Uma Mulher Perfeita
Capítulo dezesseis
Era quase meia-noite quando cheguei em casa. O policial estava parado na rua, como prometido. O quanto estava “de olho” era discutível. Ele estava mandando mensagens pelo celular quando passei.
A porta da frente estava trancada. Tentei não fazer muito barulho, colocando a chave com cuidado, virando o trinco devagar e rezando para que o alarme não disparasse quando abri a porta. Minha entrada felina era em parte uma gentileza, num esforço genuíno de não despertar Angelina de um sono profundo. Mas a força mais poderosa em ação era o fato de que despertá-la ia significar uma conversa à meia-noite sobre Tyla. Eu já tinha tido uma dose suficiente de Tyla Tomkins por uma noite, mas parecia que não havia como evitar o tópico. Angelina estava no sofá, totalmente desperta, assistindo à televisão.
— Não imaginei que você estivesse acordada — eu disse ao fechar a porta.
Ela estava usando sua roupa mais confortável para a noite, um grande roupão felpudo com chinelos macios. E não olhou para mim. Seus olhos se mantiveram fixos na tela.
— Nem eu — respondeu ela.
— Você estava… me esperando?
A cabeça dela virou devagar na minha direção, e sua expressão disse tudo.
— Desculpe, foi mal — disse eu.
Pendurei a chave do carro no gancho da porta e sentei na poltrona.
— Por que tem uma viatura do lado de fora da nossa casa? — perguntou ela.
— Por precaução — expliquei. — Existe uma possibilidade de que o assassino de Tyla tenha mandado aquelas fotos para você.
Isso fez Angelina virar a cabeça.
— Você está brincando comigo? Um serial killer esteve na nossa entrada e deixou aquelas fotos de você com Tyla?
— É possível.
— Maravilha. Tenho um assassino de olho em mim.
— Ninguém está de olho.
— Diz o homem que achava isso até as fotos provarem o contrário — retrucou ela, desviando os olhos, constrangida. — Desculpe.
Angelina ainda estava claramente sentindo os efeitos da garrafa de vinho que tinha bebido sozinha, e sua metade bêbada e a sóbria estavam em conflito.
— Não peça desculpas — eu disse. — Eu mereci.
— Vamos falar do que você merece — comentou ela friamente. — Mas, sério. Se ninguém está nos observando, por que tem uma viatura lá fora?
— Estamos só tomando cuidado — expliquei. — A agente Santos acha que não existe nenhum perigo.
— Nenhum perigo. Mesmo?
— Não.
Angelina olhou para mim de novo, desta vez com mais foco.
— E o que você acha, Abe? Você acha que existe algum perigo?
Eu estava bem certo de que ela não estava falando do serial killer, mas não fazia ideia de qual era a resposta certa.
— Para ser mais específica — explicou ela — e nós? Você acha que nós corremos algum perigo?
Definitivamente não estávamos falando do serial killer, mas eu ainda estava procurando a resposta certa.
— Espero que não.
Ela expirou ruidosamente, algo entre a zombaria e uma risada fraca e sem graça.
— Ah, Abe. Você é uma coisa.
Inclinei o corpo para a frente na poltrona, ainda sentado, mas voltado para ela, suplicando.
— Você quer que eu conte o que aconteceu naquela noite?
Angelina desligou a TV com o controle remoto e me olhou nos olhos.
— Eu sei o que aconteceu.
— Não, acho que você não sabe.
— Fotografias não mentem, Abe. Você estava se divertindo bastante.
— Foi um jantar agradável.
Angelina devia ter dado um escândalo por um comentário tão idiota.
— Eu já tive jantares agradáveis — disse ela com a voz calma e comedida. — Não é o que isso foi. Eu vi o sorriso no seu rosto. Eu vi a expressão nos seus olhos.
— Angelina, eu estou falando a verdade: eu não dormi com a Tyla.
— Eu gostaria que fosse só isso.
— O quê? Não. Sério? Você acha que eu estava apaixonado por Tyla?
Ela balançou a cabeça, como se quisesse enfatizar que eu não estava entendendo.
— Não, Abe. Eu não acho nem por um segundo que você estava apaixonado por Tyla. Você está apaixonado por Samantha. E por duas horas naquele jantar, Tyla foi sua esposa morta.
Angelina se levantou do sofá e ficou parada, como se estivesse pensando se deveria dizer mais. Em seguida, juntou seu longo cabelo loiro e o prendeu.
— Eu sei que você não dormiu com Tyla, Abe. Mas você e eu sabemos que isso não teve nada a ver com o quanto você me ama.
Não me mexi. Eu não conseguia me mexer. Fiquei na poltrona enquanto Angelina caminhou sozinha para o nosso quarto.