Uma Mulher Perfeita
Capítulo dezessete
Tentei dar conta do volume de trabalho de sexta e o reduzi para uma audiência preliminar no tribunal. Eu já estava livre na hora do almoço. Minha tarde estava cheia, começando com uma viagem até o condado de Palm Beach para uma visita a um heroico assistente jurídico. Pelo menos ele se considerava um herói.
Ed Brumbel era um ideólogo, uma relíquia dos anos 1960 que se formara com todas as honrarias pela Faculdade de Direito de Harvard e se esquivara de todos os escritórios de advocacia de Wall Street. Tinha dedicado toda sua carreira às batalhas legais épicas entre fazendeiros e grandes conglomerados agrícolas. Em um de seus primeiros casos como jovem advogado que havia chegado até a Suprema Corte Americana, ele teve a sorte de encontrar todos os vestígios da era liberal de Earl Warren para estabelecer um precedente para que filhos de mexicanos sem visto permanente tivessem o direito de se matricular nas escolas. Ele passou outros dez anos no Texas como assistente jurídico, lutando por trabalhadores imigrantes que atravessavam o Rio Grande para colher algodão em Hereford, Texas. Ele enfrentou a indústria de aves domésticas no Arkansas, onde a fábricas de processamento controlavam os fazendeiros locais como senhores feudais. Ainda lutou contra os agricultores de maçã em Maryland e os fazendeiros de alface na Califórnia. O sucesso foi transitório depois daquela primeira vitória na Suprema Corte. Brumbel migrou de uma assistência jurídica para outra. Quando estava no auge, as mulheres ficavam atraídas por sua aura de autoconfiança romântica por si mesmo, cativadas por esse ex-aluno de universidade de elite apaixonado que tocava Mozart no piano em seu tempo livre e escalava montanhas no Tibet todo verão. No entanto, suas relações pessoais eram curtas e terminavam quando a namorada nova descobria que ele não tinha apartamento e dormia no sofá do escritório da assistência legal.
Então, Ed enfrentou a Açúcar Big e sua vida desmoronou.
— Dr. Lincoln, como vai, meu amigo? — ele disse, me cumprimentando com um abraço caloroso.
Ed era um dos poucos advogados que sabia que meu sogro me chamava de Abe Lincoln e conhecia a história de Luther Vine como cortador de cana em detalhes.
— Já estive melhor — respondi.
Ed me convidou para voltar com ele ao seu escritório, que tinha todo o charme de um galpão. A assistência jurídica Florida Farm Aid ficava em Belle Glade, uma comunidade predominantemente pobre que no passado costumava ser o destino do fim de noite para cortadores de cana solitários em busca de diversão. Vinte anos depois do fim do programa H-2, Belle Glade ainda tinha um dos mais altos índices de contaminação de HIV dos Estados Unidos. O escritório ficava a alguns quilômetros do ruidoso moinho da Cooperativa dos Canavieiros, de que a Açúcar Cortinas era parcialmente proprietária. Também ficava alguns quarteirões a oeste de um trailer infestado de ratos que abrigava uma dúzia dos estimados 45 mil trabalhadores imigrantes ilegais que ainda viajavam para o condado de Palm Beach todo inverno para colher outra coisa além de cana-de-açúcar. O escritório de Ed também fazia as vezes de arquivo da assistência legal. Pilhas de caixas de papelão cobriam as quatro paredes do chão ao teto. Imaginei que houvesse uma janela em algum lugar, mas ninguém nunca a encontraria.
— Sente — disse ele.
Só havia uma cadeira para visitas, e precisei tirar três caixas para chegar até ela. Ed foi até a cadeira bamba do outro lado da mesa e colocou os cotovelos nos encostos onde o corino estava gasto e pedaços de fita adesiva estavam remediando a situação. Notei um pedaço de ferrugem no canto da mesa, e a mancha no teto confirmava que era por causa de uma infiltração que estava pingando.
