Uma Mulher Perfeita
Capítulo vinte e nove
Brian Belter estava com seu melhor cliente, em seu restaurante favorito, em seu lugar mais querido em toda a República Dominicana. E estava infeliz.
Belter era um dos oito presentes em um jantar oferecido por Alberto Cortinas e esposa em La Piazzetta, um restaurante gourmet italiano em Altos de Chavón, uma recriação ambiciosa de uma vila mediterrânea do século XVI que ficava no alto de uma ribanceira em La Romana. O risoto de abóbora e o filé de merluza estavam memoráveis, mas inesquecível mesmo era a vista do vale do rio lá embaixo. Uma mesa iluminada por uma tocha sob as estrelas no terraço de pedra era muito cobiçada, em especial num sábado à noite, mas os convidados privilegiados do jantar dos Cortinas tinham o terraço todo só para eles.
— Más vino, señor Belter?
A taça estava vazia, mas ele tinha chegado ao limite.
— No, gracias.
A bebida tinha começado a ser servida no campo de golfe ao meio-dia. Uma Cuba Libre levou à outra. Belter era um jogador sem handicap e tinha feito dois birds nos dois primeiros buracos, mas depois disso foi ladeira abaixo. O Teeth of the Dog era o melhor campo do Caribe, um desafio até para jogadores profissionais sóbrios. Ele ficava num recife de corais, que gerava riscos inclementes, tudo feito pelos operários dominicanos cujas únicas ferramentas eram malhos, picaretas e cinzéis. No oitavo buraco, Belter precisava de uma picareta para encontrar a bola. Ele estava tomando Coca-Cola com rum como se fosse um refresco, e ninguém tinha avisado que era Bacardi 151. A pressão na parte de trás de seus olhos estava quase insuportável. E ele estava começando a ficar enjoado. Talvez fosse o álcool. Talvez fosse a altitude.
Talvez fosse Tyla Tomkins.
— Água, por favor — pediu ele ao garçom.
Alberto Cortinas estava sentado na ponta de uma mesa retangular que contava com seis dos mais influentes senadores dominicanos, todos homens. Com uma oposição cada vez maior aos fazendeiros de cana nos Everglades, Cortinas estava planejando expandir a produção na República Dominicana. O objetivo era convencer o senado dominicano a aprovar uma proposta de tributo sobre o xarope de frutose de milho. A Açúcar Big odiava concorrência. Todos os senadores podiam ser persuadidos. Levaria muito mais do que uma partida de golfe, um restaurante caro e uma suíte na cobertura de um resort de fama mundial, mesmo que o quarto viesse com uma dupla de prostitutas latinas que cobravam cinco mil por noite em Nova York. El hombre con los regalos verdes — o homem com presentes verdes — ia visitar cada um dos senadores pela manhã. O dinheiro falava. Mas não quando Alberto Cortinas estava por perto.
Eu não estou envolvido, Brian.
Uma dor de cabeça desse tamanho tornava quase impossível para Belter manter uma conversa animada em espanhol do outro lado da mesa. Sua mente precisava de um descanso. Ele pediu licença, atravessou o terraço de pedra e entrou no banheiro. Checou suas mensagens de texto enquanto cuidava de outros assuntos, em seguida entrou na página do Miami Tribune. A manchete chamou sua atenção — a ponto de ele quase derrubar o celular no mictório.
Pu-ta mer-da.
Belter estava tão imerso no artigo que se esqueceu de deixar uma gorjeta para o funcionário do banheiro depois de lavar as mãos. Ele voltou rápido para o terraço, foi direto para a ponta da mesa e educadamente interrompeu seu cliente.
Cortinas não parecia feliz. O homem estava no meio de uma de suas histórias favoritas, sobre um infiltrado no Departamento de Agricultura dos Estados Unidos que avisava Alberto sempre que o secretário estava em sua mesa recebendo um boquete. Eram as únicas ocasiões em que Alberto telefonava, porque sabia que o secretário não tinha outra opção além de atender.
— O que foi? — perguntou Alberto em inglês.
— Preciso da sua atenção só por um minuto — respondeu Belter. — Em particular.
Cortinas levantou com relutância e pediu licença. Belter o levou da mesa, até o outro lado do terraço, longe dos olhos dos convidados. Eles encontraram um lugar tranquilo do outro lado das pilastras que marcavam a entrada do restaurante. Era uma cena saída de uma peça de Shakespeare, dois homens poderosos sussurrando no escuro, do outro lado da rua de algumas lojas e estúdios de artistas em uma rua estreita de paralelepípedos tomada por lanternas, sacadas de ferro fundido e outras características de uma vila da Renascença.
