Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 25 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo vinte e cinco

 

 

Eu me senti um operador de painel de controle na viagem de volta, discando números, atendendo chamadas, dando retornos.

Meu primeiro telefonema foi para Carmen, que atendeu de imediato, e depois para Rid. Dois minutos depois, Carmen me ligou de volta para me avisar que os dois primeiros policiais a atender a chamada entraram à força em casa. A boa notícia é que a polícia não tinha encontrado Angelina ferida nem nada pior.

— O preocupante é que ninguém sabe onde ela está — disse Carmen.

— E os policiais patrulhando nosso bairro? Algum deles a viu entrar ou sair de casa?

— Não.

Eu me lembrei de quando estava voltando para casa quinta à noite, quando vi o guarda sentado em sua viatura, mandando mensagens pelo celular.

— O carro de Angelina continua na entrada?

— Sim. É uma das partes confusas.

— Ela corre. Alguém a viu sair para correr hoje de manhã?

— Não, Abe. Mas estão falando com os vizinhos neste momento.

Concordamos que o FBI deveria ser envolvido. Santos tinha deixado sua marca na agência como pioneira do que na época era conhecida como Unidade de Sequestros Infantis e Serial Killers. Apesar da tensão recente entre Santos e eu, parecia ter sido providência divina que ela estivesse à nossa disposição. Mesmo assim, minha ligação seguinte foi para Rid, que me colocou em conference call com outro tenente da polícia de Miami-Dade que estava supervisionando a investigação, cujo centro era minha casa. Compartilhei tudo o que considerei importante que eles soubessem sobre os hábitos, os lugares preferidos e os amigos de Angelina. Explicar por que eu não estava em casa com minha esposa na noite anterior tinha sido constrangedor, mas eu precisava fazer todo mundo superar isso.

— Vocês precisam continuar procurando pelo bairro, checando o celular dela, o iPad. Deve haver alguma coisa.

— Estamos cuidado disso — disse Rid.

Eu queria estar lá, mas confiava totalmente que Rid estivesse de fato “cuidando disso”. Eu sabia que cada vizinho do bairro seria entrevistado, cada pronto-socorro do condado, contatado, e que tudo, do celular à conta do Facebook de Angelina, seria checado e monitorado. Qualquer atividade em seus cartões de crédito seria um alerta imediato. Mas eu precisava fazer alguma coisa. Eu tinha apenas uma lista mental das amigas e dos colegas de trabalho de Angelina. Ligar para o serviço de informação era algo que eu podia fazer do carro, e telefonei para qualquer pessoa em que conseguisse pensar. Alguns eram bons amigos, nos quais eu podia confiar que agiriam com responsabilidade. Mas alguns nomes que me vieram à mente eram conhecidos, ex-amigos e colegas de trabalho que eu não conhecia. Provavelmente surgiriam fofocas, rumores de que Angelina estava envolvida com um antigo namorado e ia acabar aparecendo. Não era o momento de me preocupar com o que os outros pudessem pensar. Até certo ponto. Modulei a mensagem com pessoas que eu não conhecia bem, procurando o equilíbrio ideal entre urgência sem alimentar a rede de fofocas maldosas.

— Você falou com Angelina hoje?

— Não. Alguma coisa errada, Abe?

— Não sei. Estamos com medo que ela tenha se envolvido em um acidente ou algo assim.

Eu sabia que era mentira, mesmo antes de chegar correndo à nossa rua e ver o carro dela ainda na nossa entrada. Eu tinha passado por três ruas em que a preferência não era minha e dois faróis vermelhos ao sair da rodovia. No relevo rebaixado e coberto de grama do lado de fora de casa, havia diversas viaturas estacionadas ao lado da unidade de investigação de local do crime da polícia de Miami-Dade. Meu carro derrapou até parar atrás das luzes piscantes. Nossa porta da frente estava escancarada, e considerei um bom sinal que não houvesse nenhuma ambulância nem van do médico legista na cena, confirmando as informações anteriores de que não havia nenhum corpo. Mesmo assim, não é preciso ser da polícia para reconhecer um cachorro farejador de cadáveres e a unidade canina no local.

— Deus, por favor, por favor — implorei em voz baixa quando saltei do carro.

Meu coração estava acelerado, e corri pela calçada, parando na fita amarela na entrada. Santos estava em pé na sala, do outro lado da fita, observando um dos outros investigadores.

— Alguém teve notícias de Angelina? — perguntei, sem fôlego.

Do carro, eu tinha tentando ligar para o celular da minha mulher várias vezes, sem sucesso. Santos deu um passo e parou, deixando uns bons três metros de distância em relação à porta.

— Não — respondeu ela.

— Onde está a mãe dela?

— Um dos policiais a levou de volta para o hotel. Queríamos que ela ficasse perto do telefone caso Angelina ligue para o quarto.

