Uma Mulher Perfeita
Capítulo sessenta
Caminhei quatro quarteirões da minha casa e decidi não pegar um táxi. Resolvi arriscar e liguei para Rid. Desta vez ele atendeu.
— Por que você me evitou a manhã toda? — perguntei.
— Você acha que eu tenho um único caso?
— Não me enrole, Rid. Fui para minha casa depois que vi você na TV, mas você já tinha ido embora. Santos e a detetive Reyes de fato falaram para você sair?
— Sim. Elas disseram que não era uma investigação de homicídio, mas esse não foi o motivo real por que me tiraram de lá.
— Qual foi o motivo real?
— Eu falo demais. Com você. O que precisa parar, Abe.
Ele soou oprimido, o que em geral significava que estava cansado da burocracia da polícia.
— Alguém pegou no seu pé por ficar próximo demais de mim nessa investigação?
— Nãããão — respondeu ele, com uma forte dose de sarcasmo. — De onde você tirou essa ideia?
— Vou dizer uma coisa — eu disse. — Que tal você passar aqui e me dar uma carona?
— Você não ouviu o que acabei de dizer?
— Você não precisa dizer nada. Eu falo, você escuta. Me faça esse favor.
— Eu sei o que deveria fazer com você — respondeu ele, grunhindo.
Em seguida, Rid desligou. Considerei isso um sim e mandei uma mensagem para ele com o endereço. Cinco minutos depois, Rid me pegou em um posto de gasolina em um carro da polícia não identificado.
— Para onde? — perguntou ele.
— Para o Bumerangue.
Ele conhecia a piada, mas não estava sorrindo. Rid saiu com o carro e seguiu para o meu escritório. Eu não sabia ao certo por onde começar, então ele fez as vezes.
— Você tem um grande problema nas mãos, Abe. Maior do que você imagina.
Ele virou à esquerda na direção do rio. Era o caminho mais longo para o escritório da promotoria, o roteiro pitoresco. Eu podia ver que Rid estava em conflito sobre ter ou não uma conversa comigo, mas havia alguma coisa que ele precisava me contar.
— Andei pensando sobre as fotos de você e Tyla Tomkins no restaurante — disse ele, mantendo os olhos no trajeto.
— O que têm elas?
— Como Angelina as conseguiu?
— Elas foram deixadas na caixa do correio.
— Quem as deixou lá?
— O Cortador.
— Como o Cortador as conseguiu?
— Cortador estava perseguindo suas vítimas. Já falamos sobre isso.
Ele virou outra curva. Estávamos passeando pela margem do rio, passamos por um cargueiro panamenho que estava subindo o rio sem nenhuma pressa.
— É mentira — disse Rid.
— Você está falando como Santos.
Ele olhou na minha direção.
— Eu concordo com ela.
— Sobre o quê?
— Eu vi o vídeo do depoimento do Cortador. Ele nega ter matado Tyla. E nega ter mandado as fotos para Angelina, nega até saber quem é Angelina. As cinzas pretas no rosto de Tyla não se encaixam no perfil do Cortador. O próprio filho da puta resumiu muito bem: por que pintar um rosto negro de preto? Não faz sentindo. A menos que você esteja tentando fazer parecer que foi o Cortador que mandou as fotos.
Esperei que ele continuasse, mas Rid parou. Percorremos mais um quarteirão. Tive a impressão de que ele queria me contar mais, mas já ido mais longe do que o permitido. Eu o instiguei.
— Quem faria isso, Rid? Se não foi o Cortador, quem mandou as fotos?
— Eu ia fazer essa pergunta para você.
— Eu daria a mesma resposta que dei para Carmen — respondi. — Nós conversamos quando tudo isso começou, logo depois de você e Santos irem ao escritório de Belter e acusá-lo de dormir com Tyla. Mandar essas fotos era contra-ataque dele, uma maneira de dizer “se vocês arruinarem o meu casamento, vou arruinar Abe Beckham”.
— Quem quer que tenha mandado essas fotos tinha de saber a marca registrada do Cortador. Belter não sabia.
— Então provavelmente foi o Cortador. A única outra opção é alguém dentro da lei.
— Ou alguém casado com um agente da lei.
Uma sirene soou atrás de nós. Rid encostou à direita para deixar uma ambulância passar.
— Santos diz que foi Angelina.
Ele estava voltando para o tráfego, sem olhar para mim enquanto falava, e eu me perguntei se tinha ouvido direito.
— O que você falou?
— Santos acha que Angelina mandou as fotos para si mesma.
A sirene da ambulância sumiu, mas as coisas não estavam mais claras para mim.
— Como ela saberia a marca registrada das cinzas no rosto?
— Talvez você tenha deixado escapar. Talvez ela tenha ouvido você falando ao telefone.
— Sou mais cuidadoso do que isso, mas vamos deixar isso para lá. Por que ela mandaria as fotos para si mesma?
— Para criar a impressão de que não sabia que você a estava traindo até depois da morte de Tyla.
— Eu não traí Angelina.
— Você não está entendendo. Não é uma questão de você estar traindo sua mulher ou não. Só importa se ela achava que você estava, e quando achou isso. É uma questão de motivo.
— Motivo… para matar Tyla Tomkins?
— Bingo.
— Rid, qual é. Foi um assassinato horrível e sangrento feito com um facão.
— Foi? Nós nunca recuperamos a cabeça de Tyla. Não temos como examinar o trauma. Talvez tenha sido tão simples quanto alguém aparecer por trás e acertar a parte de trás do crânio dela com um maldito rolo de massa.
— O médico legista diz que foi um golpe na nuca com uma faca grande.
— Sim, e talvez Tyla já estivesse morta quando o golpe foi dado. Talvez o único objetivo do ferimento do facão fosse fazer parecer obra do Cortador.
Eu não estava nada confortável com essa conversa, mas não podia refutá-la.
— Angelina não é uma assassina.
Eu esperava que ele concordasse, mas não aconteceu.
— Como eu disse, Abe. Andei pensando nas fotos. Aliás, andei analisando as fotos.
— E?
Paramos em um semáforo vermelho, e Rid me entregou seu celular. Uma das fotos do meu jantar com Tyla estava na tela.
— Olhe de perto — instruiu ele.
— Estou olhando — respondi.
— Olhe para o seu prato.
Aumentei a foto e coloquei o zoom no meu prato.
Rid perguntou:
— O que você estava comendo no restaurante naquela noite com Tyla?
Eu estava olhando para a tela, minha entrada claramente visível na foto. Era um prato de que eu nunca tinha ouvido falar antes de conhecer Angelina, mas, depois de provar o dela, era o que eu sempre pedia se estivesse no cardápio.
— Ossobuco.
— O que Angelina cozinhou para você na noite em que desapareceu?
Não respondi imediatamente.
— Eu sei que você lembra — disse ele. — Porque eu comi, adorei e comentei com você que era melhor do que rabada.
— Ossobuco.
— Pois é — disse Rid. — Se você acha que é uma coincidência, você é um idiota. Angelina estava jogando com você, Abe. Ela está jogando com você.
Devolvi o celular para ele. O farol ficou verde. Rid se aproximou mais um quarteirão do Bumerangue e parou no meio-fio.
— Está perto o bastante para você? — perguntou ele.
— Está, obrigado.
Abri a porta do passageiro, mas ele me parou antes que eu desembarcasse.
— Abe, você sabe que não podemos mais falar sobre isso, certo?
Eu assenti.
— Tudo bem entre nós?
— Sim — respondi. — Tudo.
Pisei na calçada, fechei a porta e fiquei vendo enquanto ele ia embora.