Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 63 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo sessenta e três

 

 

Às cinco e meia da manhã algo me acordou. Sentei na cama e prestei atenção. Eu tinha certeza de que tinha ouvido um barulho na sala. Angelina ainda estava dormindo. Saí da cama, atravessei o corredor em silêncio e entrei na sala. Como o sol só iria nascer dali a uma hora, estava escuro dentro da casa, e as janelas estavam pretas como a noite. Tentei ouvir o barulho de novo, mas não ouvi nada.

Uma batida da porta me assustou.

Pelo olho-mágico vi que havia uma mulher na minha entrada. Ela tinha um microfone na mão. Atrás dela estava um homem com uma câmera no ombro. Era a mesma equipe do Eyewitness News que tinha me entrevistado no sábado.

Você só pode estar brincando.

Ela bateu de novo. Não abri a porta. Fiquei tentado a sair pelos fundos e abrir a mangueira na direção dela. Em vez disso, tirei meu celular do carregador e redigi uma mensagem de texto. Escolhi minhas palavras com cuidado, tomando cuidado para que, não importa o quanto ela tentasse manipular aquilo para sua reportagem, a repórter fizesse papel de idiota:

 

Obrigada por aparecer na nossa casa às 5h30. Como a maioria das pessoas, estamos dormindo às 5h30. Por favor, saiam da nossa propriedade até 5h31, para que eu possa voltar a dormir às 5h32. Caso contrário, vou chamar a polícia às 5h33. Mais uma vez, obrigado por sua preocupação e sua consideração madrugueiras.

Pronto, era suficiente. Mandei, esperei um minuto até a mensagem ser transmitida e fiquei observando pelo olho-mágico enquanto ela lia. A repórter era obrigada a ir embora quando fosse solicitado. Era a lei, e eu era um promotor. Ela respondeu algo como “Por favor, por favorzinho, sou uma boa pessoa”, o que eu li como: Minhas garras só vão aparecer se você for idiota o bastante para abrir a porta. Não caí. Ela passou um cartão pelo vão da porta — Ah, sim, claro que eu vou ligar para você, moça — e foi embora com a equipe.

Voltei para o quarto. Angelina dormiu o tempo todo, o que me surpreendeu, até eu notar os protetores auriculares de cera. Eram usados para nadar e, como eram impermeáveis, ela provavelmente teria continuado dormindo mesmo que aquela equipe tivesse usado granadas e um bate-estacas. Eu, por outro lado, estava oficialmente acordado. Decidi deixá-la dormir. Tomei um banho rápido e me vesti para ir trabalhar, mas não quis ir para o escritório tão cedo. Eu precisava de uma distração, alguém com quem eu pudesse conversar sobre alguma coisa além de Tyla Tomkins, Cortador e, para ser honesto, Angelina. Apenas uma pessoa se encaixava no perfil e, por acaso, também era o único sujeito na terra que ficaria feliz em me ver antes de seis e meia da manhã. Manobrei o carro na garagem, acenei quando passei pela equipe da Eyewitness News na rua, e fui para a clínica de repouso. Luther já tinha tomado café da manhã e estava sentado no pátio, quebrando pedaços de uma torrada para alimentar os pombos.

— Mas não briguem — disse ele. — Vamos todos ser amigos?

Era um bom conselho para os pássaros. E um bom conselho para os humanos.

— Rodney King estaria orgulhoso — comentei quando cheguei mais perto.

Meu sogro provavelmente não entendeu minha alusão aos protestos em Los Angeles em 1992, mas ficou feliz em me ver. Pedi para ele não se levantar, e Luther disse para eu não me preocupar. Era uma velha piada entre mim e um idoso que estava quase frágil demais para se levantar, mas ainda me fazia sorrir.

Sentei no banco ao lado dele.

— Por que você acordou tão cedo? — perguntou ele.

— O McRib voltou. Eu queria ser o primeiro da fila.

Ele riu e balançou a cabeça.

— Você é com certeza o branco mais engraçado que eu conheço.

Conversamos por alguns minutos, e fiquei sabendo tudo sobre a nova fisioterapeuta com um belo sorriso e mãos macias. Depois ele me contou sobre uma amiga minha que tinha ido visitá-lo.

— Uma amiga minha? — perguntei.

— “Victoria” era o nome dela. “Victoria Santos.”

