Uma Mulher Perfeita
Capítulo cinquenta e dois
Eu estava mais ou menos uma hora adiantado em relação ao horário de pico, passando pelo campus da Universidade de Miami com a primeira onda de trabalhadores, rumo à sede do “Encontre Angelina”, sem nenhum plano em mente, apenas com a sensação de que eu precisava fazer alguma coisa. O supermercado abria às sete, e eu já tinha passado por lá e deixado três sacolas de compras no apartamento de JT, colocando um fim ao mantra “eu não tenho comida”. Foi quando Rid me ligou de sua casa.
— O Cortador foi detido.
Incontáveis perguntas entupiram minha cabeça, mas reduzi a confusão mental à mais importante:
— E Angelina?
— Não sabemos.
Minhas mãos tremiam no volante. Tive que sair da US 1 e parar em um posto de gasolina, mas deixei o motor ligado.
— Vocês não sabem se o Cortador a levou; ou ele a levou, e vocês não sabem o que aconteceu com ela?
— A primeira opção. Fique feliz, Abe. Se esse monstro estiver de alguma forma envolvido, não resta muita dúvida do que ele fez.
Coloquei o ar-condicionado no máximo, qualquer coisa para me ajudar a respirar de novo.
— Quem é ele?
— O Cortador se chama Tommy Salvo. Ele trabalha para a Açúcar Cortinas.
Meu queixo caiu.
— Ele trabalha para essa maldita empresa de açúcar. Como Santos não conseguiu localizar esse sujeito antes?
— Lembre que a indústria do açúcar tem centenas de milhares de funcionários e ex-funcionários. Uma busca pelo computador o excluiu na primeira pesquisa no banco de dados. Salvo tem uma casa no condado de Broward, mas vive na Nicarágua na estação da colheita, de outubro a maio. Pelo jeito, o corte ainda é feito à mão lá.
— Ele de fato é cortador de cana?
— Não. O corte é feito por nicaraguenses muito mal pagos. Salvo é cidadão americano e é supervisor das operações de campo. De todo jeito, ele escapou na busca do computador porque não tem ficha na polícia, e os registros de imigração revelaram que estava na Nicarágua na época dos assassinatos.
— Então ele voltou ilegalmente.
— Exato. O FBI acha que ele voltou por Manágua—Havana—Nassau em um jato cubano, depois pagou alguém por baixo dos panos para entrar de barco nos Estados Unidos pelas Bahamas. Uma rota complicada, mas, se você é um serial killer que quer que as autoridades pensem que você está fora do país, vale a pena fazer o esforço. Ninguém sabia que ele estava aqui.
— Exceto…
Comecei a falar, mas parei.
— Exceto quem? — perguntou Rid.
— Exceto, talvez, Tyla Tomkins. Será que era por isso que ela estava me ligando e deixando mensagens na minha caixa postal?
Rid não respondeu.
— Salvo matou Tyla? — perguntei.
— Não está claro.
— Que resposta de merda.
— Abe, minhas mãos estão atadas em relação ao que posso revelar para você. Santos está interrogando o suspeito agora. Tudo isso é confidencial.
— Não me venha com essa história de “confidencial” — eu gritei, minhas palavras eram raios de fúria. — Saber o que aconteceu com Tyla pode significar a diferença entre encontrar ou não encontrar minha mulher. Me conte o que você sabe, bom, ruim, tudo. Mas me conte, Rid!
Uma dona de casa em um utilitário parou no posto e manobrou na direção da bomba à minha frente, um bando de crianças na parte de trás. Ela passou direto e voltou para a rodovia. Minhas janelas estava fechadas, mas devo ter parecido um maluco, gritando no celular e socando o volante.
— Tudo bem, o que eu sei é: Salvo montou sua sala de assassinatos como um estúdio de filmagem amador. Paredes pretas, focos de luz, isolamento acústico, a coisa toda. O FBI confiscou o computador dele, mas Santos não está revelando muito sobre o que foi encontrado. É uma aposta bem segura que esse filho da puta doente gostava de filmar o que fazia com as vítimas, mas não faço ideia se isso significa as cinco mulheres do condado de Palm Beach, ou se significa mais do que isso. Não quero levar você a uma conclusão errada com alguma informação pela metade. Isso pode acabar sendo uma boa notícia para você. Ou pode ser uma notícia terrível.
Eu praticamente caí para a frente, minha testa batendo no volante.
— Onde está sendo o interrogatório?
— No escritório do FBI.
— Estou indo para lá.
— Não vá. Santos não vai deixar você chegar perto do interrogatório.
— Rid, eu vou. Você está no campo ou na reserva?
Ele hesitou, mas só por um segundo.
— Vou avisar para Carmen que o polígrafo está cancelado e encontro você lá.
Desliguei o telefone, liguei o carro e fiz uma prece quando saí do posto e peguei a US 1.