disse Victoria, dando outro passo para dentro da sala, para em seguida olhar para trás, para o ponto onde tinham encontrado a garrafa de cerveja quebrada no sábado de manhã. — E eu sinto o cheiro de violência conjugal.
— Cheiro não vai me dar uma condenação — disse Reyes.
— Não. Mas tenho bastante certeza de que um exame físico do corpo de Angelina vai. Uma mulher não foge de casa depois da meia-noite e forja seu próprio desaparecimento se não estiver morta de medo do marido. Deve haver um hematoma ou um corte em algum lugar do corpo dela.
A detetive balançou a cabeça.
— Você não pode forçar uma vítima a se submeter a um exame físico. Já tentei.
— É nisso que posso ajudar — disse Victoria.
— Como?
— Você não pode forçar Angelina a se submeter ao exame. Mas se estiver diante de acusações federais e cinco anos na cadeia por forjar seu desaparecimento e por obstrução da justiça, ela pode “consentir”.
— Que generosidade, a sua ajuda — respondeu Reyes. — Mas estou imaginando que você não se jogou nessa confusão por causa da bondade do seu coração. O que você quer de mim?
Victoria chegou mais perto, com uma expressão muito séria.
— A violência doméstica é a ponta do iceberg. Estou procurando o assassino de Tyla Tomkins.
— E não encontrou junto com o Cortador?
— Não.
— Você devia estar falando com o detetive Riddel sobre isso.
— O detetive Riddel conversa demais com Abe Beckham.
— Tem certeza de que o Cortador não é o seu homem? Não há nada que o conecte a Tyla Tomkins?
Victoria não estava pronta para compartilhar a menção que Tommy Salvo fez de seu encontro com Tyla na plantation Cortinas na Nicarágua. Ainda não.
— Vamos dizer o seguinte. Eu tenho uma coisa que pode ligar o Cortador a Tyla Tomkins. Na noite do velório, olhei para o outro lado da rua da funerária e vi um ponto laranja brilhando na escuridão do estacionamento. Alguém estava ali assistindo e fumando um cigarro. Tommy Salvo é um fumante compulsivo.
— Então era ele?
— Ele negou de início. Depois começamos a falar sobre o Cortador na terceira pessoa, e ele insinuou que pode ter sido ele, mas fui eu que o conduzi com meu interrogatório. Pode combinar com o estereótipo do serial killer que vai ao funeral ou visita o túmulo de suas vítimas. Só que Tyla não foi vítima dele.
— Talvez ele tenha ido por curiosidade, para ver por que as pessoas acharam que Tyla Tomkins era uma das vítimas do Cortador.
— Talvez. Mas acho que não.
— Certo. Você sabe que alguém estava fumando no escuro e assistindo do outro lado da rua. Se não era ele, quem era?
— Essa é a questão — disse Victoria. — A resposta depende do que você encontrar aqui como parte da investigação de violência doméstica.
— Espero que isso não faça parecer que sou surda, mas quer me dizer exatamente o que espera encontrar aqui?
Victoria atravessou a sala devagar, passando pela mesa de apoio e pelas mesas laterais.
— Não há nenhum cinzeiro nesta casa, não é?
— Nenhum que eu tenha visto, e nenhum listado no inventário da investigação da cena do crime — respondeu Reyes.
Ela foi até as cortinas e cheirou o tecido.
— Nenhum cheiro óbvio de fumaça. — Não posso dizer que detectei nada, mas não era o foco da investigação da equipe forense quando a sra. Beckham desapareceu.
— Estou procurando o seguinte — Victoria explicou. — Qualquer coisa, e quero dizer qualquer coisa mesmo, que indique que Angelina Beckham fuma escondido.
— Como isso está relacionado à minha investigação de violência doméstica?
Não estava.
— Confie em mim — Victoria respondeu. — Você vai ver.