Eu estava prestes a explodir. Era a segunda vez que Santos tinha contado essa história, primeiro com a mãe de Angelina e agora com o pai de Samantha.

— Sobre o que vocês dois conversaram?

— Sobre mim, basicamente. Boa moça, mas faz muitas perguntas.

— Sobre o quê?

Luther jogou mais um pedaço de pão para os pombos, que começaram a subir uns sobre os outros.

— Ela queria saber sobre os meus tempos cortando cana.

Fechei os olhos e os abri devagar, tentando manter minha raiva sob controle.

— O nome de JT foi mencionado?

Ele assentiu.

— Apareceu. Apareceu, sim.

— Como?

— Não consigo lembrar exatamente como, Abe. Para falar a verdade, eu tinha parado de prestar atenção a essa altura. Ela estava perguntando coisas como “Tem certeza de que JT nunca cortou cana?” e “Você passou a tradição para o seu filho?”. Foi mais ou menos como perguntar para o Obama se alguém na família dele manteve a tradição de colher algodão.

Eu teria rido em circunstâncias diferentes. Mas a ideia de que JT se considerava um cortador de cana não era mera curiosidade. Isso se encaixava perfeitamente com a teoria de Santos por trás do assassinato de Tyla Tomkins.

Luther fez sinal para uma das enfermeiras, que atravessou o pátio na direção dele.

— Desculpe, Abe — disse ele. — Preciso fazer xixi.

— Tudo bem. Preciso ir embora de todo jeito.

Nós nos despedimos, e fui para o meu carro. Parte de mim queria ir direto para o apartamento de Santos e esmurrar a porta dela, no melhor estilo Eyewitness News.

O que não resultaria em nada de bom.

Em vez disso, liguei para o Rid. Ele estava correndo na esteira, que me pareceu uma metáfora interessante, e ofegando do outro lado da linha.

— Sabe o que Santos fez agora?

— Abe — disse ele, a fala entrecortada por causa da corrida. — Nós combinamos não… falar mais sobre isso.

— Ela foi falar com Luther.

A esteira parou de girar no fundo. Eu tinha atraído a atenção dele.

— Por quê?

— Porque ele é um antigo cortador de cana, e agora Santos quer provar que JT e eu elaboramos um plano para matar Tyla Tomkins e fazer parecer que tinha sido obra do Cortador.

— Ela não devia trazer o velho para essa história.

— Ela também não devia trazer o JT e eu. Rid, você precisa me ajudar.

— O que você quer?

— Me diga o que ela estava procurando na minha casa ontem.

— Abe, por favor — ele disse, grunhindo.

— Qual é, Rid. Isso já foi longe demais. Fui revistado, me submeti ao polígrafo, ela vasculhou a casa do JT, revirou a minha casa sem um mandado, encurralou meu sogro em um asilo, e essa é só a parte que a gente sabe. O que Santos vai fazer depois, exumar o corpo de Samantha?

Ele fez uma pausa, mas eu quase podia sentir que Rid estava cedendo. Foi quando ele anunciou.

— Ela está procurando evidências de que Angelina fuma.

— Ela não é uma fumante.

— De que ela fuma escondido.

— Que diabo é isso?

Rid me contou sobre o ponto laranja no estacionamento do outro lado da rua da funerária na noite do velório de Tyla.

— Parece algo que um serial killer faria — eu comentei. — Observar o funeral de uma das vítimas.

— Ela não acha que foi o Cortador.

— E acha que foi Angelina?

— Vamos apenas dizer que Santos não acha que você e Angelina têm uma relação saudável.

— Não, eu preciso de mais do que isso. Preciso saber o que Santos está pensando, Rid. Ela acha que Angelina é uma esposa maluca que me seguiu até o velório de Tyla.

— Alguma coisa a fez arremessar uma garrafa de cerveja contra a porta depois de colocar você para fora de casa, Abe. E não vamos esquecer o nariz quebrado.

Eu não queria ter essa conversa de novo com Rid.

— Certo. Isso me ajuda. Mais alguma coisa que você possa me contar?

— Só uma — respondeu ele. — Esta é de fato a última vez que falamos sobre isso, Abe.

Ele desligou. Guardei meu celular. Eu tinha ouvido a certeza em sua voz, ele estava falando sério: esse seria o último favor.

E torci para não precisar de mais nenhum.