Uma Mulher Perfeita
Capítulo trinta e sete
Victoria não estava em Palm Beach. Ela estava em Miami, em uma reunião com o primeiro assistente da promotoria federal, Matthew Lewis. Em qualquer organização, ninguém trabalha mais do que o primeiro assistente do manda-chuva, e o escritório da promotoria federal não era a exceção. Lewis chegava cedo e saía tarde, e era rotina trabalhar em fins de semana e feriados, saindo de vez em quando para fumar um cigarro.
Eles estavam conversando em uma mesa externa, no pátio do lado de fora do Federal Building, um punhado de cigarros apagados no cinzeiro entre eles. Era proibido fumar dentro do prédio, e aquele era o lugar de sempre de Lewis.
— Tem uma guerra do açúcar sendo preparada — anunciou.
Lewis sorriu e acendeu outro cigarro. No começo de sua carreira, ele tinha sido um dos advogados durões do governo envolvidos no salvamento dos Everglades que participaram de um processo contra o estado da Flórida por não impor a regulamentação sobre a água limpa por parte da Açúcar Big. Ninguém em Tallahassee admitiria, mas Cortinas controlava os políticos estaduais que negociaram o acordo.
— O que os canalhas fizeram desta vez? Afogaram filhotes de gato recém-nascidos?
Ela sorriu de leve e então ficou séria.
— Não tenho certeza de qual direção isso vai tomar, mas a matéria com Ed Brumbel no noticiário hoje de manhã me fez pensar.
Lewis deu mais um trago no cigarro.
— Quem?
— Advogado da Farm Aid em Belle Glade. Passou os últimos vinte anos da carreira tentando condenar a Açúcar Big por alguma coisa. É um tonto, mas todo mundo sabe que até um relógio quebrado está certo duas vezes. Pode haver de fato uma grande ligação entre a Açúcar Big e minha investigação do Cortador.
— Fale mais.
— Basicamente, temos cinco vítimas que foram encontradas nos canaviais do condado de Palm Beach. Não há nenhuma dificuldade em conectá-las a um assassino. Mas temos duas vítimas de fora em Miami-Dade. Uma é Tyla Tomkins, a advogada da Belter, Benning & Lang. Tenho quase cem por cento de certeza de que o Cortador não é o assassino.
— Um imitador?
— Talvez. A outra é a esposa de Abe Beckham, que continua desaparecida. A busca está em andamento, e não tenho um corpo para examinar, então não tenho certeza sobre ela. Mas minha aposta é: não foi o Cortador.
— Onde a guerra do açúcar se encaixa nisso?
— Brian Belter estava dormindo com Tyla Tomkins. Não tenho dúvidas quanto a isso. E temos uma mensagem de voz de Tyla Tomkins para Abe Beckham. Parece que ela estava oferecendo informações incriminatórias sobre as atividades da Açúcar Cortinas. Afinal, Tomkins fez parte do trabalho mais delicado, tanto para as empresas quanto para a família Cortinas.
— Então Tomkins tinha a possibilidade de arruinar o casamento de Brian Belter e de causar um sério dano ao seu melhor cliente.
— Exato.
Lewis bateu as cinzas.
— Então qual é a sua teoria? Belter se transformou no Dexter?
— Não, minha teoria é que Belter tinha um grande problema que só poderia ser solucionado eliminando Tyla Tomkins. O Cortador não só estava no noticiário, mas os corpos estavam aparecendo nos canaviais do cliente dele. Talvez tenha surgido daí a ideia. Matar Tyla e fazer parecer obra do Cortador.
Lewis pensou por um instante.
— Eu conheço o Belter. Ele não me parece o tipo de sujeito que sai brandindo um facão.
— Cortinas ainda usa cortadores de cana fora dos Estados Unidos. Não seria complicado trazer um para cá, colocá-lo para fazer o serviço e pagar pesos suficiente para manter sua boca fechada.
— Talvez.
— Então alguns desses cortadores têm históricos questionáveis. Um dos contratados no Brasil era ex-presidiário em liberdade condicional. Deixou a namorada em coma por cinco dias quando golpeou a cabeça dela com o lado plano do facão. Um movimento do punho, e ela estaria morta.
— Ele poderia ser seu serial killer?
— O sujeito voltou para a cadeia. Mas existem dezenas de milhares de cortadores de cana na América Central, América do Sul e no Caribe. Tudo o que Belter precisava fazer era encontrar alguém para matar Tyla Tomkins.
— Até o momento, o que você fez em relação a isso?
— Um dos assistentes da promotoria ajudou com um mandado. Queremos acesso aos computadores e aos e-mails de Tyla na BB&L.
— Vai ser uma briga do cão.
— Pois é. Maggie Green está interferindo de todas as maneiras.
— Vou ver o que posso fazer. Mas como você relaciona Belter ao desaparecimento da mulher de Beckham? Por que Belter teria alguma coisa a ver com ela?
