Uma Mulher Perfeita
Capítulo dois
Fomos na direção da fumaça, nuvens densas subiam pelos campos e escureciam o céu azul límpido. Fechei a saída do ar-condicionado do lado do passageiro do carro da agente Santos.
— Estou sentindo o cheiro de fumaça — comentei.
— Parece um pouco com milho na grelha, não é?
— Que passou do ponto.
— Fique feliz por não morar por aqui — disse Santos.
A fumaça dos incêndios controlados era uma parte familiar da paisagem de inverno nos canaviais vastos e privados dos Everglades da Flórida. Somente após a queima das folhas e da densa vegetação rasteira era possível que as lâminas dos homens ou as máquinas alcançassem a base dos pés de cana de três metros e meio.
Ninguém tinha certeza absoluta sobre como se descobriu que queimar um canavial facilitava a colheita sem reduzir a produção. Mas, por causa do meu sogro, eu sabia que a Companhia Nacional de Açúcar fazia isso desde 1941, pelo menos, quando Luther e os demais “recrutas” foram trazidos de Memphis. Depois de vencer a acusação de trabalho escravo do Departamento de Justiça, a Companhia Nacional e os outros fazendeiros desistiram dos americanos e passaram a contratar apenas estrangeiros para o trabalho sazonal com o programa do visto H-2. Jamaicanos, haitianos e dominicanos aperfeiçoaram as queimadas — e o corte. A cada temporada pelos cinquenta anos seguintes, dez mil homens deixariam suas famílias nas ilhas para viver uns em cima dos outros em alojamentos sem vida, pegariam ônibus antes do amanhecer, vestiriam capas e botas, e colocariam protetores de alumínio nos tornozelos, joelhos e nas mãos. Armados com facões, marchariam até campos cobertos de fuligem como gladiadores negros. Um em cada três se cortaria ou cortaria outro trabalhador, perfuraria um olho ou tímpano com a ponta afiada de um pé de cana ou perderiam o pagamento de um dia por causa de insolação, picada de cobra ou um ataque de raivosas formigas-lava-pés. Eles se apressavam para cortar uma tonelada de cana por hora e, com a queimada apropriada, esperavam cortá-la baixa.
— Nada de tocos, cara — os jamaicanos mais bem-pagos, os que tinham caído nas graças da empresa, diziam aos novatos. — Você deixa um toco de um dedo, e a Companhia Nacional perde uma tonelada de cana. Abaixe, cara.
Em meados nos anos 1990, as máquinas tomaram conta, mas as queimadas continuaram.
— É uma imagem muito impressionante — disse Santos, os olhos fixos na estrada. — Quarenta acres queimam em 15 minutos.
Eu estava olhando pela janela do lado do passageiro, hipnotizado pela intensidade do fogo. A parede de chamas alaranjadas chegou a nove metros ou mais acima dos pés de cana. Lampejos de calor levavam as cinzas ainda mais alto no céu. Milhares de pássaros saíram voando, fugindo. Era como uma cena do filme Bambi, e eu me perguntei sobre os coelhos, os texugos e as outras criaturas que faziam da densa cobertura do canavial seu lar.
— A vítima número um sofreu queimaduras graves — disse Victoria.
— Você não quer dizer queimada viva, quer?
— Não — respondeu Santos. — Vou mostrar. Está logo ali.
De repente, estávamos além da área da queimada. Longas labaredas de fogo e o calor alaranjado e ofuscante deram lugar ao movimento de canaviais cheios de folhas. Os pés de cana eram mais altos que a vegetação de restinga oitenta quilômetros aos sul, mas eram parecidos na beleza, o que fazia sentido: a cana-de-açúcar também é mato.
Santos foi para o acostamento da estrada e parou o carro. O denso campo marrom do lado de fora da minha porta parecia impenetrável. No entanto, do outro lado da estrada ficava um terreno devastado pós-colheita. As máquinas tinham tirado tudo o que a terra podia oferecer. Toneladas de cana tinham sido cortadas e levadas. Tudo o que restava eram os tocos escurecidos e um campo queimado e colhido.