— A mulher de Abe Beckham está desaparecida — anunciou Belter. — Uma busca completa está sendo feita a mais ou menos um quilômetro e meio de onde o corpo de Tyla foi encontrado.
Cortinas tirou um charuto do bolso de sua camisa guayabera e cortou a ponta.
— Isso é muito triste.
Belter o viu acender o charuto, esperando que ele dissesse mais alguma coisa. Mas a única preocupação de Cortinas parecia ser a brasa uniforme.
— É tudo o que você tem a dizer? — perguntou Belter. — Muito triste?
Cortinas tragou profundamente, as cinzas brilhando na noite.
— Não é algo que requeira minha atenção imediata.
— Não está vendo o problema óbvio aqui?
— O único problema que estou vendo é uma mesa cheia de convidados se perguntando que diabos é tão importante para você me interromper no meio de uma história.
Belter chegou mais perto e baixou a voz.
— Tyla Tomkins foi assassinada. Agora a esposa de Abe Beckham está desaparecida. A mídia vai ficar louca com isso.
— E daí? Deixe ficar.
— Você está sendo indiferente demais.
— Você está falando como se fosse nossa culpa.
— É sempre culpa nossa! — disse Belter, mantendo a voz baixa, mas falando com muita urgência. — A Açúcar Big é o saco de pancadas favorito da Flórida. Gostando ou não, estamos ligados a esse circo por causa de Tyla Tomkins.
— Está tudo sob controle, Brian. Tudo está sendo resolvido. Alguns técnicos bem caros estão trabalhando nos arquivos e e-mails do computador de Tyla neste momento.
— Evitar um mandado da promotoria dos Estados Unidos não é vencer a guerra. Isso está em vias de se tornar o caso do século para a mídia. Vai colocar o meu escritório e as suas empresas sob os holofotes. Não é um bom lugar para se estar. Você nem sempre concordou com seu pai, mas ele estava coberto de razão sobre uma coisa: a Açúcar Big funciona melhor com discrição.
— O que você quer que eu faça, Brian? Volte no tempo e faça tudo desaparecer?
— Não, mas… meu Deus, Alberto! Não estamos falando só dos negócios. É a minha família, minha vida. A agente Santos e aquele detetive metido a esperto que apareceram no escritório semana passada sabem sobre Tyla e eu. Jenny vai me deixar se isso vier à tona. O que devo dizer a ela? O que vou dizer ao meus filhos?
— Isso é com você, Brian. Mas existem umas duas opções. — Cortinas deu outra tragada no charuto, e uma nuvem de fumaça saiu de seus lábios e foi parar no rosto de Belter quando ele falou:
— Uma, você pode dizer que quando Tyla ligou do celular pré-pago, você devia ter seu próprio pré-pago, o que tornaria os números impossíveis de rastrear dos dois lados. Mas você foi burro demais para pensar nisso por conta própria. Ao contrário de mim.
Belter ficou paralisado, em silêncio.
— Ou — continuou Cortinas — você pode apenas dizer a eles que foi uma semana ruim para as mulheres que gostam de dar para Abe Beckham.
Belter olhou para ele, confuso. Quando se tratava de comentários absurdamente arrogantes, até ele tinha dificuldade de dizer quando Cortinas estava falando sério e quando estava brincando.
Finalmente Cortinas sorriu, o charuto entre os dentes.
— Venha, meu amigo. Está na hora de voltar para os nossos convidados.
Belter caminhou com ele, mas queria puxar seu cliente de lado, olhá-lo nos olhos e descobrir se o sujeito estava falando sério sobre o celular pré-pago. Se havia algo entre Cortinas e Tyla, era novidade para ele. Uma novidade desconcertante. Não eram só o ego e uma curiosidade à toa que o estavam incomodando.
Num passado distante, Belter achava que era o único. Ele estava prestes a perguntar, uma pergunta sobre isso teria sido a coisa mais natural do mundo entre dois homens que se conheciam praticamente durante toda a vida adulta. Mas o advogado seguiu seus instintos, assim como tinha feito em muitas outras negociações com Alberto Cortinas.
Era melhor não saber.
Os dois voltaram para o jantar no terraço, onde Belter riu com os demais sobre a história de Cortinas e o secretário americano da agricultura.