Uma Mulher Perfeita
Capítulo cinquenta e um
Uma névoa logo antes de amanhecer atravessava a escuridão no parque Shadow Wood. Em silêncio, Victoria e a unidade de oito membros da SWAT estavam no compartimento traseiro de um veículo especial.
A informação tinha vindo de um cliente atento de um posto de gasolina de autoatendimento. O responsável pela pista, veterano da Guerra do Vietnã, tinha passado a noite dirigindo desde Tallahassee. Ele parou atrás de um sedan, desceu de sua caminhonete e se espremeu entre seu para-choque e a traseira do outro veículo a caminho da bomba de gasolina.
— Senti o cheiro de muitos cadáveres no Vietnã — contou ele à polícia. — Não é algo que você esquece. Foi o cheiro que estava saindo do porta-malas daquele carro.
A esperança era que não fosse o corpo de Angelina, de que Angelina ainda estivesse viva e na casa. Qualquer situação que possa envolver reféns exigia uma ação muito mais drástica do que uma busca. O FBI optou por uma resposta tática.
O parque Shadow Wood ficava ao lado da casa do suspeito em uma área tranquila. Era um desenvolvimento imobiliário típico dos anos 1970 no noroeste do condado de Broward, onde os moradores tinham escolhido uma de quatro plantas, escavadeiras chegaram, boas escolas foram construídas e, em dois anos, mil casas em estilo americano ocupavam a área onde as águas dos Everglades tinham corrido um dia. Foi uma decisão estratégica da SWAT atacar antes que o sol nascesse, e o parque oferecia uma cobertura adicional de árvores de quarenta anos e arbustos largos. Foi a base designada para a investida da SWAT.
O veículo parou. O líder da equipe, Kyle Crawford, repassou a lista pré-ataque.
O SWAT C-33 era um veículo de dupla finalidade que oferecia suporte técnico e servia como plataforma de comando móvel para o planejamento e para a comunicação da equipe de atendimento. As imagens da câmera de visão noturna no capacete de Crawford seriam transmitidas ao vivo em um monitor dentro do veículo. Dois outros membros da equipe — os breachers, que eram os primeiros a entrar — também tinham câmeras. Um microfone de cabeça permitia a comunicação por áudio. Victoria estaria em contato constante com a equipe enquanto assistia ao andamento da operação em tempo real, pelos olhos deles.
A lista de Crawford tinha terminado. As portas traseiras se abriram, e o time desembarcou. A intensidade era palpável, mesmo que eles ainda estivessem em modo pré-lançamento. Uma segunda unidade da SWAT tinha acompanhado em um veículo separado e se juntado a eles. Todos vestindo preto, com pintura militar cobrindo o rosto, as unidades eram praticamente invisíveis no escuro. Victoria estava armada apenas com sua Sig Sauer 9 mm padrão, mas muito mais poder de fogo entraria antes dela. Os membros dos times portavam M16s totalmente automáticos. Coletes à prova de bala feitos de Kevlar, capacetes e incontáveis horas de treinamento e experiência podiam protegê-los de qualquer reação possível.
Um terceiro veículo chegou. O especialista de comunicação de Victoria e dois agentes forenses alcançaram o time e entraram na central móvel de comando.
Crawford sinalizou com a mão. O SWAT 1 entrou em formação em um uníssono silencioso.
Pelos óculos de visão noturna, Victoria viu a primeira onda de membros da SWAT se espalhar pelo perímetro de mais de mil metros quadrados enquanto cercava o suspeito que estava em casa.
Oliveiras maduras bloqueavam parcialmente a visão, mas ela podia ver o jardim da frente, a entrada e a fachada da casa. As janelas estavam pretas, nenhum sinal de luzes acesas lá dentro, mas um mata-insetos na varanda emitia uma luz âmbar sombria e fúnebre.
Crawford ajustou seu fone. Ele estava recebendo uma mensagem do time 1.
— Em posição — Crawford instruiu sua equipe. — Dez segundos para o vídeo.
