Uma Mulher Perfeita
Capítulo trinta e um
— Simplesmente não é verdade — eu disse.
Precisei de toda a minha força para olhar a agente Santos nos olhos e oferecer uma resposta calma e controlada. Eu estava bravo com JT por dizer que Angelina me batia. E estava furioso com a agente Santos por trazer aquilo à tona naquela noite, naquelas circunstâncias, do outro lado da estrada onde estava acontecendo a busca pelo corpo da minha mulher.
— Por que JT mentiria sobre isso? — perguntou Santos.
JT estava me ligando obsessivamente fazia meia hora. Não atendi, mas gostaria de ter atendido. Eu teria feito a mesma pergunta e não teria sido encurralado por Santos e pela detetive Reyes.
— Por que JT faz qualquer uma das coisas que ele faz? — perguntei. — Se a corte coloca uma tornozeleira, ele vai dizer que o governo o está espionando. Se existe um serial killer chamado Cortador no sul da Flórida, ele vai dizer que costumava cortar cana. Ele diz muitas coisas para ver como as pessoas vão reagir.
— Então essa é a sua resposta? Ele mente por mentir?
Como explicar o JT para alguém de fora?
— JT vive em seu próprio mundo. Fomos visitar o pai dele na clínica na sexta, e JT negou ser filho dele. Não é uma mentira. Ele sabe que não está enganando ninguém. Essas são as coisas que ele faz. Às vezes ele diz o exato oposto do que ele e todo mundo sabe que é verdade.
— Então, se o cunhado de JT bate na esposa, ele pode dizer que a esposa bate no cunhado.
Eu devia estar preparado para essa, mas não estava, o que só confirmava meu nível de estresse.
— Eu nunca bati em uma mulher na vida.
— Existe um jeito fácil de resolver isso.
— Sim, você pode parar com essa coisa do marido violento e descobrir o que aconteceu com a minha mulher.
— Eu posso. E você pode se submeter ao polígrafo.
— Não — respondi com firmeza, sem hesitação.
— Que bom que você parou para pensar — comentou ela com sarcasmo.
— Não vou entrar nesse jogo — eu avisei. — Se eu permitir que você me trate como um suspeito, você vai continuar me tratando como suspeito. Se eu passar no polígrafo, você vai me revistar para ver se tenho algum hematoma ou arranhão. Se o exame não revelar nada, você vai querer outro detector de mentiras. Se eu passar de novo, você vai procurar outra coisa. Cada minuto que você passa tentando elaborar um caso absurdo contra mim é um minuto desperdiçado. Vá procurar o assassino de verdade.
Fiquei paralisado, me dando conta do que tinha acabado de dizer. Santos percebeu. Assassino. Ela não precisou perguntar, mas eu podia ver a pergunta escrita em seu rosto. Como você sabe que ela está morta?
— Pense no detector de mentiras — disse ela.
— A resposta é não.
— Sinto muito em ouvir isso.
Ela começou a se afastar, mas eu a interrompi.
— Ei, o que está acontecendo aqui?
— Como assim?
— Isto começou como uma investigação de um serial killer. Agora se tornou uma caça às bruxas, e sou eu que estou amarrado na estaca. Estou aqui parado há duas horas, observando e rezando enquanto a equipe de busca faz seu trabalho. Mas também estou me perguntando… sobre você. Fiz até uma ligação.
— Você está me investigando?
— Fiz uma busca no Google com meu iPhone e li sobre a investigação do serial killer que você fez com a ajuda do Miami Tribune. E me ocorreu que você devia conhecer o antigo repórter criminal do jornal. Ele saiu faz uns cinco anos. Vinte e dois anos no trabalho. Ganhador de um prêmio Pulitzer. Um sujeito muito bom. Cobriu meu primeiro julgamento com pena capital e muitos outros. O nome dele é Mike Posten.
A agente Santos não disse nada, mas eu podia ver em seus olhos que o nome de Mike significava alguma coisa para ela.
— Enfim, liguei para o Mike — continuei. — Sabe o que ele disse?
— Não faço ideia. Faz anos que não o vejo.
— Bom, a aposta de Mike é que seu instinto, seu coração e sua cabeça não estão dizendo que Abe Beckham é o seu culpado. Ele acha que alguém está provocando você. E disse que a Victoria Santos que ele conhece é muito mais esperta do que isso.
Ela se aproximou um passo e me olhou nos olhos.
— A Victoria que Mike conhece é uma novata de 32 anos. Ninguém está me provocando.
— Só estou contando o que Mike acha.
Ela pareceu estar procurando uma resposta, mas mudou de ideia. Então virou e se afastou.
— Ei, Santos — eu chamei.
Ela deu mais dois passos, como se desejasse poder encerrar a conversa sobre Mike, mas algo a fez parar e ouvir o que eu tinha a dizer.
— O que aquela novata de 32 anos acha?
Estava escuro, longe dos feixes de luz portáteis, e não consegui ler a expressão de Santos. No entanto, meu instinto era que meu último golpe tinha sido dado.
Mas ela não ia cair com tanta facilidade. E voltou direto até mim, parando do outro lado da fita.
— A novata acharia exatamente o que eu acho — disse Santos, com um tom muito claro na voz. — Ela pode demorar mais para tomar uma decisão, por causa de sua inexperiência, mas a conclusão seria a mesma. Nosso serial killer ainda não atacou fora do condado de Palm Beach. O Cortador não matou Tyla Tomkins. E também não levou sua esposa.
Antes que eu pudesse começar a responder, ela virou de uma vez e se afastou. Eu queria passar por baixo da fita e fazer uma enxurrada de perguntas que de repente estavam me vindo à mente, mas contaminar uma cena de crime com minhas pegadas não era algo que eu precisava acrescentar à minha lista de problemas. Mais especificamente, eu sabia que a conversa dela comigo tinha acabado.
Deixei passar por ora, vendo em silêncio Santos voltar para o brilho das luzes de vapor da equipe de busca e salvamento.