Conheci Ed quando estava noivo de Samantha. Ele queria indiciar a Açúcar Big criminalmente — de novo. Ed conhecia a história do meu futuro sogro com a Companhia Nacional de Açúcar nos anos 1940 e achou que eu poderia gostar da ideia de uma acusação que de fato emplacasse. O processo criminal nunca saiu do papel. Foi a última tentativa de Ed para obter algum sucesso em suas ações desastrosas. A Açúcar Big tinha enganado uma geração de jamaicanos, sua ação alegava, porque pagar os trabalhadores não por hora, mas por número de fileiras cortadas resultava em menos de sessenta por cento do salário mínimo. Depois de mais de uma década de litígio, um júri recusou o argumento. A Açúcar Big já tinha mudado para colheita mecânica, cansada de ser retratada por todos, desde revistas a programas de televisão, como a plantation do pré-guerra que explorava a humanidade. Os clientes de Ed não receberam um centavo em pagamentos retroativos e ficaram permanentemente sem trabalho. Todo mundo odiava Ed. Exceto ele mesmo.
— Era uma questão de princípios — declarou ele para a mídia na escadaria do tribunal, os olhos marejados de decepção amarga.
— Então você quer saber tudo sobre o processo da cana-de-açúcar? — perguntou ele, sorrindo.
Olhei para a parede de caixas de papelão pela sala.
— Bom, tudo, não. Aliás, não é exatamente no caso que estou interessado. Gostaria de saber mais sobre os clientes.
— Homens bons, todos eles — explicou Ed, o sorriso se fechando. — Eu queria ter feito mais por eles.
— Quero falar sobre um em especial.
— Quem?
— Não sei o nome dele.
— Em que ele ano ele estava no programa H-2?
— Não tenho certeza.
— De qual país ele veio?
— Jamaica, acho. Mas não sei ao certo.
— Para qual empresa ele trabalhava?
— Cortinas.
— Certo, é um começo. Vamos restringir a 40 mil possibilidades.
— Tantas assim?
Ed apontou para uma pilha de caixas empoeiradas atrás dele.
— A ação coletiva foi feita em nome de cada cortador de cana que fez parte do programa H-2 de 1980 em diante. Dez mil cortadores vinham todo ano, a maioria jamaicanos. Alguns voltavam todo ano, então ainda estamos falando de 100 mil no total. A Açúcar Cortinas tinha cerca de quarenta por cento deles.
— Estou procurando um que pode ter sido testemunha de um crime.
— Eles testemunham crimes todos os dias — disse ele. — O programa todo era um crime.
Era uma estrada já bastante percorrida na vida de Ed, e eu não queria passar por ela.
— Não é disso que eu estou falando. É o tipo de crime que pode ser processado vinte anos ou mais depois de ser cometido.
— Não são tantos os crimes que não prescrevem em vinte anos. Você está falando de algo como homicídio?
— Possivelmente. Ou pelo menos uma negligência criminal que provocasse a morte de alguém.
Ele coçou a cabeça, pensando.
— Negligência criminal pode significar diversas coisas em agricultura. Mas o único homicídio de fato de que me lembro envolvendo cortadores de cana foi em meados dos anos 1990.
— Fale dele.
— Alguns cortadores viviam em alojamento por meses. Pior que Dachau, se você quer minha opinião. Os temperamentos se agitam quando você junta centenas de homens adultos uns em cima dos outros, os faz trabalhar o dia todo e não lhes dá nenhuma privacidade à noite. Coloque um facão na mistura, e alguém tem grandes chances de surtar.
— O que aconteceu?
— Um cortador perdeu o controle e usou o facão para golpear outro cortador. Arrancou a cabeça do sujeito. Horrível. A vítima tinha mulher e filho na Jamaica.
— O que aconteceu com o assassino?
— Foi para a cadeia. Imagino que ainda esteja lá, mas não sei ao certo.
Isso despertou meu interesse, mas eu precisava acreditar que a agente Santos já teria investigado um cortador de cana condenado por decapitar um colega de trabalho, como parte da investigação do Cortador.
