Uma Mulher Perfeita
Capítulo cinco
Meu encontro com a agente Santos estava marcado para às sete horas da manhã no centro médico. Cinco minutos antes do horário eu ainda estava no trânsito da via expressa 836. O congestionamento de Miami parecia começar cada vez mais cedo toda vez que eu entrava no carro.
— Vou me atrasar um pouco — foi a mensagem de voz que deixei para Santos.
Passar a noite na casa de JT tinha significado dormir bem pouco. Não por culpa do meu cunhado — ele descansou bastante. O problema era eu. A maneira como Angelina tinha trancado a porta com a corrente, me dizendo para ficar com a minha “família” me atingiu como uma mensagem para não voltar para casa. Só isso já tinha sido suficiente para me manter acordado a noite toda. O complicador era que qualquer visita ao apartamento de JT era uma viagem ao meu passado. Samantha e eu tínhamos morado lá. Os móveis eram nossos. As cortinas, os tapetes, o papel de parede e cada detalhe tinham sido escolhidos por ela. Tinha sido a vontade de Samantha que JT tivesse um lugar para morar, e eu estava fazendo meu melhor para fazer isso acontecer. Era uma coisa boa, se boas intenções valem para alguma coisa; mas eu ainda sentia culpa por causa disso, o tipo de culpa que mantém um homem acordado a noite toda. Ela se instalou muito depois de JT dormir, quando subi para o quarto de hóspedes. Acabei dormindo no sofá. De jeito nenhum eu ia conseguir dormir na cama que tinha sido a nossa cama, onde eu tinha me deitado ao lado de Samantha, sussurrado no escuro, ouvido sua respiração, sentido seu coração bater, descoberto e redescoberto aquelas pernas sedosas. Ela tinha pernas incríveis. Tão firmes, tão fortes, a maneira como apertavam minha cabeça como um torno quando tinha um orgasmo. Uma noite me veio à mente.
— Eu amo fazer isso em você — eu disse a Samantha.
— Fico feliz que você ame.
— Estou falando sério, eu amo mesmo.
— Só estou feliz por ter um homem que quer fazer alguma coisa além de me pegar por trás.
Era uma piada, mas teria sido melhor ela tê-la guardado para as amigas.
— É muita informação, Samantha. É muita informação.
— Desculpe.
— Você meio que cortou o clima.
Ela me beijou, e eu vi aquela expressão em seus olhos que todo homem quer ver, uma expressão que torna o passado irrelevante, porque no futuro nenhum homem além de mim teria aquela linda mulher que tinha prometido ser minha esposa para sempre.
Ela jogou a perna sobre a minha cintura, montando no meu corpo, a abundância de seus seios diante do meu rosto, o cheiro de seu cabelo me chamando.
— Vou consertar isso — disse ela, deslizando para baixo dos lençóis. — Vou consertar de um jeito bem gostoso.
O escritório do médico legista do condado de Miami-Dade ficava no Centro de Patologia Forense Joseph H. Davis Center, um complexo de três edifícios no perímetro do campus da Faculdade de Medicina da Universidade de Miami e o Jackson Memorial Hospital. As manhãs eram sempre movimentadas perto do Jackson. Descobertas médicas sobre tudo, desde lesões na coluna até câncer, estavam misturadas com a trama institucional aqui, e todo dia pacientes vinham do país inteiro e de fora para se consultar com alguns dos médicos mais respeitados do mundo. De certa forma, tornava ainda mais difícil aceitar o prognóstico de Samantha.
Estacionei o mais perto que consegui do escritório do legista e acabei me atrasando apenas cinco minutos.
— O doutor Hernandez está pronto para nos receber — disse Santos.
Eu conhecia o doutor Hernandez e sabia bem que eu devia ficar de paletó ao entrar na sala de exames. O ar gelado soprou das saídas do ar-condicionado como o vento norte do Canadá.
Luzes claras brilhavam nas paredes brancas e estéreis e refletiam no chão de ladrilhos. O doutor Hernandez esperava por nós atrás de uma mesa de aço inoxidável, um lençol branco cobrindo o volume à sua frente. O médico ajustou o feixe de luz acima dele antes de levantar o lençol.
— Agora, considerem-se avisados — disse ele. — Nada que vem direto dos Everglades para o escritório do médico legista é bonito.
— Eu entendo — respondeu Santos.
Eu me perguntei se entendia mesmo. Mesmo ela sendo uma agente com muita experiência e treinamento em medicina forense em Quantico, nada poderia ter me preparado para minha primeira autopsia de uma vítima encontrada nos Everglades.