Victoria voltou para o veículo. O especialista de comunicação estava sentando diante de cinco monitores distintos, cada um conectado a uma câmera de campo diferente. A agente do FBI olhou por sobre o ombro. Crawford e dois membros da SWAT se juntaram a ela. O primeiro monitor piscou e se fixou em uma imagem. Era de um dos agentes de vigilância, o primeiro a se aproximar da casa. Esse era um trabalho importante e abrangente de esquadrinhar a cena em silêncio, pelo lado de fora. Eles já tinham levantado a planta da área e confirmado a disposição desse modelo específico de casa, que o time tinha estudado e memorizado. Câmeras de infravermelho não podiam ver pelas paredes de tijolo nem pelo vidro, mas o inverno na Flórida era a estação das janelas abertas. Se os agentes conseguissem encontrar uma, os sensores de calor diriam se alguém estava lá dentro.
— Vídeo confirmado — informou Victoria pelo microfone. — Vão em frente. Câmbio.
— Planta correta — o agente de vigilância reportou —, nenhuma alteração estrutural detectada. Dois quartos pequenos na ala sul da casa. Ambos vazios. Cozinha, sala de jantar e de TV no lado leste. Também vazios. O sensor infravermelho confirma um elemento na suíte principal, lado norte. Grande, provavelmente um homem. Parece estar dormindo. Acesso direto pelas porta de vidro de correr viradas para o pátio na parte de trás. Câmbio.
— Algum sinal de um segundo elemento? Câmbio.
Com “elemento”, Victoria queria dizer “vítima”. Eles estavam procurando um serial killer, e Angelina ainda estava desaparecida.
— Não estou vendo. O scan infravermelho mostra um brilho amorfo no banheiro da suíte principal. Alguma fonte de calor.
Victoria chegou mais perto do monitor. A imagem era fraca, mas a descrição tinha sido exata. Ela já tinha trabalhado muitas vezes com infravermelho e tinha visto brilhos fracos como aquele de vítimas em caçambas ou escondidas em matagais. Um corpo humano continua emitindo sinais detectáveis de calor pelo menos duas ou três horas depois de morrer.
Crawford abriu o microfone para seu time todo:
— Em posição — comandou ele, sem nenhuma emoção na voz. — No três estamos no amarelo.
“Amarelo” era o código da SWAT para posição final de cobertura e proteção. “Verde” significava ataque, o momento de vida ou morte, literalmente.
Crawford saiu da van de comunicação e se juntou ao restante do time 2. Victoria não podia mais vê-lo, mas a imagem da câmera no capacete do líder piscou no segundo monitor. Imagens de outras câmera em campo piscaram nos monitores três, quatro e cinco. Victoria tinha o cenário completo. E tinha o comando de Crawford no ouvido.
— Três, dois, um.
Os monitores mostraram a SWAT em ação, uma onda silenciosa e bem coreografada pelas árvores, para fora do parque e entrando no jardim. Victoria podia quase sentir os passos — dedos primeiro, seguidos de calcanhares, joelhos flexionados para absorver o impacto caso fosse necessário abrir fogo. O monitor dois capturou a aproximação pelo lado leste para cobrir a porta dos fundos. O monitor três mostrou a contenção pelo lado da rua, a SWAT a uma distância de ataque da porta da frente, mas não perto demais, e a abordagem parou logo antes de alcançar a luz amarela da varanda. Crawford e outros dois agentes deram a volta pelo pátio, mas a câmera dele não estava clara. A neblina e as telas do pátio criavam um borrão no monitor, o que só aumentou a ansiedade de Victoria.
Ela se perguntou sobre a aura fantasmagórica de calor emanando do banheiro.
As imagens se congelaram. O movimento parou. Uma rodada de confirmações por microfone afirmou: a SWAT estava em posição.
— No três, estamos no verde — sussurrou Crawford, a voz entrecortada pela frequência do rádio no ouvido de Victoria.
Ele contou devagar, cheio de propósito, um homem com água gelada nas veias. No três, os monitores se tornaram um borrão em movimento. O fone de Victoria ecoou o barulho simultâneo das portas da frente e dos fundos sendo arrombadas, e o vidro das portas de correr se estilhaçando na suíte principal. Ela se preparou para os disparos, mas ouviu apenas os gritos de Crawford e sua equipe atravessando a casa até o quarto.
— Abaixe, abaixe! Deite no chão!
Victoria olhou para as imagens noturnas dos monitores, todas convergindo para o homem no colchão, o homem cercado.
Houve um estalo no rádio, mais comandos. O monitor um revelou o elemento sob controle. Os outros piscaram com a varredura da casa. A câmera cinco estava no banheiro, onde o infravermelho tinha detectado calor.
— Nada aqui — relatou o agente.
