Uma Mulher Perfeita
Capítulo onze
Victoria Santos pegou o elevador em silêncio para subir 55 andares. As portas se abriram, e ela pisou no chão decorado de pau-brasil. Havia painéis de seda nas paredes, e tapetes dignos de um museu suavizavam a decoração conservadora; os lustres Baccarat eram um toque a mais.
Logo depois da grande escadaria ficava o hall principal, um átrio no céu, três andares de altura e uma área espaçosa o suficiente para uma quadra de basquete. A ala leste inteira era uma janela em arco que, daquela distância, era muito maior do que tinha parecido para Victoria do térreo. Atrás da recepção de mogno e vidro, estava sentada uma garota que poderia ter sido capa da Cosmopolitan. Atrás dela, pendurada na parede, havia uma pintura enorme de óleo sobre tela de três homens brancos e velhos, que ela presumiu serem os finados Belter, Benning e Lang.
A agente Santos se perguntou se algum deles já tinha encontrado J. Edgar Hoover.
— Posso ajudar? — perguntou a recepcionista.
Victoria se aproximou da mesa. Ela tinha marcado um horário com Brian Belter, sócio e gerente da BB&L’s e neto do fundador daquela firma. A assistente de Belter tinha pedido especificamente que Victoria não anunciasse que era agente do FBI, e ela aquiesceu, fornecendo apenas seu nome e o horário marcado com Belter.
— Vai levar só uns minutos, srta. Santos. Se quiser se sentar, eu aviso quando o dr. Belter estiver pronto. O sr. Riddel já chegou.
— O sr. Riddel?
A recepcionista reconfirmou a agenda na tela.
— Sim, ele vai participar da reunião. Eu já chamo.
Victoria foi até a sala de espera. Riddel levantou do sofá de couro para cumprimentá-la.
— Não esperava ver você aqui — disse ela.
— É porque você não me convidou. Liguei para Belter ontem para marcar meu próprio horário e descobri que ele já tinha uma reunião marcada com o FBI. Sugeri juntarmos tudo. Espero que você não se importe.
— Na verdade, eu me importo, sim.
— Por quê?
— Abe Beckham é seu amigo.
— E?
— Meu objetivo como agente do FBI é peneirar cada e-mail, cada mensagem de voz, cada mensagem de texto, de ou para Tyla Tomkins nos últimos seis meses. Não quero que qualquer comunicação entre ela e seu amigo Abe, digamos, vaze por uma fresta.
— Nada vai vazar por nenhuma fresta.
— Pode me chamar de paranoica, mas talvez uma ou duas vezes na história do universo um homem tenha acobertado outro homem que traiu a esposa.
— Abe nega ter tido uma relação com Tyla Tomkins.
— Ótimo. Mais duas vezes, e o galo vai cantar.
Riddel sorriu de leve, como se gostasse do estilo dela.
— Tudo bem. Escute, eu também tenho minhas dúvidas. Mas mesmo que Abe tenha cometido uma pequena indiscrição, isso não tem nada a ver com a morte de Tyla.
— Nada me deixaria mais feliz do que ver todos os e-mails, todas as evidências, e chegar a essa conclusão. E estou falando de todas.
A recepcionista chamou os dois.
— O dr. Belter vai recebê-los.
Riddel deu passagem para Victoria e disse “você primeiro”, deixando claro que não ia embora e que estaria logo atrás dela.
A recepcionista os conduziu pelo corredor central até uma entrada de portas duplas que dava para a sala de reuniões. A porta pesava mais do que ela, e a garota quase caiu de seus saltos de dez centímetros ao tentar abri-la.
— Me avisem se precisarem de alguma coisa — disse ela quando Victoria e Riddel entraram.
A porta se fechou, e Belter atravessou a sala para cumprimentá-los.
Ele era um homem atraente de quase cinquenta anos, muito mais bonito do que o avô na pintura. Dois outros advogados estavam com ele. Um deles era um jovem associado que certamente não diria nada, mas provavelmente passaria a noite em claro redigindo um relatório de quarenta páginas para Belter que resumiria a reunião, identificaria todas as possíveis complicações legais e analisaria todos os precedentes legais que favorecessem a posição da firma. A outra advogada era Maggie Green, uma ex-promotora federal que tinha acabado de se juntar à BB&L como sócia, ganhando pelo menos dez vezes seu salário anual como funcionária pública para atuar na defesa de crimes de colarinho branco.
