Uma Mulher Perfeita
Capítulo trinta e três
A agente Santos me deixou preocupado.
Fiquei observando ela atender o celular, atravessar a rodovia correndo, entrar no carro e sair em alta velocidade, não na direção dos Everglades, e sim da Florida’s Turnpike. Em questão de minutos, notei mudanças drásticas nas atividades de busca. Os mergulhadores emergiram e saíram da água. As luzes pararam de varrer a restinga. Os cães farejadores de cadáveres obedeceram o comando de “sentar”. Uma viatura saiu, seguida de outra. A presença da polícia tinha sido reduzida a alguns grupos conversando à toa pelo canal, a sensação de urgência se dissipando na escuridão. Pessoas demais paradas, sem nada para fazer. Continuei respeitando o perímetro demarcado pela polícia, mas eu não sabia quanto tempo eu ia aguentar ficar quieto do lado dos espectadores da Tamiami Trail. Eu não estava vendo Rid em nenhuma parte. Deixei um recado para ele.
— Não estou gostando do que estou vendo. Me ligue imediatamente. O que está acontecendo?
Vi o trânsito passar rastejando por mim, meu coração na garganta. Observei a longa fileira de veículos se aproximando, procurando a van do médico legista, procurando alguma coisa que eu não queria ver. Meu celular vibrou com a ligação de Rid, que me contou sobre Palm Beach. De repente, eu não conseguia respirar.
— Diga que não é ela — eu pedi.
— Ainda não sabemos.
— Não me enrola!
— Abe, estou contando o que eu sei.
Fiquei olhando para ele do outro lado da rodovia, o celular grudado na orelha e, conforme Rid se aproximou, desligamos. Mesmo que ele só estivesse do outro lado da fita amarela, era difícil ver ser rosto. Todas os feixes de luz foram desligados com exceção de um, e estávamos parados na escuridão que eram os Everglades.
— Eles estão com a foto de Angelina — eu disse. — Ninguém pode fazer uma comparação?
Rid olhou para o chão.
— Foi um ataque especialmente violento, pelo que me disseram. Os policiais na cena do crime confirmaram vestígios de cinzas, mas nem isso foi fácil. O rosto não está reconhecível.
— Meu Deus. — Tentei manter o controle. — E as impressões digitais? A equipe de investigação deve ter tirado as impressões de Angelina da escova ou do secador de cabelo… alguma coisa.
— Eles tiraram — respondeu Rid. — Mas, de novo, devido à gravidade dos ferimentos, não se sabe se as impressões digitais vão nos dar uma resposta.
Minha mente logo foi parar em outro lugar aonde eu não queria ir, e tentei me livrar da imagem horrível de tocos nos punhos, sem mãos, sem impressões digitais.
— Quando chegam os resultados do exame de DNA?
— Vai ser um pedido de urgência, não só para a identificação da vítima, mas pelo DNA do assassino também. Mas o laboratório não pode começar até o DNA ser coletado, o que precisa ser feito com cuidado. Não vai acontecer até o corpo chegar ao escritório do médico legista.
O corpo. Eu sabia melhor do que ninguém. Rid também.
— Abe, a coisa que mais pode ajudar é pensar em alguma característica marcante. Eu transmito para o legista de Palm Beach.
A pinta na parte interna da coxa, as sardas nos ombros, os detalhes que nem Angelina sabia sobre Angelina. Claro, eu podia fazer uma lista. No carro.
— Eu preciso ir — avisei.
Fui direto para a rodovia com pedágio. Rápido. E sozinho. Rid precisava ficar. A busca na Tamiami Trail estava suspensa, não cancelada. Considerei isso bom sinal; você se apega ao que pode.
Eu estava ditando para o celular, e tinha chegado ao número 14 na lista de características únicas do corpo de Angelina, quando Ed Brumbel ligou de Belle Glade.
— Talvez você já saiba — disse ele. — Mas a polícia encontrou um corpo nos canaviais a mais ou menos um quilômetro e meio da minha casa.
Com “casa” eu sabia que ele queria dizer o escritório de assistência jurídica.
— Eu ouvi. Estou a caminho do escritório do médico legista agora.
— É…
— Ainda não sabemos.
— Vejo você lá — disse ele, sem hesitar.
— Não é necessário.
— Quem está com você?
— Ninguém.
— Abe, não faça isso sozinho. Encontro você lá.
Eu agradeci e continuei dirigindo. Terminei a lista das marcas de Angelina enquanto atravessava a fronteira de Miami-Dade. Eu estava passando por um desses empreendimentos muito a oeste que tinham surgido nos limites da civilização durante o boom imobiliário, onde novos moradores logo aprendiam a indiferença dos pernilongos em relação ao fim da área residencial e o começo dos Everglades.
Mandei a lista por e-mail para o Rid, em seguida fiz a ligação que eu estava temendo: a mãe de Angelina. Margaret e eu tínhamos prometido nos manter informados. O pai de Angelina atendeu.
— Margaret está dormindo — ele me disse. — Ela estava enlouquecendo. Eu a fiz tomar um remédio para dormir.
Contei para o meu sogro aonde estava indo. O silêncio na linha me fez imaginar se a ligação tinha caído, mas ele finalmente falou.
— Margaret e eu precisamos encontrar você lá?
— Não acho uma boa ideia, Jake.
— Tem certeza?
Fiz um esforço para procurar algo positivo.
— Temos muitos ângulos para cobrir. Se não for Angelina, a busca para encontrá-la viva deve ser retomada no mesmo instante. Precisamos ter alguém da família no condado de Miami-Dade.
— Certo, faz sentido.
— Eu ligo assim que souber — prometi.
Desligamos. Eu acelerei.