Victoria olhou o monitor mais de perto. Um banheiro vazio.
— Tudo limpo — disse Crawford.
Victoria e seus especialistas forenses entraram em ação e correram na direção da casa. Dois agentes tecnológicos estavam bem atrás dela. Só o especialista em comunicação ficou para trás.
Victoria atravessou o gramado o mais rápido que conseguiu. A fonte de calor continuava sendo um mistério, mas, se eles de fato tivessem pegado o Cortador, Victoria não queria algum advogado de defesa esperto argumentando que ele tinha confessado um crime com um rifle M16 na cabeça. A porta da frente mal estava presa às dobradiças, danificada pelo arrombamento. Ela correu para dentro da casa. Os agentes de tecnologia foram com a SWAT até o computador do homem. Victoria e os especialistas forenses foram até a suíte principal. Crawford e dois outros agentes estavam parados em cima de um homem grande deitado de bruços no chão ao lado da cama. Ele estava usando uma calça de pijama e uma camiseta branca. Suas mãos estavam atadas nas costas com cabos plásticos.
— Onde está Angelina Beckham? — gritou Victoria.
— Eu não sei! — disse ele com o rosto no carpete.
— O que você fez com ela?
— Nada. Não sei de quem você está falando!
Ela não sabia ao certo se o homem estava mentindo.
— Santos, encontrei uma coisa — o especialista forense disse do banheiro.
Victoria correu para lá. O agente estava no chão.
— A fonte de calor do infravermelho veio daqui — ele explicou.
Ela não estava vendo nada além dos ladrilhos.
— O quê?
— Solução de limpeza química — disse o agente. — Uma concentração de ácido sulfúrico ou ácido clorídrico, que aumenta os íons hidrônios em uma solução e atrai elétrons de qualquer coisa que você esteja tentando limpar. Os íons hidrônios têm uma reação química com o material que está sendo limpo, o que libera o calor.
— Calor suficiente para ser captado pelo scan infravermelho.
— Se houver ácido suficiente. E uma bagunça grande o bastante.
— Que tipo de bagunça?
Ele pegou o frasco de Luminol e borrifou nos ladrilhos de cerâmica do chão. Victoria apagou a luz. O brilho azul contou a história.
— Sangue — o agente anunciou. — Pela quantidade de calor que apareceu no infravermelho, eu diria que ele estava usando um monte de soluções químicas, limpando muito sangue.
Um agente da SWAT entrou na suíte.
— Nenhum corpo no porta-malas no carro — ele avisou Victoria. — Mas os cães farejadores de cadáveres estão enlouquecidos. O veterano do posto de gasolina estava certo. Com certeza um corpo esteve ali em algum momento.
— Vamos chamar os legistas — instruiu Victoria.
— Tem mais alguma coisa que você precisa ver.
Ela saiu da suíte principal e atravessou o corredor com o especialista. Outro agente abriu a porta, e Victoria entrou onde deveria ser a garagem. De alguma forma, ela sabia o que estava prestes a ver, mas ficou sem fôlego mesmo assim.
— Meu Deus — ela exclamou, parando na entrada.
Os fundos de uma garagem para dois carros tinha sido transformado em uma sala sem janelas. As paredes e o teto estavam pintados de preto. O chão estava no contrapiso de concreto. Havia três spots de luz no teto, os feixes ofuscantes voltados para o centro da sala, onde quatro jogos de algemas de metais — dois para os pulsos, dois para os tornozelos — estavam parafusados ao concreto. A iluminação estava tão concentrada que a área continuava nas sombras, mas havia luz suficiente para revelar a bancada encostada na parede. Devagar, Victoria foi até lá. As ferramentas de um sádico apareceram. Tiras de couro. Açoites de couro cru. Alicates. Tesouras. Clipes de metal, coleiras, algemas, alfinetes e consolos de diferentes comprimentos e espessuras, o maior chegando a uns 45 centímetros. Os objetos estavam meticulosamente dispostos na bancada. Mas era a ferramenta pendurada na parede, logo acima da bancada, que distinguia esse assassino de tantos outros sociopatas que podiam ter se encaixado no perfil criminal.
Era um facão para cortar cana.
Victoria sentiu uma onda de… alguma coisa. Realização talvez resumisse bem; a tragédia de tantas jovens vítimas tornava impossível chamar aquilo de sucesso.
— Pegamos ele — disse ela em voz baixa.