Fazia sentido. Olhei pelo batente e notei outro investigador, de quatro, com um feixe de luz, vasculhando o carpete entre o sofá e a porta da frente.

A garrafa de cerveja quebrada. Eu tinha me esquecido dela quando falei com Rid e outro tenente, e não fiz menção ao acontecido.

— Posso explicar.

— Que bom, mas não entre. Já estou saindo. Ah, aproveitando, você pode me passar a chave do seu carro?

— Para quê?

— Preciso que um dos investigadores vasculhe seu carro. Procedimento padrão. Você não se importa, não é?

Se não tivesse vindo à tona imediatamente depois da garrafa quebrada, eu provavelmente teria me importado menos.

— Tudo bem.

Joguei a chave para ela.

Santos foi até a cozinha, saiu pela porta dos fundos, e, na varanda, fiquei esperando ela dar a volta na casa. Meu nível de ansiedade já estava alto, mas a ideia de ter de explicar uma garrafa de cerveja quebrada fez meu estresse disparar com um foguete. Posso ter parecido um pouco defensivo, mas eu queria falar da garrafa imediatamente. Desci da varanda e encontrei Santos no meio do caminho do nosso jardim.

— Aquela garrafa quebrada não veio de um invasor — expliquei.

— Como você sabe?

— É minha.

A expressão dela me atravessou como uma faca.

— É uma tradição na sua casa? Angelina quebra taças de vinho, você quebra garrafas de cerveja?

Meu queixo caiu. Eu tinha me esquecido da taça de vinho que Santos encontrou perto das fotos.

— Sei que isso deve estar parecendo bem ruim — eu disse.

Santos continuou impassível, sem reagir.

— Não somos um casal violento — expliquei. — Atirar garrafas pela sala não é o que nós fazemos. É importante você saber disso.

— Quer me contar o que aconteceu?

— Angelina voltou para casa por volta de 11 ontem à noite. Eu estava no sofá, quase dormindo. De alguma forma, começamos a discutir por causa do JT.

— O que tem o JT?

— Cuidar dele. É mais uma embate e uma discordância constante do que uma discussão. O que de fato a fez perder a cabeça foi quando descobriu que eu tinha ido ao velório de Tyla.

— Você não contou para ela que ia?

O tom de Santos estava muito mais calmo do que o de Angelina, mas soou pior vindo de uma agente do FBI.

— Não. Carmen me pediu para ir com ela, e decidi no último instante.

— Então você contou para Angelina quando ela chegou em casa?

— Bom, na verdade, ela viu Carmen e eu na TV.

— Então você não pretendia contar para sua mulher?

— Não, não é verdade.

— Mas ela obviamente acha que você dormiu com Tyla.

— Também não é o caso — expliquei. — Na verdade, é o oposto. Angelina me disse…

— O que ela disse?

— Na noite em que as fotos chegaram, ela me disse que acreditava que nada tenha acontecido entre mim e Tyla. Mas, agora, com você falando, e vendo como ela reagiu, talvez tenha sido a conclusão dela ao saber da minha decisão de ir ao velório. Ela perdeu a paciência, me colocou para fora e bateu a porta. Eu estava do lado de fora, na varanda, quando ouvi a garrafa se quebrar.

— Ela bateu em você em algum momento?

— Não.

— Você bateu nela?

— Claro que não.

— Ela ameaçou você?

— Não exatamente.

— Você a ameaçou?

— De jeito nenhum.

— Ela empurrou você?

Essa pergunta era mais difícil.

— Eu não diria que ela me empurrou. Angelina me pegou pelo braço, meio que me levando na direção da porta.

— Você tentou se desvencilhar?

— Nem um pouco. Escute, podemos parar de fazer essa investigação de violência doméstica, por favor? Nós sabemos que um serial killer estava parado na minha porta dois dias atrás, deixando uma foto coberta de cinzas de sua última vítima, e agora minha esposa está desaparecida.

— Não estou convencida de que as fotos vieram do Cortador.

— Mas está convencida de que Angelina e eu estávamos atirando garrafas de cerveja e taças de vinho um no outro, não é?

— Eu vi o vidro quebrado. No caso do Cortador, ainda estou para ver uma vítima branca que não estava namorando um negro.

— Eu era casado com uma negra. Quem sabe como a mente desse assassino funciona? E, de todo jeito, o paradigma de mulher branca/homem negro não é à prova de falhas. Tyla era negra.

— Não está confirmado que Tyla foi uma das vítimas do Cortador.

Minha cabeça estava começando a girar.

