Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 6 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo seis

 

 

Encontrei Angelina ao meio-dia para o almoço. Depois de uma noite na casa de JT, eu tinha muito o que compensar.

Almoçar era algo que raramente fazíamos juntos. Angelina era a gerente de empréstimos de um banco no centro da cidade, e trabalhava das nove às cinco no quarto andar de um desses prédios altos com uma fonte que, alguns previam, teriam três andares submersos em águas mornas antes do fim deste século. O escritório da promotoria ficava muito mais longe a oeste, do outro lado do rio Miami. Não tão distante quanto os corvos voam, mas quando as pontes levadiças estavam levantadas, era como se estivéssemos de lados opostos do Grand Canyon. Tive sorte com o trânsito e cheguei ao restaurante no horário. Angelina já estava sentada em uma mesa do lado de fora, parecendo uma estrela do cinema sob um guarda-sol, os óculos escuros de grife na cabeça. Tentei lhe dar um beijo e disse “oi” e desta vez ela não virou o rosto.

— Pedi bolinho de carne de caracol do mar — comentou ela.

Bom sinal, tinha sido atencioso da parte dela.

— Meu prato favorito. Você lembrou.

O restaurante Big Fish, bem no rio, era um lugar, a meu ver, perfeito para almoçar. Não era nada sofisticado, só um lugar para relaxar e comer ceviche de camarão, golfinho e atum fresco, apreciando a vista histórica do rio, uma parte da antiga Miami onde os fuzileiros navais em embarcações na margem oeste do rio andavam lado a lado com banqueiros e advogados das torres de escritório da margem leste.

— Desculpe ter sido tão chata ontem à noite — disse ela.

Um pedido de desculpas inesperado, mas me fez sorrir.

— Eu precisava e mereci um belo tapa na cabeça. Não se preocupe.

— É só que JT me assusta às vezes.

— Eu sei. Mas o psiquiatra me garantiu que ele está perfeitamente bem morando sozinho e que não é violento.

— Ele agrediu um motorista de ônibus.

— Não, não foi isso que aconteceu. Mas não vamos falar disso, tudo bem?

A garçonete trouxe nossa porção de bolinhos fritos.

— Alguma coisa para beber?

Angelina sorriu para mim.

— Tive uma ideia. Por que não pedimos uma jarra de sangria e não voltamos para o trabalho à tarde?

Era o que costumávamos fazer, antes do casamento — muito antes, na fase pré-Samantha da nossa relação.

— É muito tentador — respondi.

— Mesmo? Você quer fazer?

Eu detestava dizer não, mas a investigação do Cortador era só uma parte pequena do meu volume de casos, e do jeito que as coisas andavam, eu teria sorte de voltar para casa a tempo do jantar.

— Quero. Quero muito. Mas, eu sinto muito, não posso. Não hoje.

— Tudo bem. Eu também não. Mas uma garota pode sonhar, não pode? Um chá gelado — disse ela para a garçonete.

— Dois — emendei.

A garçonete deixou os cardápios e entrou.

— Eu me senti sozinha ontem à noite sem você — disse Angelina.

— Me desculpe.

— Fiquei acordada até tarde, repassando tantas coisas na minha cabeça. E fiquei me perguntando. O que você acha de tentarmos ter um filho?

Por essa eu não esperava, mas provavelmente isso não era a coisa certa a dizer.

— Uau. Um filho.

— O que isso significa?

O que significava era que eu não fazia ideia do que dizer.

— Um filho — repeti, ainda pensando no que dizer. — Uau.

— Uau. Um filho. Um filho. Uau. Ou estamos no gravador digital da TV e eu apertei o rewind por acidente ou você não está muito animado com a ideia.

— Não, não é isso. De jeito nenhum. É só que… um filho.

— Por favor, não diga “uau”.

A garçonete trouxe dois copos de chá gelado cobertos de gotas de condensação. Rapidamente abri meu cardápio e pedi o ceviche peruano.

— Você quer alguma coisa? — perguntei para Angelina.

— Você quer dizer, como um filho?

A garçonete levou meu cardápio.

— Esse é o seu departamento, patrão. Eu trago o peixe.

Angelina esperou a mulher ir embora. Em seguida, estendeu o braço sobre a mesa e pegou minha mão.

— Eu quero formar uma família, Abe. A nossa família.

E apertou minha mão em sinal de ênfase, e a discussão não mais parecia tão despropositada. Isso era sobre a nossa família. E não da Samantha.

— Você acha que eu estou pronto para ser pai?

— Acho que você seria um ótimo pai.

Ela estendeu os braços, apertando minha mão entre as suas. Eu estava olhando para o outro lado da mesa, para olhos tão grandes e azuis quanto o oceano.

— Certo. Vamos ter um filho.

Ouvi um grito de empolgação enquanto ela voou para o meu lado da mesa e me beijou. Então escutei meu celular tocando e deixei a ligação cair no correio de voz.

— Estou tão feliz — disse Angelina ao voltar para sua cadeira.

— Eu também.

Meu celular tocou de novo. Era a agente Santos. Pedi desculpas para minha mulher e prometi ser rápido.

— Você está perto de uma televisão? — perguntou a agente.

Havia um aparelho dentro do restaurante.

— Posso ficar.

— Ligue no Action News agora. Temos uma identificação para a vítima.

— Quem é?

— Uma advogada de 34 anos de Miami. O nome dela era Tyla Tomkins.

Agarrei o celular.

— Desculpe. Você pode repetir?

— Tyla Tomkins. Você conhece esse nome?

— Não, não — respondi. — É só a ligação que está ruim. Sua voz desapareceu por um segundo.

— Ligue a TV. É importante se manter atualizado com os relatos da mídia. Depois precisamos conversar. Você está disponível para uma conference call às duas?

— Não, tenho uma audiência de uma e meia em diante.

— Me ligue quando sair — disse Santos, e desligamos.

Angelina olhou para mim do outro lado da mesa.

— O que foi isso? — perguntou ela.

Contei rapidamente, prometendo voltar assim que a matéria acabasse e entrei correndo para assistir à TV.

Tyla Tomkins.

Pessoas em toda Miami estavam olhando para seus aparelhos de televisão incrédulas dizendo que não podia ser ela, não era possível ser ela. Mas minha cabeça não ia nessa direção. E pulou direto o primeiro estágio de choque e negação.

Era ela.