Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 36 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo trinta e seis

 

Dormi até sete da manhã. A música me acordou.

Se-e-e-e-ja grato. JT estava tocando a versão em CD da nossa canção. De fato, era domingo de manhã.

Meu braço estava dolorido quando me levantei do sofá, mas não era um grande problema. Eu tive sorte de não quebrar o nariz, considerando a queda. Verifiquei meu celular. Havia 11 mensagens de Heather, Hunter, seja lá qual fosse o nome dela. Deletei todas.

— Abe, você pode fazer compras para mim hoje? Não tenho mais quase nada para comer.

Pois é, era uma das minhas prioridades. Parecia um ótimo trabalho para uma das muitas pessoas que tinha perguntado se podia ajudar.

— JT, eu fiz compras para você na sexta.

— Acho que estava contaminado. Tive que jogar a maior parte no lixo.

Mesmo? MESMO? Respirei fundo. Seja grato.

— Eu cuido disso.

— Você pode ir agora?

— Não, eu não posso ir agora, JT.

— Estou com muita fome.

Pedimos uma pizza. Sim, às sete da manhã. Havia um lugar em South Beach que só entregava depois de quatro da madrugada. Viver em uma cidade onde as pessoas farreavam em turnos tinha suas vantagens.

Liguei para Rid. A busca na Tamiami Trail tinha sido reduzida, mas continuava em andamento. Ela seria encerrada ao meio-dia. Eles não tinham gente suficiente para ir além da área de um quilômetro e meio da ponte. Liguei para Sloane, amiga de Angelina. Às oito e meia, ela tinha quarenta voluntários para percorrer a Trail. Nós nos reunimos no estacionamento a leste da ponte. A maioria eram mulheres, muitos chapéus de aba larga, garrafas d’água e protetor solar. Sloane fez as vezes de monitora.

— Quero duas filas — anunciou ela para o grupo. — Uma vai para o lado norte, a outra, para o sul. Não encostem nem recolham nada. Se virem qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, liguem para o meu celular. Não brinquem de polícia. Deixem os profissionais checarem.

— Que distância vamos percorrer? — perguntou.

— Até onde for possível.

Alguém na multidão comentou que a Trail tinha mais de 440 quilômetros, e ouvi uma ou duas pessoas murmurando algo sobre “ela”, supostamente Sloane, ter enlouquecido.

— Se vocês se cansarem, só me avisem — continuou Sloane. — Temos uns dois voluntários que vieram de carro e podem levar vocês para a área de armazenamento.

Isso provocou um suspiro coletivo de alívio nos voluntários. E lá se foram eles. Eu não. Chamei Rid. Conversamos perto da ponte, do lado de fora da fita de isolamento.

— Santos vem hoje? — perguntei.

— Ela está em Palm Beach.

— Peço desculpas pela pergunta idiota, mas eles têm certeza de que esse último homicídio foi cometido pelo Cortador?

— Têm. Cinzas no rosto. Mulher branca com namorado negro. Outros indicadores… desculpe, parceiro… não posso compartilhar com você.

— Eu entendo.

— A questão é — continuou Rid — isso torna ainda mais improvável que Angelina seja uma das vítimas do Cortador. Não é o estilo dele, duas em um fim de semana. Não é o padrão de nenhum serial killer. Alguns deles dormem por dias depois de matar.

— Esse é o perfil típico do polícia — eu disse, porque conhecia um pouco o assunto. — Não que eu esteja torcendo para o Cortador ter alguma coisa a ver com Angelina, mas serial killers podem começar a matar aleatoriamente, em especial ao final da jornada.

— É verdade. Mas mortes aleatórias não são o que está na cabeça de Santos.

— Ela ainda está atrás de mim?

Eu apostava que tinha cinquenta por cento de chances de Rid responder.

— Ela não descartou você. É tudo o que posso dizer.

— Eu preciso saber mais — pedi.

Ele não continuou, mas também não encerrou a conversa.

— Falei com JT — contei. — Ele disse para Santos que Angelina bate em mim.

— Eu sei — disse Rid. — Isso não ajuda. Você, quero dizer.

— Existe uma boa explicação. Basicamente, JT estava falando merda. Você sabe disso, e eu sei disso. Preciso da sua ajuda para fazer Santos entender isso também.

Rid desviou o olhar, virando para a fila de voluntários invadindo a ponte como um exército de formigas.

— Ele disse alguma coisa específica?

— Não. Só que Angelina bate em mim. Quando Santos pressionou para obter detalhes, JT disse que ela precisava perguntar para mim.

— Ela perguntou para você?

— Perguntou.

— Você disse alguma coisa?

— Eu disse que não é verdade.

Rid me encarou.

— Então você não contou que Angelina quebrou seu nariz?

Prendi a respiração. Aquilo fazia três anos.

— Eu quebrei o nariz jogando basquete.

— Não quebrou, não, Abe. Essa é a sua versão. Nuke e você foram tentar um rebote, e o cotovelo dele acertou bem no seu nariz. Esse tipo de coisa acontece o tempo todo no ginásio Carver. Só que eu falei com Nuke e sei que não aconteceu.

Eu tinha dado a Nuke um par de tênis de cano alto do LeBron para contar aquela história. Pelo jeito, a memória dele durava tanto quanto os tênis.

— Isso faz muito tempo — eu disse.

— Não faz tanto tempo — rebateu ele.

— Angelina e eu namoramos por quase três anos, morando juntos por quase metade desse período. Foi duro para ela quando a relação acabou. Quando ela descobriu que eu estava terminando por causa da Samantha…

— Uma negra.

Palavras dele, não minhas.

— Ele não lidou bem.

— Não lidou bem? Abe, ela arrebentou sua cara.

— Não foi…

— Não foi culpa dela? Era isso que você ia dizer? Que merda é essa, Abe? Agora você está falando como aquelas mulheres que apanham e voltam para casa, para um marido que sente muito pelo que fez, e acabam saindo pela porta em um saco para cadáveres.

Eu conhecia essas mulheres. Eu havia processado os maridos. Não era a mesma coisa que Angelina e eu.

— Não aconteceu nada disso desde o nosso casamento.

— E a garrafa de cerveja estilhaçada?

— Não aconteceu nada — eu disse, com a voz mais dura.

— Tudo bem. Como quiser — ele desviou os olhos de novo.

— Ei — eu disse, forçando Rid a fazer contato visual. — Santos não precisa saber do nariz quebrado.

Demorou um pouco e, por muito tempo, achei que o tivesse perdido. Mas finalmente vi a expressão no rosto dele, a que me dizia que éramos amigos, não só colegas, e que tínhamos um acordo.

— Sangramento no nariz — disse ele. — Culpa da bola.

— Obrigado, Rid. Muito obrigado.