— É um prazer conhecê-los — disse Victoria, sem demonstrar seus verdadeiros sentimentos por promotores que se vendiam.
Todos os participantes se sentaram: a polícia de um lado da longa mesa de imbuia, os advogados da BB&L do outro. Victoria começou com uma atualização do status da investigação. Maggie Green interrompeu diversas vezes com perguntas, nenhuma das quais Victoria podia responder.
— Uma pergunta — disse Green. — Você mencionou que nos casos de Palm Beach, o assassino deixou uma marca registrada nas vítimas. De que marca registrada estamos falando exatamente?
As cinzas de cana-de-açúcar no rosto das vítimas ainda não era uma informação pública.
— Sinto muito, não posso discutir isso com você.
Belter se manifestou.
— Agente Santos, eu entendo que a polícia precisa ser discreta nessas circunstâncias. Mas, como você sabe, este escritório representa a Açúcar Cortinas há mais de meio século. Duas das vítimas do condado de Palm Beach foram encontradas nos canaviais do nosso cliente. Por aconselhamento nosso, a empresa tem cooperado completamente. Uma de nossas sócias mais jovens está morta, e ela pode ser a vítima número cinco desse monstro. Sem dúvida está na hora de nos incluir no círculo de confiança.
Victoria balançou a cabeça.
— Sinto muito, eu não tenho essa autorização.
— Seria um prazer deixá-la fazer a ligação por nossa conta e pedi-la — disse Belter. — O telefone está bem ali.
— Tudo o que posso dizer é que ainda não foi confirmada a existência da marca registrada do serial killer no assassinato de Tyla Tomkins.
Maggie Green assentiu devagar, apertando os olhos, e Victoria praticamente podia ver a mente de uma ex-promotora em ação.
— Sem querer ser desagradável — disse Green —, mas é porque a cabeça da vítima ainda não foi recuperada?
Victoria não queria entrar no mérito de todas as outras diferenças entre os casos.
— Correto — respondeu ela. — E isso é mais do que eu deveria revelar para vocês. Mas vou compartilhar em nome do mesmo espírito de cooperação a que você fez referência antes, dr. Belter. Preciso pedir algumas coisas ao senhor e ao seu escritório.
— Pode pedir — disse Belter.
— É muito importante que o FBI tenha acesso pleno ao computador e à conta de e-mail de Tyla.
Belter olhou para sua sócia.
— Eu me antecipei a esse pedido — respondeu ele. — Essa é a especialidade de Maggie.
Victoria abriu um pequeno sorriso, tentando aliviar o clima.
— Então qual é a resposta da especialista?
— Não — foi apenas isso o que Green disse.
— Podemos pedir um mandado — disse Victoria.
— Podemos refutá-lo — devolveu Green.
— Isso seria uma pena.
— Provavelmente também não seria bom para a imagem da empresa — interveio Riddel. — O bom e velho escritório de advocacia de Miami dificulta a investigação do assassinato de sua jovem sócia afro-americana.
— Não sei o que etnia tem a ver com isso — disse Belter.
— Estou só fazendo um comentário.
Green se inclinou para a frente, as palmas das mãos sobre a mesa.
— A questão é esta, senhores: somos um escritório de advocacia. Temos clientes. Tyla representava muitos desses clientes. Não podemos simplesmente entregar o computador e os e-mails dela. Precisamos proteger a relação de confidencialidade entre advogado e cliente.
— Quem eram os clientes dela? — perguntou Victoria.
— Tyla era muito solicitada por todos os nossos clientes — respondeu Belter. — Ela era muito talentosa.
— Quais eram os clientes para quem ela trabalhava mais?
— É difícil dizer.
— Ela atendia a Açúcar Cortinas?
Belter olhou rapidamente para sua sócia.
— Sim.
— Ela estava fazendo algum trabalho para a Cortinas quando morreu?
— Provavelmente. O que não é incomum. A Cortinas é o maior cliente deste escritório na Flórida.
— O que ela estava fazendo para a Cortinas?
— Ei, ei — interferiu Green. — Estão vendo a rapidez com que podemos entrar em questões complexas? Precisamos lidar com as questões de confidencialidade de maneira organizada.
— O que você propõe? — perguntou Victoria.
— Primeiro, sugiro que você me mande suas questões por escrito.
— Isso é ridículo.
Green continuou, sem se abalar.
— Enquanto estiver preparando essas questões, vamos analisar o HD e os e-mails de Tyla. Depois, forneceremos um login privilegiado que liste todos os documentos que não pudermos fornecer por causa da confidencialidade entre advogado e cliente.
