Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 62 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo sessenta e dois

 

Esperamos até 11h35 da noite e o fim dos noticiários locais. As equipes de televisão já tinham guardado o equipamento, o gramado estava escuro, e as vans da mídia foram embora. Nos canais de televisão, a essência do “noticiário das onze” tinha sido que “a casa dos Beckham não é uma cena de crime, mas nem sinal de Abe e Angelina Beckham e nenhuma informação sobre quando o casal vai voltar”.

Então Angelina e eu fomos para casa. Juntos.

Ela entrou primeiro. Fechei a porta e passei tanto o trinco quando a corrente. Notei a marca no painel onde Angelina tinha acertado a garrafa de cerveja na sexta à noite. Ela também. Os dois ignoraram.

— Lar, doce lar — ela comentou rápido.

Fui até o telefone fixo e chequei a secretária eletrônica.

— Trinta e oito mensagens — avisei Angelina. — Provavelmente todas de repórteres.

Não tive energia para ouvi-las. Desliguei e silenciei o toque para podemos descansar.

— O que vamos fazer se a mídia voltar?

— Ligar o irrigador.

Eu estava só meio brincando. Ela não riu.

— Vou me preparar para deitar.

Angelina virou e desapareceu pelo corredor na direção do quarto. Fui para o sofá e sentei diante da TV. Minha mão estava pré-programada para alcançar o controle remoto e zapear pelos canais, mas resisti. Optei por não ligar a TV, nem mesmo o rádio por satélite. Silêncio.

As doze horas anteriores tinham sido uma disputa conjugal, eu me recusando a voltar para o escritório de Jeffrey Winters, e Angelina se recusando a ir embora até seu advogado dizer que estava na hora. A promotoria tinha sido minha fortaleza. Nenhuma emboscada da mídia. Nenhum telefonema que eu não pudesse atender. Contei para Carmen e para o chefe da unidade de corrupção sobre a tentativa de Belter de subornar um promotor assistente, especificamente, eu. Eu pretendia dar continuidade ao longo da semana, mas meu plano para o resto do dia tinha sido apenas me esconder da realidade e me atirar nos meus casos pendentes, o que provou ser impossível. Um colega depois do outro apareceu na minha sala para oferecer apoio. Todos tinham visto o vídeo de Angelina no YouTube. Ninguém disse acreditar nela. Ninguém disse não acreditar. Notei que nenhum promotor da unidade de violência doméstica apareceu para conversar. A maior parte das minhas conversas foram breves. Só uma vez me senti tentado a discutir as coisas em mais profundidade. Nosso chefe da unidade de violência sexual teria sido um excelente interlocutor para os meus medos de que alguma coisa horrível tivesse acontecido com Angelina naquela madrugada em Little Havana, alguma coisa tão traumatizante que ela tinha decidido não contar para ninguém. O promotor de violência sexual mais experiente do estado da Flórida tinha estado bem no meio da minha sala, mas diante da minha conversa com Rid e a opinião dele de que Angelina estava “jogando comigo”, preferi não tocar no assunto. Eu me perguntei se deveria ter falado com ele.

— Abe?

Olhei por sobre o ombro. Angelina estava parada nas sombras no fim do corredor, não exatamente dentro da sala. Estava de camisola.

— Você vem para a cama? — perguntou ela.

— Daqui a pouco.

— Você devia vir agora.

Ela deu meia-volta e foi para o quarto.

Eu pisquei, confuso. O que “você devia vir agora” significava? Quero me deitar ao lado do meu marido? Quero fazer amor com você? Não fique aí sentado até duas da madrugada, para depois vir rastejando para a cama e me acordar, cretino?

— Tudo bem — respondi, mesmo ela não estando mais lá.

Fui até o banheiro, escovei os dentes e coloquei um short de corrida e uma camiseta limpos.

Angelina estava do seu lado da cama, deitada no escuro, quando entrei. Atravessei o quarto, puxei o edredom e deitei ao lado dela. Ela deitou de costas. Fiz o mesmo. Ficamos lá em silêncio, de olhos abertos, olhando para o teto.

Escuridão. Tranquilidade. Silêncio absoluto. Não havia nenhum lugar como uma cama, e nada mais palpável do que a linha que dividia uma ao meio.

— Falei com Rid finalmente — comentei.

— O que ele disse?

Hesitei, sem saber como responder. Que você está jogando comigo? Que Santos acha que você matou Tyla Tomkins?

— Que não pode mais conversar comigo sobre nada disso.

— Não estou surpresa — respondeu ela.

Mais silêncio. O ar-condicionado foi acionado, e o ar gelado soprou sobre nós. Minhas pupilas estavam se ajustando ao escuro, e eu podia ver as rachaduras no teto. Rachaduras longas, sinuosas, que iam de uma parede à outra. Rachaduras que existiam desde que Angelina e eu tínhamos nos mudado e que eu nunca tinha notado. Até agora.

— Abe, tem uma coisa que eu preciso dizer para você.

Minha cabeça começou a girar. Rid estava certo, e uma confissão estava a caminho? Eu estava certo, e ela estava prestes a me contar o que de fato tinha acontecido em Little Havana?

— O quê? — perguntei.

— A agente Santos se reuniu com o advogado hoje.

Não era o que eu estava esperando.

— Quando?

— Antes do almoço. Não foi planejado. Santos simplesmente apareceu querendo conversar.

— Por quê?

