Uma Mulher Perfeita
Capítulo vinte e dois
Brian Belter olhou pela janela do helicóptero, o Atlântico negro lá embaixo, o sul da Gold Coast da Flórida no horizonte à oeste, um borrão contínuo de luzes de Miami até Palm Beach.
Belter estava em seu assento de couro na cabine de um Eurocopter EC225 Super Puma. Era o mais rápido dos helicópteros usados pelos advogados da Açúcar Cortinas, grande o bastante para transportar uma equipe de julgamento inteira em uma velocidade de 270 quilômetros por hora acima do engarrafamento do sul da Flórida. Naquela noite, eram só Belter e uma advogada associada de confiança, os únicos membros da BB&L que não estavam participando do velório de Tyla, naquela espaçosa cabine, mesmo que Belter tivesse toda intenção de fazer sua eulogia. Ele tinha trabalhado no rascunho por horas, escolhendo as palavras certas, estabelecendo o tom ideal, tocando as emoções com precisão. Claro que ele a tinha mostrado para Alberto Cortinas com bastante antecedência.
— Bom — comentou Cortinas. — Peça para outra pessoa ler.
— Por quê?
— Preciso de você na República Dominicana hoje à noite. Pegue o helicóptero até Palm Beach. O jato sai de La Romana às sete horas.
Tinha sido o fim da conversa. Brian Belter ia perder o velório de Tyla Tomkins, o que não era grande coisa num cenário mais amplo. Belter tinha perdido incontáveis funerais e casamentos ao longo dos anos, incluindo a festa de aniversário de quarenta anos de sua esposa, a festa de aniversário de 55 anos que a esposa planejou para ele, o nascimento dos dois filhos, a despedida de sua mãe no leito de morte e também o velório dela. Tudo por um bom motivo.
Porque Alberto Cortinas precisava dele.
O helicóptero pousou gentilmente no heliponto do Aeroporto Internacional do Condado de Palm Beach. A colega de Belter lhe entregou o telefone do outro lado do corredor. O piloto estava desligando o Eurocopter, e o rugido dos dois motores logo foi cortado pela metade, tornando o uso de fones de ouvido desnecessário, assim como levantar a voz para conversar.
— O sr. Cortinas está na linha — disse a advogada.
Belter aceitou a ligação. Percebeu imediatamente que Cortinas não estava feliz.
— Acabei de ver um e-mail de Maggie Green — disse Cortinas. — Que diabos é essa história de mandado?
Belter sinalizou para a associada mais nova que precisava ficar sozinho. Um assento ejetor não a teria tirado da cabine mais rápido.
— O mandado era inevitável — disse ele ao celular.
— A morte também é, o que não a torna agradável. Que direito o governo tem de vasculhar os e-mails e os arquivos do computador de Tyla no seu escritório?
— Tyla foi vítima de homicídio. O FBI está coordenando a investigação. Eles estão sendo minuciosos.
— Besteira. O FBI está atacando com um mandado antes que o promotor esteja de acordo, e eu sei exatamente do que se trata. São as sombras do governo Clinton, quando aquele promotor em Miami processou o estado da Flórida por não impor sobre nós as regulamentações ambientais. Nunca esqueça essa história, Brian. Os agentes federais estão loucos para fazer acusações criminais contra empresas de açúcar desde que a acusação de trabalho escravo foi excluída em julgamento em 1941. Estão usando o assassinato de Tyla como desculpa para sair à caça e trazer à tona o que conseguirem encontrar. Francamente, é provável que exista bastante coisa para eles fincarem os dentes nos arquivos de Tyla. E você sabe exatamente do que estou falando.
Belter sabia.
— Vamos garantir que isso não aconteça.
— Como?
— Maggie está cuidando disso — respondeu Belter. — Nossa alegação será a de que tudo está protegido pela confidencialidade entre advogado e cliente. O governo não pode ter acesso.
— Isso é fraco — disse Cortinas, desdenhando. — Não basta dizer que eles não podem ter acesso. Antes mesmo de entrarmos nessa briga, precisamos saber exatamente o que tem ali. Não quero mais nenhuma surpresa, como seu número aparecendo no celular pré-pago de Tyla.
A simples menção a isso fez Belter se encolher.
— Pode deixar.
— Vou mandar uns dois sujeitos de TI meus para verificar o computador de Tyla.
— Quando?
— Hoje à noite.
Belter olhou pela janela, na direção do jato corporativo na pista.
— O helicóptero acabou de pousar. Estou prestes a embarcar para La Romana.
— Eu sei. Infelizmente, você foi chamado por causa de um trabalho fora do país e não pode supervisionar a tarefa. Claro, seria uma pena se alguns arquivos ou e-mails de Tyla fossem deletados por acidente, mas eu confio que esses homens vão fazer o melhor possível.
O motor do helicóptero foi totalmente desligado, e as pás da hélice ficaram em silêncio. Belter se mexeu, desconfortável, mas não disse nada.
— Brian, você está ouvindo o que estou dizendo?
Belter limpou a garganta e então falou com a voz firme.
— Precisamos tomar muito cuidado aqui. Dependendo de como a investigação se desenrolar, o tribunal pode exigir que um especialista independente examine nosso sistema e determine se algum dos arquivos de Tyla foi deletado depois da morte dela. Seria uma análise muito simples para qualquer especialista em informática. E seria algo muito difícil para o escritório explicar. Minha firma recebeu um mandado de apreensão. Existem penalidades criminais por prejudicar evidências.
— Não estou preocupado com isso.
— Precisa estar. Não estou falando só de multas corporativas e de um tapa na mão. Pode haver pena de prisão para qualquer um envolvido.
— Entendido. Mas a questão é esta Brian: eu não estou envolvido.
Belter ficou em silêncio.
— Não é mesmo, Brian?
Belter continuou sem responder.
— Brian, não ouvi você.
— É — disse ele, com a voz entrecortada.
— É, o quê?
— É exatamente isso. Você não está envolvido.
— Vou mandar o motorista buscar você quando o avião pousar em La Romana. Nos vemos em duas horas.
— Claro — respondeu Belter. — Nos vemos logo mais.