Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 19 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo dezenove

 

JT virava abóbora às seis da tarde, então eu o levei direto para casa. As ordens da corte sobre a prisão domiciliar nos davam três horas para visitar Luther toda semana, o que significava que eu estava livre até sexta que vem. Eu tinha deixado mensagens para Angelina o dia todo e tentado ligar mais uma vez do carro, no estacionamento perto do apartamento de JT. Dessa vez ela atendeu.

— Oi — eu disse, um pouco surpreso de não ser a caixa postal. — Como você está?

— Bem.

Bem. Respondido daquela maneira, naquele exato momento, era o mais vulgar dos palavrões.

— Eu estava pensando que a gente talvez pudesse se encontrar para um happy hour e ir comer sushi.

— Vou jantar com a minha mãe.

Não estava nada bem.

— Sua mãe está na cidade?

— Vou buscá-la no aeroporto em meia hora. Não se preocupe, ela não vai ficar na nossa casa. Ela insistiu em ir para um hotel.

— Posso ir encontrar vocês no restaurante se…

— É um jantar com a minha mãe, Abe. Só nós duas.

— Certo. Bom, dê oi para ela por mim. Talvez você e eu possamos tomar um drinque mais tarde?

— Minha mãe provavelmente vai querer ver um filme depois.

Parecia mentira, depois de um voo de Nova York e de um jantar.

— Vai ser divertido. O que vocês vão ver?

— De verdade, Abe, pouco me importa. Vejo você mais tarde em casa, pode ser?

— Claro — respondi, não querendo terminar a conversa assim, mas só havia silêncio do lado dela. — Angelina?

— O quê?

— Eu sinto muito.

Nenhuma resposta. Só um momento de hesitação, e então ela desligou. Deixei o celular no painel, dei a partida no carro e liguei o ar-condicionado para conseguir respirar de novo. Depois de um dia inteiro sendo mandado direto para a caixa postal, acho que era um bom sinal que Angelina tivesse finalmente atendido e que estivesse planejando voltar para casa à noite. Mas eu ainda estava apostando que seria Era do Gelo — não o filme que elas supostamente iriam ver, mas meu futuro indefinido com Angelina. O que me deixava com um dilema enorme.

Sexta à noite era o velório de Tyla Tomkins.

Minha intenção era ficar longe de todos os eventos relacionados a ela. Com o passar dos anos, fiz minhas homenagens a dúzias de vítimas de homicídio, e nunca perdi um velório quando era o promotor da investigação. Mas estava oficialmente fora do caso de Tyla. Com toda a cobertura da mídia sobre a investigação do Cortador, Carmen tinha planejado ir ela mesma. Afinal, a promotora pública de Miami-Dade ocupava, afinal, um cargo público. Então foi uma leve surpresa quando Carmen me chamou em sua sala mais cedo e me pediu para acompanhá-la.

E foi bem persuasiva.

— Os rumores estão correndo, Abe. Não importa com que firmeza eu diga que tirei você do caso por causa de uma relação com a vítima que acabou dez anos atrás, as pessoas estão falando. Se você vier comigo hoje à noite, vai reforçar nossa posição oficial de que nada recente nem indecoroso estava acontecendo entre você e Tyla.

— Eu agradeço o convite — respondi. — Mas não vou.

Era uma posição que eu tinha declarado com convicção pessoal e profissional, mas passei o dia repensando. Não pelas razões oferecidas por Carmen. Um motivo muito mais contundente estava pesando em minha mente. Eu conhecia minha chefe bem o bastante para finalmente chegar à conclusão de que esse outro motivo, a que ela havia apenas aludido, era o que de fato estava por trás do convite.

Olhei pelo retrovisor, como se estivesse confirmando minha convicção. Em seguida, liguei para Carmen do celular e disse que a encontraria na funerária.

— É uma boa decisão — disse ela. — Não precisamos ficar muito tempo.

— Tudo bem — respondi. — Não vai demorar muito.

Nós desligamos, e eu tinha certeza de que Carmen sabia que não iria demorar muito.

Eu queria ver Brian Belter frente a frente, de homem para homem.

E não queria perder a oportunidade de vê-lo numa ocasião e num lugar onde pudesse olhá-lo nos olhos e ver sua alma.

E eu precisava fazer isso — por mim.