— Por aqui — indicou Santos.
Segui seus passos pela estrada de mão dupla deserta e entrei no campo. Ainda era possível ver o incêndio ao longe, mas um brisa fresca levava a fumaça na outra direção. O solo estava macio, mas não parecia a massa densa que tinha quase me engolido em Shark Valley. Na maior parte estava coberto pelos restos deixados pelas máquinas, mas, de vez em quando, uma baforada de cinzas e poeira subia das minhas pegadas, os vestígios da queimada pré-colheita. Era fácil ver onde longas fileiras organizadas de pés de cana tinham estado, e, ao longe, ficava outro campo, que seria cortado. Pensei no pai de Samantha, aos 16 anos, parado no canavial com o facão na mão e querendo voltar para casa em Memphis, ondas de cana-de-açúcar até onde o olhar alcançava. Era um pouco como entregar uma colher de chá para uma criança para que ela esvaziasse o oceano.
Santos parou e apontou para uma clareira a várias fileiras de distância.
— A vítima número um estava ali.
— Quem a encontrou?
— Um dos responsáveis pela queimada. Eles jogam água no perímetro para impedir que o fogo se alastre com o vento e depois vão para o campo com fogareiros de cerâmica para atear fogo. Uma vistoria padrão é feita antes da queimada, mas nessa não encontraram nada. Há outra vistoria depois da queimada para retirar qualquer coisa que possa obstruir as máquinas, o que pode ser desde um jacaré queimado até uma máquina de lavar roupa velha descartada por um vizinho. Foi quando encontraram o corpo.
Santos agachou, revirou os restos no chão, pegou um punhado de cinzas e o moveu entre os dedos enquanto levantava, escurecendo sua pele.
— Essa é a marca registrada do Cortador.
— Cinzas?
— Vítimas mulheres e brancas, o rosto escurecido por cinzas.
Olhei de novo na direção da clareira, onde a vítima número um tinha sido encontrada.
— Como vocês conseguiram confirmar isso com o corpo carbonizado?
— Conseguimos identificar a vítima. Charlotte Hansen. Sabemos que ela é branca.
— Sei disso. Mas, se o corpo estava queimado, como vocês conseguiram descobrir que ela tinha cinzas no rosto?
— Não conseguimos. O Cortador a colocou muito no meio do canavial. Acredito que foi por isso que as vítimas dois, três e quatro foram bem mais fáceis de encontrar. O assassino as deixou no perímetro onde a cana é regada para conter a queimada. Ele aprendeu com o primeiro descarte e corrigiu seu erro. Ele queria que víssemos sua marca registrada.
Abaixei e peguei um pouco de cinzas. Eu já estava dentro da mente de um assassino, já tinha minha própria teoria, mas queria ouvir Santos falar.
— O que isso quer dizer, a marca registrada dele?
— Todas as quatro mulheres se relacionaram com homens negros.
O perfil do Cortador estava sendo redigido dentro da minha cabeça. Vítimas mulheres e brancas. Namorados negros. Forte violência sexual. Morte violenta e brutal. Quer ser negra? Tudo bem, vadia, vou fazer você ficar negra.
— Então temos um claro desvio do padrão em Miami-Dade — eu disse. — Uma vítima negra.
— Temos, sim.
— Meu chute é que você não esperava por isso.
— Não.
— E se ficar provado que a vítima negra tinha cinzas no rosto, o que isso significa para você?
— As cinzas no rosto são uma coisa que a força-tarefa nunca divulgou para a mídia. Então, se estiverem lá, vamos ter de repensar nosso perfil do racista branco e raivoso matando mulheres brancas que namoravam homens negros.
— E se não houver cinzas no rosto da vítima negra?
Santos limpou as cinzas dos dedos.
— Então talvez tenhamos dois assassinos.
— Uma imitação?
Ela não respondeu, mas não precisava. Santos tirou as chaves da jaqueta.
— Vamos esperar o que o médico-legista tem a dizer.