— Eu não estava presente. Mas Jeffrey disse que ela está investigando o assassinato de Tyla Tomkins. E está de olho em você.

Eu me apoiei em um cotovelo e olhei para Angelina. Ela continuou na mesma posição.

— Por que você não me disse isso antes?

— Jeffrey não falou nada sobre o assunto até uma hora atrás. Ele foi contra minha decisão de voltar para casa com você. Me contar foi a última tentativa dele de me convencer a não vir.

Fiquei feliz que ela tivesse ignorado o conselho, mas continuei sem gostar que Angelina tivesse esperado até estarmos na cama para me contar.

— Não acho que seja preciso dizer, mas você sabe que eu não matei Tyla Tomkins.

— Eu sei. Tecnicamente falando, a agente Santos também acha que não.

— Você acabou de dizer que ela está de olho em mim.

— Ela acha que você é responsável, mas não acha que foi você que fisicamente acertou Tyla com um facão.

Parecia que alguém tinha acabado de me acertar com um facão. Voltei a deitar de costas e fiquei olhando as rachaduras no teto.

— De alguma forma, eu achei que você fosse tentar arrastar o JT para essa história.

— Você acha que é possível?

— Não.

— Ele sempre me assustou.

— Ele não é violento.

— Ele atacou um motorista de ônibus.

— Foi mais um mal-entendido do que um ataque.

— O pai dele era cortador de cana.

— Angelina, isso não faz sentido. Que razão JT teria para matar Tyla Tomkins?

Ela não respondeu.

— Está vendo? — continuei. — Não há motivo. Não existe razão para ele ter cometido esse crime. Nenhuma.

— Nenhuma — disse ela, com um quê de nervosismo. — A menos que você pedisse para ele.

Eu me apoiei no cotovelo de novo e olhei direto para ela.

— É isso que você acha?

— Não, Abe. É o que a agente Santos acha.

Cheguei um pouco mais perto, mas não atravessei a linha da cama.

— Angelina, Santos está fazendo um jogo. Ela está tentando criar uma fissura entre nós. Ela fala com meu amigo Rid e diz que você matou Tyla. E fala com seu advogado e diz que mandei o JT matar Tyla.

— Ela disse ao Riddel que eu matei Tyla?

— Sim.

De repente, Angelina estava apoiada no cotovelo, a mesma reação que eu tive à notícia da reunião do advogado dela com Santos. Estávamos olho no olho, nos encarando de lados opostos da linha imaginária que dividia nosso colchão como dois soldados nas trincheiras.

— Santos acha que eu matei Tyla, e você não me conta? Por que você não me contou?

— Considerei a ideia tão absurda que achei que não precisava — respondi.

— Mesmo?

— Sim, mesmo. Tyla foi atacada até a morte com um facão. Foi uma morte horrível e sangrenta.

— Ah, então se tivesse sido uma bala limpa na nuca, teria sido diferente. É algo que você me imagina fazendo ?

Aquele não era o momento de mencionar “rolos de massa” nem as teorias alternativas de Rid sobre a causa mortis.

— Não, não foi isso que eu disse.

Ela voltou a deitar de costas e cruzou os braços sobre o edredom.

— Angelina, por favor, não vamos fazer isso. Estamos caindo na cilada da agente Santos. A estratégia dela é romper a confiança entre nós. Ela quer que nos voltemos um contra o outro.

— Você confia em mim? — perguntou ela.

Era uma pergunta simples, mas a resposta pareceu complicada. Hesitei por tempo demais.

— Abe, você confia em mim? — ela repetiu a pergunta.

— Confio, claro.

— Não diga “claro”. Nada mais é claro. Precisamos reconstruir tudo. Eu quero reconstruir. Mas não se você for dizer coisas estúpidas como “claro que eu confio em você, querida”. Isso me menospreza e menospreza tudo o que aconteceu.

Ela tinha razão.

— Desculpe.

Angelina respirou fundo e afundou um pouco mais no colchão. Deitei de costas e fiz o mesmo.

— Eu não matei Tyla — repeti. — JT não matou Tyla. Eu não pedi para o JT matar Tyla.

Ouvi-a respirar fundo de novo na escuridão.

— Obrigada — disse ela.

— De nada. Mais alguma coisa que você queira saber?

— Não por enquanto.

— Que bom.

— Bom, talvez uma coisa — disse ela.

— O quê?

— Só para deixar claro: quando eu fechar meus olhos para dormir, JT não vai saltar do armário com um facão, vai?

Eu sabia que era uma piada, e talvez eu devesse ter apreciado a tentativa de recorrer ao humor, mas não funcionou para mim, e senti que ela se arrependeu.

— Não — respondi. — Isso com certeza não vai acontecer.

Um minuto se passou. Imaginei se ela tinha mais a dizer. Não tinha.

— Boa noite, Abe.

— Boa noite.

Não houve beijo. Deitei de lado e fiz muito esforço para consegui dormir. Eu estava exausto, mas não consegui limpar minha mente e relaxar. O ar-condicionado entrou em um novo ciclo. Dez minutos ou mais se passaram. Deitei sobre o meu lado esquerdo, olhando para Angelina quando virei.

Ela continuava deitada de costas. De olhos abertos.

Eu me perguntei se sua cabeça estava tão cheia que, por mais que tentasse, ela não conseguia fechá-los. Ou se estava morta de cansaço e tentando mantê-los abertos, esperando que eu dormisse primeiro?

Inspirei, expirei e desejei que a noite acabasse.