Uma Mulher Perfeita
Capítulo sessenta e cinco
A recepcionista bateu de leve e abriu a porta de Winters. Meu celular tocou quando eu estava prestes a entrar. A tela dizia “Depósito AAA”. Atendi, e era o gerente.
— Sr. Beckham?
— Sim, sou eu.
— Estou ligando para avisar que estou prestes a abrir sua unidade de depósito.
— Por quê? Eu esqueci de pagar a conta?
— Não. A polícia está aqui com um mandado de busca.
Meu primeiro pensamento foi Santos.
— A polícia?
— De Miami-Dade.
— Coloque um dos policiais na linha.
— Eles não vão falar com você, parceiro. Já pedi para ligarem para você, mas não precisam da sua presença. Eles não querem você aqui. É assim que as coisas funcionam.
Eu sabia disso.
— Mas o que estão procurando?
— Não sei.
— Está no mandado.
— Escute, eu não me envolvo com os detalhes. Só aviso os clientes caso eles queiram vir para cá. Ou sair da cidade.
— Obrigado. Estou chegando.
Desliguei e coloquei a cabeça para dentro da sala.
— Desculpem. Preciso ir.
— O quê? — disse Winters.
— Surgiu um imprevisto.
— O que está acontecendo? — perguntou Angelina.
— Não tenho tempo para explicar. Só fique aqui.
— O que eu devo fazer?
— Não sei. Troque outra palavrinha com seu advogado. Comecem com o dicionário de sinônimos. Eu preciso ir mesmo.
Dei meia-volta e saí correndo pelo corredor, passando pelo lobby, até o elevador.
Um portador segurou a porta para mim, e em três minutos eu estava no hall do prédio, passando pelas portas giratórias, e dentro do meu carro.
O gerente tinha dito que era a polícia de Miami-Dade, e eu acreditei, mas tinha certeza de que, de alguma forma, Santos estava por trás da busca. Eu nem tinha certeza de como ela tinha descoberto sobre o depósito. Talvez tivesse vindo à tona na visita a Luther. Liguei para Santos do carro, mas ela não atendeu. Rid também não. Acelerei, costurando entre carros que estavam indo mais devagar no trânsito da manhã. Parei ao lado das viaturas do lado de fora do depósito e subi a escada correndo até o quarto andar. A porta da minha unidade tinha sido levantada. A busca estava em andamento. A agente Santos estava parada no corredor, um sinal tácito de que ela estava agindo fora de sua jurisdição, a supervisora disfarçada de espectadora.
— Me deixe ver o mandado — eu pedi
— Essa é uma busca da polícia de Miami-Dade — ela me informou. — Fale com a detetive Reyes.
Até parece que aquilo era coisa da polícia de Miami-Dade. Fui até minha unidade. Uma equipe estava empilhando caixas no corredor. Algumas estavam abertas. Itens aleatórios estavam espalhados pelo chão. Parecia errado ver a polícia revirando os pertences de Samantha, suas lembranças, as minhas memórias. A detetive Reyes saiu da unidade e me entregou o mandado. Eu me concentrei imediatamente na parte que listava os itens incluídos na busca.
— Um facão de cortar cana? — perguntei. — Você está brincando comigo?
Santos se juntou a nós.
— Seu sogro me contou que tinha guardado seu antigo equipamento.
— Vamos contar os problemas que tenho com isso — respondi, furioso. — Um, vocês deveriam ter me ligado se queriam falar com Luther. Dois, vocês disseram que era uma busca de Miami-Dade, não sua. Três, mesmo que, tecnicamente, seja uma busca de Miami-Dade, que diabos um facão tem a ver com a detetive Reyes e a unidade de violência doméstica, além do fato de que vocês duas se tornaram a detetive Debi e a agente Loide? Quatro, não tem nenhum facão aqui.
— O que você fez com ele?
— Nada.
— Como você sabe que não está aí?
Pensei em pouco antes de responder. Porque eu queria saber se meu cunhado era um serial killer?
— Por que vocês mesmas não vão ver?
— Vamos fazer isso.
A equipe continuou a trabalhar em silêncio, fazendo um levantamento, ticando cada item da busca. Fiquei olhando por alguns minutos, morrendo de raiva.
— Você tem outros mandados? — perguntei.
Reyes ignorou a pergunta. Santos nem olhou na minha direção.
Fui até a escada no fim do corredor, fechei a porta e liguei para JT pelo celular.
— Onde você andou, Abe? Estou quase sem comida de novo.
— JT, preste atenção. Isso é importante.
— Comida é importante.
— Pois é, comida com certeza é importante. Mas isso é ainda mais importante. Lembra quando a polícia foi ao seu apartamento com um mandado de busca?
— Dã. Você não está falando com o Forrest Gump. Odeio quando as pessoas me tratam como idiota. Eu sou esperto, Abe. Samantha até disse uma vez que eu era um gênio.
— Eu sei, me desculpe. O que eu ia perguntar é se você lembra como a polícia queria sair do seu apartamento e fazer uma busca no deque?