— Ele não teria.
— Então em quem você está de olho aqui?
— Abe Beckham.
— Ah, o marido. A versão do século XXI do Coronel Mostarda.
— O quê?
— Desculpe. Joguei muito Detetive quando era criança. Minha pergunta é, além do fato de ele ser o marido, por que você acha que foi Beckham?
— Tenho quase certeza de que ele estava tendo um caso. Com Tyla Tomkins.
Lewis balançou a cabeça.
— Então uma mulher coloca a carreira em risco para vazar uma informação de um crime, ele não consegue guardar o pau na calça. Ele sempre foi um filho da mãe arrogante.
— Você conhece o Beckham?
— Não suporto esse sujeito. Típico promotor estadual com aquela mentalidade de “meu pênis é maior do que o seu”. Acha que todos os agentes federais são idiotas de colarinho branco e que os únicos promotores de verdade são os que cuidam de assassinatos, estupros e roubos.
— Realmente não foi o que me pareceu.
— Provavelmente porque você o pegou de jeito. Você está de olho em Beckham tanto do caso de Tyla Tomkins quanto da esposa?
— Estou de olho, sim.
— Então isso cria duas possibilidades para o assassinato de Tyla Tomkins: Belter e Beckham.
— Três, na verdade. Não se pode eliminar um imitador.
— Certo, três. Mas só um deles tem uma relação tanto com Tyla quanto com Angelina.
— É verdade.
— Então, se eu fosse você, manteria Brian Belter como possibilidade. Mas, no curto prazo, ataque o caminho de menos resistência. Veja aonde isso leva.
— Ou seja, Beckham. Concordo totalmente. Mas não tenho tempo, orçamento nem estômago para uma caça às bruxas. Qualquer que tenha sido o papel de Beckham, tenho um serial killer para pegar. É por isso que estou fazendo tudo para manter qualquer suspeita em relação a Beckham fora do radar. Um circo da mídia sobre outro marido que matou sua linda esposa só vai prejudicar a busca pelo Cortador. Preciso da sua ajuda.
— É só pedir.
— Quero que Beckham faça um teste de polígrafo. Se ele passar, eu viro a página.
— Você perguntou para ele?
— Perguntei. Ele recusou.
Lewis tragou mais uma vez, a nuvem de fumaça se formando no ar.
— Não posso pedir um mandado exigindo que alguém se submeta ao detector de mentiras.
— Eu sei. Mas veja como eu quero lidar com a situação: “sr. Beckham, você pode recusar o polígrafo, mas isso não vai me deixar feliz. Aliás, vai me deixar tão infeliz que posso até mandar tudo para o inferno. Vamos prender você por uma acusação menor, algo bem menos sério que homicídio. Se você for preso, vamos manter você numa cela por uma noite e, se isso acontecer, mesmo por uma infração menor, mesmo que por uma noite, podemos fazer uma revista em você. É o que a Suprema Corte diz.”
— Você está certa sobre a lei. Mas de que infração menor você está falando?
— A boa e velha um, zero, zero, um — disse Victoria, se referindo à seção 1001 do código penal americano.
— Ah, a estratégia Martha Stewart. Se não conseguir emplacar o crime de verdade, prenda a pessoa por fazer uma declaração falsa para um agente do FBI.
— Soa péssimo, eu sei, mas é só uma tática. A mulher de Beckham está desaparecida. A última coisa de que ele precisa é ser arrastado para o centro por mentir para um agente do FBI, ser revistado e jogado numa cela por uma noite. As pessoas ouvem “mentira” e “revista” e pensam: “Esse sujeito é culpado e perigoso.” Ele estaria a caminho da condenação por milhões de jurados de TV que não se cansam dessas coisas. É uma questão de desaprovação: “Veja, dr. Beckham. Vamos poupá-lo do estigma e do constrangimento da prisão e da revista. Só faça o teste do polígrafo, e nenhuma acusação vai ser feita.”
— É uma boa tática — disse Lewis. — Mas só se ele tiver feito uma declaração falsa.
— Ele mentiu para a promotora do estado, para um detetive de homicídios de Miami-Dade e para uma agente do FBI, no caso, eu.
— Sério? Quando?
— Segunda de manhã. Estávamos sentados na sala de Carmen Jimenez. Beckham disse que fazia dez anos que não via Tyla Tomkins. Temos fotos dos dois jantando juntos em setembro passado.
— Jura?
— Juro — disse Victoria, apertando os olhos. — Então estou pedindo a sua ajuda. Quero olhar nos olhos de Abe Beckham e dizer que, se ele não se submeter ao detector de mentiras, o assistente da promotoria federal está preparado para aparecer diante de um júri e indiciá-lo por mentir para um agente do FBI.
Lewis apagou o cigarro e abriu um sorriso irônico.
— Bom trabalho, agente Santos. Pelo jeito, você tem o suficiente para uma revista e um polígrafo.