— Meu foco não seria um crime que já foi solucionado. Estou procurando um cortador de cana que sabe tudo o que há para saber sobre um crime sério, talvez tão sério quanto homicídio. E o crime nunca ficou conhecido pelo público, quanto mais solucionado pelas autoridades.
— Uau — exclamou Ed. — Isso não é uma agulha num palheiro. É uma agulha num saco de agulhas.
— Era o que eu tinha medo que você dissesse.
— Mas espere um pouco — continuou Ed. — Vamos pensar. Você tem motivos para acreditar que esse cortador de cana ainda está vivo?
As palavras de Tyla se repetiram na minha cabeça.
— Tenho — respondi. — Muito recentemente me disseram que eu precisava falar com um velho cortador de cana e que ele sabe de tudo.
— Certo. Se um cortador de cana tivesse informações sobre um crime grave, por que não se manifestar? Supondo que ele não esteja morto.
— Ele tem medo — eu sugeri.
— É uma boa explicação. Existe uma melhor. Lembre, estamos lidando com a Açúcar Big.
Entendi o que ele estava dizendo.
— Ele foi subornado.
— Exato.
Recostei na cadeira, assim como Ed, cada um tentando imaginar como nossa dedução podia restringir a lista de possibilidades de 40 mil. Levou um minuto, e o rosto de Ed se iluminou.
— Os que ficaram de fora — disse ele.
— O quê?
Ed se inclinou na cadeira, os cotovelos na mesa enferrujada.
— Minha ação coletiva foi como qualquer outra. A corte exigiu que mandássemos notificações para todos os cortadores que faziam parte do programa H-2 comunicando que estavam citados na ação. Foi um inferno. Tive que obter 100 mil endereços da Secretaria do Trabalho. Mas o que estou dizendo é: a notificação deu a cada membro da categoria a chance de sair e dizer que não queria fazer parte do processo.
— Quantos você conseguiu?
— Uns 75.
— Gosto mais desse número do que de 40 mil.
— Não fique muito animado — alertou ele. — Muitos endereços usados eram antigos, a correspondência não chegou. Mas sempre me perguntei sobre esses 75 que se deram ao trabalho de preencher um formulário, marcar o campo que os excluía da ação e mandar de volta para nós.
— Isso de fato parece estranho.
— É mais do que estranho — emendou Ed. — Na minha cabeça, a única explicação é que esses sujeitos estavam sendo pagos por fora pela Açúcar Big. Se tivesse fundos na minha assistência jurídica, eu teria feito cada um deles depor. Eu estava convencido de que eles optaram por serem excluídos do processo porque sabiam alguma coisa sobre a desonestidade da Açúcar Big em relação aos salários dos trabalhadores e eram pagos para ficarem quietos. Mas quem sabe? Talvez eles tivessem visto descarte de lixo tóxico nos Everglades e foram subornados. Talvez soubessem de violações das leis de segurança na trabalho e foram subornados. Talvez… bom, use a imaginação. Pode ter sido qualquer coisa.
— Qualquer coisa — repeti, assentindo.
Eu ainda não sabia se estava no caminho certo, se Tyla de fato tinha ligado por causa de uma atividade criminosa que podia ser seriamente prejudicial para seu escritório e para seu cliente. Mas eu com certeza não acreditava na história de que ela tinha inventado isso para entrar em contato comigo, que tinha o perfil psicológico de uma neurótica que bateria o carro num Porsche só para conhecer o motorista.
— Onde eu encontro essa lista de não participantes? — perguntei.
Ed deu a volta na mesa até uma pilha de caixas atrás de mim. Ela pendia para a esquerda, a versão da Torre de Pisa da assistência jurídica.
— Talvez em uma dessas — disse ele e, em seguida, foi até outra torre. — Ou aqui.
Estava bem claro que ele não fazia ideia.
— Você não informatizou isso?
Ed riu.
— Foi uma boa piada, Abe.
— Pois é — respondi, com um meio sorriso. — Hilário.