— Hum…
— Esqueça. Não importa se você lembra ou não. Minha questão é que o primeiro mandado não incluía uma busca na área externa. Mas a polícia sempre tem a opção de voltar com outro mandado.
— Merda! Eles vão voltar?
— Fique calmo, ok? Não tenho certeza se eles vão voltar.
— Não brinque comigo. Por que você ligaria para mim se a polícia não fosse voltar?
— Só quero que você esteja preparado.
— Preparado? — gritou ele. — Como eu me preparo? Não posso passar por isso de novo. Não posso, Abe.
— JT, vai ficar tudo bem. Só…
— É a tornozeleira, Abe!
— Não é a tornozeleira.
— Toda essa merda aconteceu depois que coloquei essa maldita tornozeleira!
— Não tem nada a ver com isso.
— Eu preciso sair daqui.
— JT, você não pode ir a lugar nenhum com a tornozeleira. A juíza vai mandar você para a cadeia.
— Não faz mal. Eles estão vindo. Você falou. Eu ouvi você falar. Vão voltar aqui!
— JT, estou a caminho. Fique aí.
— Eu preciso sair, Abe!
— JT, fique…
Parei de falar. Ele não estava mais lá.
— Mas que inferno, JT!
Guardei meu celular e corri pela escada até o carro. O cascalho se espalhou e uma nuvem de poeira subiu sobre as viaturas enquanto eu acelerava pelo estacionamento. Com tudo o mais que estava acontecendo, a última coisa de que eu precisava era que JT fosse preso e levado para o tribunal por violar a prisão domiciliar. Liguei para ele da estrada, mas ninguém atendeu. Mais uma vez, eu estava costurando entre os carros, até os que estavam acima do limite de velocidade. Eu estava a menos de um quarteirão de distância quando fui para trás de um grupo de ciclistas que estava vestido para o Tour de France, mas pedalando na velocidade de uma valsa francesa. O líder do grupo me mostrou o dedo médio quando passei pela direita para desviar deles, metade no acostamento, metade no gramado rebaixado. Os pneus do meu carro cantaram quando estacionei na vaga em frente ao apartamento de JT. Corri até a porta, mas estava trancada. Bati com força.
— JT, abra a porta!
Dei a ele um minuto. Bati de novo e encostei o ouvido na porta. Não ouvi nada no interior do apartamento, mas, se ele tivesse ido embora, fugido porque “eles” estavam voltando, não teria se dado ao trabalho de trancar a porta ao sair. Dei a volta no prédio até a entrada dos fundos do apartamento. Um cheiro forte de gardênia me cercou quando virei a esquina. A árvore que eu tinha plantado quando Samantha e eu fomos morar lá estava florida.
O quintal só era grande o bastante para o deque e uma árvore, e estava cercado por uma cerca de madeira de um metro e meio. Tentei o portão, mas estava trancado — outro sinal de que JT só podia estar lá dentro. Pulei a cerca e prendi minha camisa no arbusto de buganvílias cheio de espinhos. Rasguei a manga quando caí na terra e saí rolando e, quando fiquei de pé, estava olhando para o deque. Fiquei paralisado. As tábuas de compensado que Samantha e eu tínhamos colocado estavam cobertas de sangue. Poças largas de sangue escuro.
— JT!
Meu coração batia forte quando corri na direção do deque. Tropecei e caí de joelhos. O sangue encharcou as pernas da minha calça, e vi o rastro vermelho que seguia até a cozinha. Eu sabia que JT estava lá, mas não consegui entrar de imediato. Deve ter sido apenas uma hesitação de uma fração de segundos, mas a imagem estava sendo gravada tão fundo no meu cérebro que pareceu mais. Meus olhos estavam grudados no deque coberto de sangue. Um velho facão de cortar cana estava no centro. Ao lado da lâmina estava a tornozeleira. Ainda estava presa ao pé de JT, e um pedaço do osso estava saltado na altura do calcanhar.
— Merda, JT! Merda! Merda!
Liguei para a emergência do celular enquanto corri para o apartamento pela porta aberta. Segui o rastro de sangue pela cozinha, pela sala de TV até a entrada. Foi até lá que a fuga em um pé só levou JT. Seu corpo estava imóvel no chão perto da porta. Chamei o nome dele e fui até lá. Gritei os detalhes para a atendente da emergência enquanto estapeava o rosto e abria seus olhos, qualquer coisa para trazê-lo de volta.
— O pé dele foi cortado! — informei a atendente. — Ele vai morrer com o sangramento! Mande uma ambulância!
Minha camisa já tinha sido rasgada pelos espinhos. Rasguei tiras para fazer um torniquete e amarrei com toda força que pude na batata da perna do JT. Deitei o corpo dele de costas e comecei o ressuscitamento.
— Vamos, irmão! Acorde!
Eu estava me alternando, três compressões rápidas no peito e pressão no ferimento da perna, até os paramédicos chegarem.