Uma Mulher Perfeita
Capítulo quarenta
Por setecentos dólares eu comprei de volta o anel de Samantha da loja de penhor, o que é menos de 10% do preço de varejo, mas uns duzentos dólares a mais do que Manny tinha pago por ele.
De início, o tio simplesmente se recusou a se desfazer do anel.
Podíamos ter movido uma ação para forçar a questão, mas havia pouca dúvida de que, até isso acontecer, o anel teria se “perdido”. Depois de dizer que estava torcendo para minha esposa estar bem, o tio cretino tentou emplacar uma taxa adicional de cinquenta dólares pelo pagamento em cheque. Por sorte, Rid estava lá para impedir outro homicídio. Os investigadores coletaram o anel como evidência e o levaram para o laboratório. O anel ainda tinha o cheiro forte da solução de amônia que Manny tinha usado para limpá-lo, então havia pouca esperança de obter impressões digitais, mas valia a pena tentar.
Um detetive de Miami-Dade levou Manny para a delegacia para olhar para as fotos dos homens presos recentemente na área. Dois outros policiais vasculharam a área, conversando com os desabrigados, uma vez que essa tinha sido a descrição do sujeito que vendeu o anel.
Rid e eu voltamos para minha casa, que continuava sendo uma cena de crime protegida. A agente Santos nos encontrou lá. Eu ainda tinha roupa suja para lavar com ela por causa dos resultados do polígrafo, mas, no momento, o anel era mais importante. Conversamos na entrada, em pé ao lado do carro de Rid.
— Onde você guardava o anel? — perguntou ela.
Eu já tinha falado sobre isso com Rid.
— Tem um cofre no closet.
— Já ouviu falar dos cofres de banco? — continuou Santos.
— Eu tinha um — respondi.
Eu tinha colocado o anel de noivado e a aliança de Samantha lá depois do funeral. Continuei usando a minha aliança por muito meses, até Angelina e eu começarmos a namorar. Quando decidi me casar de novo, meu plano era guardá-la ali com os anéis de Samantha.
Fui até o banco e abri o cofre. Os dois anéis estavam lá. Eu os segurei exatamente como tinha feito quando os coloquei no dedo de Samantha. Quando me senti pronto, eu os devolvi ao cofre. Tirei minha aliança, respirei fundo e tentei deixá-la ao lado das joias que eram a expressão do meu amor por ela. Então li a inscrição que Samantha mandou gravar nela. Não eram as iniciais, a data ou algo romântico como era usual. “Me coloque de volta”, estava escrito. O amor e o senso de humor de Samantha tomaram conta de mim. Meu coração ficou apertado. Naquele momento, simplesmente não era mais possível deixar minha aliança numa caixa fria de metal num cofre de banco e ir embora. Também não consegui deixar os anéis dela para trás. Trouxe o anel de noivado dela e as nossas alianças para casa e coloquei no cofre do closet, com toda intenção de levá-los de volta para o banco quando estivesse pronto.
— Acabei nunca fazendo isso — respondi.
— Vamos dar uma olhada lá dentro — disse ela. — Não tem nenhum cofre na lista do inventário, mas vamos ver se está aqui e os investigadores não viram.
Rid destrancou e abriu a porta.
— Está congelando aqui — comentou ele.
Estava tão frio que as janelas tinham gotas de condensação. Era difícil manter fresca uma cena de crime ativa com investigadores entrando e saindo, portas abrindo e fechando o tempo todo. Alguém da equipe tinha ligado o ar condicionado, regulado para 15ºC e esquecido de regular a temperatura antes de sair.
Rid e Santos andaram comigo pelo corredor até o quarto principal. Fui até o closet. A cadeira onde eu me sentava toda manhã para amarrar os sapatos estava no lugar de sempre. Eu a levei até a parte dos fundos e parei em frente ao armário embutido onde prateleiras, gabinetes e nichos ocupavam a parede toda. Subi na cadeira para alcançar o pequeno gabinete que ficava no topo e o abri. Uma sensação de vazio tomou conta de mim, tão vazio quanto o espaço que eu estava olhando.
— Sumiu — eu disse.
Olhei para o armário por mais um momento, depois desci da cadeira. Saímos do closet e fomos para o quarto.
— Além desses anéis, o que mais havia no cofre? — Santos perguntou.
— Um par de brincos de diamante que comprei para ela no nosso primeiro aniversário de casamento. E um relógio que Luther deu para ela. Tenho outras lembranças, mas não é nada de valor para ninguém além de mim.
— Abe e eu já cobrimos isso — anunciou Rid. — A polícia de Metro-Dade está checando outras lojas de penhor para ver se esses outros itens também foram vendidos.