— Estamos tentando pegar um serial killer, dra. Green. Isto não é direito corporativo. Não podemos nos dar ao luxo de perder tempo.
— Vamos cuidar disso o mais rápido que pudermos — disse ela. — Sinto muito, mas é uma obrigação que temos com nossos clientes. Nenhum escritório de advocacia dos EUA simplesmente acataria as ordens da polícia e entregaria os arquivos de computador e e-mail de um de seus sócios.
Belter juntou as mãos, obviamente pronto para encerrar a reunião.
— Mais alguma coisa?
Victoria respondeu sem hesitar.
— Só me avisem qual de vocês quer receber o mandado. Parece que esse será meu próximo passo.
— Faça o que tiver de fazer — disse Belter. — Maggie é o nosso contato.
Victoria estava prestes a se afastar da mesa, mas Riddel a fez parar.
— Eu tenho apenas uma coisa a dizer — anunciou ele.
— Claro, o que é? — perguntou Belter.
Riddel colocou a mão no bolso do casaco e colocou uma cópia dos registros telefônicos de Tyla sobre a mesa.
— A sra. Tomkins tinha um celular pré-pago. Ela só usava para ligar para alguns telefones. Eu estava me perguntando se vocês poderiam me ajudar a identificar este aqui — apontou ele.
Belter se aproximou, olhando com cuidado para o número impresso.
— Esse é o meu número.
Victoria não demonstrou nenhuma reação, se deleitando em silêncio com a descoberta do detetive. Ela teria adorado assumir as rédeas, mas Riddel tinha ganhado o direito de se manifestar.
— Alguma ideia de por que ela ligaria para o senhor de um celular pré-pago? — perguntou ele.
— Nós nos falávamos muito — respondeu Belter. — Eu não controlava todos os telefones que ela usava. Talvez tenha a ver com as viagens internacionais.
Riddel pegou a folha impressa, a dobrou com cuidado e guardou no bolso do frente.
— O senhor é casado, dr. Belter?
Belter pareceu surpreso com a pergunta do detetive, mas respondeu.
— Sim, muito bem casado. Quase vinte e dois anos. Dois filhos. Um filho na Universidade de Massachussetts Amherst, e nossa filha está no primeiro ano na Duke.
— Seus filhos usam celulares pré-pagos?
— Não que eu saiba.
— Os pais costumam gostar desses aparelhos por serem uma maneira de impedir que os filhos usem o celular em excesso. Quando os créditos se esgotam, nada de telefone. Mas a polícia odeia os pré-pagos porque são praticamente impossíveis de rastrear. Aliás, nós jamais teríamos associado esse celular a Tyla se o não tivéssemos encontrado no apartamento dela. Eles são muito populares entre traficantes, terroristas. Adúlteros. Amantes.
— Como assim?
O detetive olhou para Victoria.
— Quer contar a ele o que sabemos sobre a lista de ligações de Tyla? Ou conto eu?
Victoria se sentiu grata que ele tivesse passado a bola, mas estava feliz em deixar as coisas como estavam.
— Acho que o dr. Belter entendeu.
O advogado parecia pronto para lançar uma negativa indignada, mas um olhar sutil de sua sócia mandou uma mensagem clara: Não fale mais nada.
Belter limpou a garganta, se levantando.
— Peço desculpas, mas tenho uma conference call às dez e infelizmente preciso encerrar isso. Mais alguma coisa, agente Santos?
— Não. Eu consegui o que preciso. Detetive?
— Tudo bem — respondeu Riddel.
O aperto de mão de despedida foi uma formalidade, e Belter pediu ao associado para acompanhar os oficiais direto para o elevador, como se eles pudessem entrar no escritório vazio e sair com o computador dela por conta própria. As portas do elevador se abriram, e eles eram os únicos dentro dele. Os dois desceram em silêncio, olhando para a frente.
— E aí? — perguntou Riddel.
Os ouvidos de Victoria estalaram com a descida rápida.
— E aí, o quê?
— Alguma dúvida de que Belter estava transando com Tyla?
Não era exatamente como Victoria teria formulado a frase, mas ela estava começando a pensar que, mesmo assim, Riddel era um sujeito com quem ela conseguiria trabalhar. Ela deixou a luz piscante dos 55 andares chegar até a base do painel antes de responder.
— Nenhuma — disse a agente Santos quando as portas se abriram.