O médico puxou a parte inferior do lençol. Eu me preparei, mas o corpo estava em muito melhor condição do que eu esperava. Inchado, claro. A vítima tinha sido embalada enquanto ainda estava na água, e estávamos vendo em primeira mão como a riqueza de organismos dos Everglades potencializavam a liberação de ácidos e gases durante a putrefação. Precisei desviar os olhos quando minha visão foi parar em onde a cabeça deveria estar.
— Se fosse julho — disse ele — e estivéssemos falando de dias em vez de horas nos Everglades, estaríamos vendo uma decomposição bem acelerada, sem contar evidências de predadores. Mas com a temperatura de fim de inverno das águas e a localização relativamente rápida, temos muito mais com o que trabalhar.
— Quando você diz “localização relativamente rápida”, qual é a estimativa da linha do tempo? — perguntei.
— Vinte e quatro horas — explicou o médico. — Talvez um pouco mais. Eu diria que estamos olhando para um homicídio ocorrido tarde da noite no sábado.
— Alguma evidência de violência sexual? — perguntei.
— Nenhuma evidência anal ou vaginal — respondeu ele.
Santos entrou na conversa com a opção não mencionada:
— Existem evidências de sodomia oral forçada em todas as vítimas anteriores do Cortador.
O legista colocou o feixe de luz no exato lugar aonde meu olhos não queriam ir.
— Obviamente é algo que não podemos determinar, considerando a condição incompleta do cadáver.
— Também nos impede de confirmar a marca registrada do Cortador — emendou Santos. — A menos que sua autopsia tenha encontrado vestígios de cinzas de cana-de-açúcar em alguma outra parte do corpo.
— Negativo — disse o médico. — Mas vamos falar sobre os ferimentos.
Hernandez trouxe seu laptop para a mesa. E percorreu dúzias de fotografias forenses, procurando a correta.
— Aqui está — anunciou ele, congelando a imagem.
Era a autópsia de uma jovem, seu corpo nu na mesa de aço inoxidável, posicionada de uma forma bem parecida com a vítima número cinco que estava diante de mim.
— Esta é Elizabeth Gowan, vítima número três. O corpo continha basicamente as mesmas características que as vítimas de Palm Beach. Vemos diversos golpes de facão ou lâmina similar desferidos contra a vítima — explicou ele, usando o cursor para apontar para cada um.
— Muita raiva — comentou Santos.
Olhei para o corpo sobre a mesa.
— Não estamos vendo a mesma coisa nessa vítima.
— Exato. E tem mais uma coisa.
Ele clicou na imagem seguinte na tela. Era uma imagem com zoom da lateral do pescoço da vítima, um corte aberto horrendo. Alguns policiais conseguiam se manter distanciados em relação a essas coisas, como se a autopsia fosse um livro de teoria de medicina. Mesmo depois de dúzias de julgamentos de assassinato, milhares de evidências horrorosas, ainda me doía olhar.
— Aqui está o que achei interessante — apontou o médico. — No caso Gowan, como em todos os de Palm Beach, o golpe fatal provavelmente foi uma facada no pescoço, que cortou a artéria carótida. É um corte aberto com uma enorme perda de sangue.
— Mas não houve decapitação em nenhum dos casos de Palm Beach — interveio Santos.
— Correto. A verdade é que, a menos que você seja um executor habilidoso, são necessários diversos golpes fortes para cortar a cabeça de alguém com um facão ou uma espada.
— Mas temos uma decapitação aqui — eu disse.
— Na verdade, não temos — disse o médico.
Tanto Santos quanto eu olhamos para o corpo, a contradição era óbvia.
O legista balançou a cabeça.
— Um predador. Jacarés têm dentes muito afiados. Eles não lidam bem com presas grandes, então não é uma surpresa que um tenha encontrado o corpo, arrancado a cabeça com os dentes e sumido. Olhem aqui — disse ele, colocando a luz sobre o ferimento. — São marcas de dentes de jacaré. E aqui — apontou — a carne está rasgada. Não é um corte nem o movimento de um facão. É a marca clássica de um jacaré mordendo e rasgando, o que, do ponto de vista de um jacaré de um metro e meio, é muito trabalho para uma refeição. É por isso que, mesmo que o departamento de caça e pesca da Flórida receba 12 mil reclamações sobre jacarés todo ano, só vemos quatro ou cinco ataques a humanos. E nos últimos 75 anos, só uns dois casos fatais. Eles gostam de pássaros e tartarugas, que podem ser engolidos inteiros.
— Então não é um caso de desmembramento — concluiu Santos.
— Correto.
— O que nos alinha com os casos de Palm Beach, em que não houve desmembramento.