— Certo, sem querer desrespeitar Tyla ou qualquer uma das vítimas, mas que diabos está acontecendo aqui? O tempo está passando, e tudo o que fizemos até agora foi falar sobre uma garrafa de cerveja quebrada e sobre as nuances psicológicas do perfil do Cortador. Você foi a primeira pessoa a quem Carmen e eu concordamos em recorrer quando Angelina desapareceu porque achamos que o FBI iria acelerar a busca imediatamente. Você está com a gente, ou não?

Ela estava prestes a dizer alguma coisa, mas uma das investigadoras apareceu e interrompeu.

— Agente Santos, você pode entrar um instante?

Reconheci essa investigadora. No começo da minha carreira, eu havia sido o promotor encarregado de um caso com ela.

— Mirna, você está trabalhando com homicídios e pessoas desaparecidas agora?

— Não — respondeu ela. — Ainda estou no setor de violência doméstica.

— Eu recomendei o envolvimento de diversas unidades — explicou Santos. — Estamos cobrindo todas as bases.

Eu estava vendo qual era a primeira dessas bases.

— Com licença — disse Santos.

Não estava claro se eu tinha sido convidado para ir com ela, mas minha esposa estava desaparecida, aquela era nossa casa, e eu não estava gostando de como aquilo estava se desenrolando. Atravessei a entrada atrás das duas. Passamos direto pelo meu carro. O porta-malas estava aberto, as portas também, o capô levantado. Pelo jeito, a investigação “padrão” envolvia tudo, exceto virar o carro de ponta-cabeça e chacoalhar tudo. Entramos na casa pela garagem e seguimos pelo hall até a sala. Outra investigadora da cena segurava um pequeno pedaço de vidro quebrado em uma bandeja de evidências, sua caneta iluminando a descoberta.

— Me parece ser sangue — disse ela.

Santos examinou o objeto mais de perto. Em seguida, virou a cabeça, e seus olhos se fixaram em mim.

— Parece ser sangue para mim também.

Fiquei gelado, mas, além de ser um marido preocupado, eu era um promotor que entendia como o sistema judiciário criminal funcionava. E me senti compelido a dizer alguma coisa em minha própria defesa.

— Talvez Angelina tenha se cortado tentando limpar o vidro quebrado. Sabe, depois que fui embora.

Santos assentiu, mas não porque tinha acreditado na minha explicação. Parecia mais a expressão da expectativa de que eu teria uma explicação.

— Vamos mandar para o laboratório. — A ordem dela foi para a investigadora, mas Santos estava com os olhos fixos em mim. — E vamos precisar de uma amostra da sua saliva, dr. Beckham. Precisamos determinar se esse sangue ou qualquer DNA que encontrarmos aqui pertence a um estranho.

Era um pedido comum em um caso de desaparecimento, mas o timing fazia parecer outra coisa.

— Sem problema — respondi.

Uma das técnicas estava com o kit a postos e veio direto para minha boca. Levou apenas alguns segundos. Olhei para Santos e perguntei:

— E agora?

— Quero continuar nossa discussão lá fora, com o envolvimento da detetive Reyes — respondeu ela, se referindo à investigadora de crimes de violência doméstica.

— Estamos perdendo muito tempo falando — eu disse.

— Como é?

— Sem querer ofender a equipe que você está montando, Santos. Investigações de crimes de violência doméstica têm seu lugar. Mas se você está tão determinada a transformar isto em algo que não é, tenho uma tonelada de coisas na minha lista de afazeres.

— Beckham…

Ela me parou quando cheguei ao corredor.

— Tem uma coisa que me parece muito curiosa — disse ela, dando um passo na minha direção.

— Curiosa?

Ela assentiu, me olhando nos olhos. Estávamos próximos, e ela falou baixo o suficiente para que ninguém mais escutasse.

— Agora que Angelina desapareceu, você está morrendo de medo de que o Cortador esteja vigiando sua vizinhança como o bicho-papão. Mas 14 horas atrás você deixou sua esposa nesta casa, sozinha. Como explica isso?

Não gostei da insinuação e pude sentir que ela estava me analisando, medindo minha reação, medindo meus batimentos criminológicos. Mas, pior do que isso, era um nível de culpa que eu não tinha certeza se seria capaz de processar.

— Que boas maneiras as suas, dra. Santos. É assim que você fala com todo marido cuja esposa desapareceu?

— Não — respondeu ela, apertando mais os olhos. — Só com alguns.

Tentei não me encolher, mas eu estava olhando nos olhos de uma profissional que tinha analisado mais cenas de crime do que eu veria na vida.

— Preciso encontrar minha esposa — respondi, e virei à esquerda pela garagem, evitando o vidro quebrado na porta da frente. Eu estava na metade do caminho até a saída quando outro investigador me parou.

— Antes de você sair, precisamos checar suas mãos para ver se há vestígios de pólvora. É procedimento padrão.

Olhei de volta para a casa. A agente Santos estava me observando pela janela.

— Claro que é — respondi.