— Bom — disse Santos. — Isso muda a análise.
Eu sabia disso, mas queria saber o que ela estava pensando.
— Como?
— Não é incomum serial killers levarem souvenirs das vítimas. Anéis, pingentes, esse tipo de coisa. Mas os anéis de Samantha não são um troféu. Isso parece mais um roubo.
— Um roubo com sequestro? — perguntei.
— Possivelmente — Rid respondeu. — Só que não há nenhum sinal de alguém revirando as gavetas e armários procurando objetos de valor.
— Pode ter sido uma invasão — sugeri. — Sei de outras duas na área no último ano. Os proprietários abrem a porta e, assim que isso acontece, o sujeito força o morador a deixá-lo entrar, saca uma arma e exige ser levado a qualquer dinheiro ou joia que eles tenham na casa. Não há sinal de resistência porque não há resistência. É o elemento surpresa.
— Angelina sabia dos anéis? — perguntou Riddel.
— Nunca comentei com ela — respondi. — Mas, obviamente, ela não poderia levar um invasor para o cofre se não soubesse da sua existência. Talvez ela o tenha encontrado por conta própria. Não é como se ele estivesse escondido do sótão.
— Mas temos outro problema — Santos interveio.
— Qual?
Ela foi até a cômoda onde a caixa de joias de Angelina estava totalmente visível. E a abriu.
— O anel de noivado de Angelina ainda está aqui.
Fui até a cômoda. O anel de diamante estava exatamente onde Angelina o deixava toda noite antes de ir dormir. Rid olhou para mim, eu para ele, ambos procurando uma explicação.
— Um enigma, não é mesmo? — comentou ele.
— Pois é — Santos concordou, olhando para mim. — Você tem uma resposta para isso?
Olhei para o anel de Angelina, pensando.
— Não. Não tenho mesmo.
Santos pediu para Rid dar continuidade com os investigadores.
— Cuide para que eles cubram a área do armário minuciosamente — ela acrescentou.
Rid e eu saímos com ela do quarto e voltamos para a sala. Ajustei o termostato para um nível normal, que não me levasse à falência. Riddel recebeu uma ligação e foi para a cozinha. Tive um momento a sós com Santos.
— Quero os resultados do polígrafo — eu disse.
— Não. Eu nunca prometi…
— Eu sei, eu sei. Riddel me contou. Você nunca prometeu compartilhar os resultados. Isso é ridículo. O direito de saber o resultado faz parte de qualquer acordo de se submeter ao teste.
— Não era parte do nosso acordo.
— Isso é sórdido — eu disse.
— Como é?
— Você tem uma reputação incrível de ser uma agente exemplar do FBI. Mas não é o que estou vendo. Já lidei com advogados de defesa tão nojentos que tenho vontade de usar um escafandro sempre que estamos na mesma sala. Nem mesmo eles fariam algo assim.
— Você precisa tomar cuidado, dr. Beckham.
— Por quê? Porque você pode se virar contra mim? Você já me condenou muito tempo atrás, antes mesmo de ver as evidências.
— Não é verdade.
— É verdade. — Eu estava perdendo a calma e provavelmente devia ter parado, mas não consegui. — Você já descobriu tudo. Uma linda esposa, mais um caso antigo com Tyla Tomkins, mais uma garrafa de cerveja quebrada, igual a um marido culpado. E o que acontece? O marido culpado senta para fazer um teste de polígrafo. E adivinhe só? O marido passa.
— Você não sabe do que está falando.
— Você não divulgou os resultados porque eu passei. Isso não se encaixa muito bem com a sua teoria para o caso, não é? Eu passei, mas você não quer que eu possa contar para ninguém que passei. Isso é a coisa mais podre que já vi um agente da lei fazer, e você é péssima por estar fazendo isso. Você é péssima, estou dizendo na sua frente.
Eu não devia ter falado nada, mas a sensação foi boa. Pela primeira vez em muito tempo, alguma coisa me trouxe uma sensação boa. Não importava que Santos estivesse soltando tanta fumaça que eu quase tive que ligar o ar-condicionado a 15 ºC de novo.
Ela deu um passo para frente, os olhos em brasa.
— Eu estava fazendo um favor para você.
Olhei para ela, confuso.
— Até este momento, você podia dizer com honestidade que se dispôs a fazer um teste de polígrafo, que fez o teste e que o FBI se recusou a divulgar o resultado. Agora você precisa dizer a verdade, dr. Beckham.
Eu senti o que ia acontecer, mas não quis acreditar. Então o martelo baixou.
— Você não passou.
De repente, perdi a capacidade de falar. Santos se afastou, me deixando sozinho na sala onde tinha visto minha esposa pela última vez.