— É verdade — concordou o médico. — Mas, de novo, não temos múltiplos golpes no torso como tivemos em Palm Beach. Não vemos marcas de defesa nas mãos nem nos braços, o que seria esperado se a vítima estivesse lutando com o agressor. E não temos sinais de amarras nos pulsos nem nos tornozelos, que indicariam que ela foi amarrada e presa.
— São diferenças significativas — comentou Santos.
— E talvez eu possa explicá-las — disse o médico.
— Por favor, explique — pediu Santos.
— Como mencionei, enquanto vemos múltiplos golpes nos casos de Palm Beach, o golpe fatal provavelmente foi no pescoço. Meu medo inicial era que o ataque do jacaré tornasse impossível determinar se esta vítima sofreu um ferimento no pescoço como as de Palm Beach.
— Você está dizendo que consegue fazer a comparação? — perguntou Santos.
— Não definitivamente. Mas tenho uma tendência preliminar — respondeu ele.
E colocou a luz sobre o cadáver, voltada para o ferimento no pescoço.
— É difícil ver deste ângulo, com o cadáver deitado de costas. Vou mostrar as fotos que tirei antes. — O médico foi até o laptop de novo, abriu a imagem e aproximou o zoom. — Estão vendo esta laceração na base do pescoço?
— Estou.
— De novo, temos o efeito complicador do jacaré. Mas concentrem-se especificamente nessa parte lisa.
Cheguei mais perto. Estava cercada pelas mordidas e pelos rasgos dos dentes do predador, mas havia uma área de dois centímetros e meio que parecia lisa.
— De fato, parece diferente — comentei.
— Tenho quase certeza de que é um ferimento ocasionado por uma faca — disse o médico.
— Então esse caso é como os de Palm Beach? — perguntei.
— Ah, é aí que começa a ficar interessante — continuou ele. — O ferimento sofrido por cada uma das vítimas de Palm Beach foi no músculo esternocleidomastoideo. É o mesmo músculo que os jogadores de futebol americano exercitam para ganhar aquela aparência de que não têm pescoço. Se você é fã de Star Trek, como eu, é o músculo que os aliens bons sempre têm, e os maus nunca têm, porque esse músculo em particular é uma característica única dos mamíferos, o que o torna atraente para o olho humano.
O legista tinha uma tendência à digressão. Eu o trouxe de volta, como já havia feito diversas vezes no banco das testemunhas.
— O golpe foi na lateral do pescoço, é o que você está dizendo?
— Isso. Desculpem. O que eu quero dizer é que temos um golpe anterior na coluna cervical, entre as vértebras C1 e C2. E, se eu estiver certo, a causa mortis aqui pode ter sido um único golpe na nuca, que rompeu a medula espinhal.
— Como um pé de cana-de-açúcar — comentou Santos.
— Suas palavras, não minhas — disse o médico. — O importante é que foi um único golpe.
— Então a morte teria sido instantânea? — perguntei.
— Nem mesmo quando se usa a guilhotina a morte é instantânea — respondeu ele. — A Revolução Francesa está cheia de relatos históricos de olhos piscando, dentes rangendo e rostos corados depois da execução. Mas com certeza deve ter havido perda instantânea de percepção e consciência, e morte em questão de segundos. O que explica por que não vemos ferimentos de defesa nesta vítima, nenhuma evidência de que ela se defendeu. É muito diferente do que vimos nos casos de Palm Beach.
Santos e eu nos entreolhamos, e ela disse exatamente o que eu estava pensando.
— Então, a técnica nesse caso parece… bom, pode não ser o termo exato… mas parece quase misericordiosa, se comparada às vítimas anteriores.
O médico fez uma pausa, medindo suas palavras.
— Podemos levantar uma hipótese com algum grau de confiança de que esta vítima não viu o golpe se aproximando e que perdeu toda consciência instantaneamente. O mesmo não pode ser dito com nenhum grau de certeza médica sobre Palm Beach. Se foi “misericordioso”, é uma questão para a psicologia forense.
Ele desligou a luminária e fechou o laptop.
— Mas a patologia dos ferimentos é muito diferente — disse Santos. — O que me leva à pergunta: elas são tão diferentes a ponto de você achar que temos dois assassinos?
O legista hesitou.
— Ou um assassino — sugeri — que tem sentimentos diferentes em relação às vítimas de etnia diferente.
O médico olhou para mim, depois para Santos, como se fosse um jogo de cara ou coroa.
— Precisamos de mais informações.
Pensei na pesquisa em andamento para procurar a marca registrada do Cortador em Shark Valley, na parte do corpo que faltava e podia ter se perdido para sempre por causa de um jacaré faminto.
— Vamos continuar procurando as cinzas? — perguntei.
— Precisamos continuar — disse Santos, o olhar de volta ao cadáver. — Mas eu não teria muitas esperanças.