Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 26 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo vinte e seis

 

Pedi o carro do vizinho emprestado — o meu ainda estava sendo analisado — e peguei a estrada.

Eu conhecia a maior parte dos lugares que Angelina frequentava — restaurantes, cafés, academia e lojas favoritas. Mapeei o circuito na minha cabeça, ticando cada local, um por um. Conversei com garçonetes, manicures, personal trainers e até clientes aleatórios que estavam nos locais por acaso quando cheguei. Levou duas horas. Nenhum sinal de Angelina, mas falei com a melhor amiga dela, Sloane, que prometeu organizar equipes para cobrir cada possibilidade, tanto no mundo virtual das mídias sociais quanto no mundo real de uma boa e velha busca. No fim da tarde, tínhamos vinte voluntários do lado de fora da minha casa. Também usei alguns contatos para mobilizar os canais de notícias locais.

— Como se pronuncia o nome da sua esposa mesmo? — a repórter perguntou. — An-ge-lai-na, como em North Carolina?

Estávamos na calçada na frente da minha casa, a trinta segundos de entrar no ar. As viaturas ainda estavam estacionadas na entrada. Investigadores de cena do crime atravessando o jardim atrás de nós, entrando e saindo de casa. Uma fila de vans da mídia estava parada do outro lado da rua.

— Não, é Angeliiina.

O câmera estava pronto. A repórter arrumou o cabelo pela décima quinta vez e sorriu.

— Mostre menos os dentes — instruiu o câmera. — A esposa do pobre coitado está desaparecida.

Eu estava começando a me sentir como se nem estivesse ali presente.

— Desculpe — disse ela, diminuindo o sorriso.

O câmera levantou os dedos…

— Três, dois, um… estamos no ar.

— Boa noite — disse a repórter, aproveitando a deixa da âncora no estúdio local. — Esta noite, as autoridades estão tentando ajudar um membro de seu time. Estou do lado de fora da casa de Abe e Angelaina…

— L iiina — corrigi. — Angeliiina.

— Abe e Angelina Beckham — continuou ela — onde uma busca está em andamento…

A matéria toda durou trinta segundos. Com exceção da pronúncia errada, não me lembro de nada. Só rezei para terem conseguido colocar a foto certa na tela dos televisores por todo o sul da Flórida. Dei mais três entrevistas — bang, bang, bang — para outras redes afiliadas. Prometeram reprisar na transmissão das 11 da noite.

— Bom trabalho — disse Sloane.

Eu estava tão atordoado que nem notei que ela estava parada na calçada, vendo as entrevistas para a TV. Diversos outros amigos de Angelina estavam com Sloane, todos com sapatos confortáveis e lanterna na mão. Ainda restava um pouco de luz do sol, mas todos pareciam prontos para procurar a noite toda, se fosse necessário.

— Obrigado por vir — eu disse a ela.

E expressei a mesma gratidão para cada um dos amigos de Angelina, o que foi relativamente tranquilo, até uma delas fungar para engolir as lágrimas e me abraçar, dizendo:

— Eu sinto muito, Abe.

Agradeci, ainda que fosse prematuro oferecer solidariedade e condolências, e ouvi os demais repreendendo-a depois que virei.

Os investigadores já tinham confirmado que os tênis de corrida de Angelina estavam no closet, mas ainda parecia valer a pena refazer o circuito de corrida dela. Talvez ela tivesse começado aquela loucura de correr descalça. Quem sabe? Procurar em algum lugar era melhor do que ficar parado. Eu não sabia por onde ela corria, mas Sloane soube levar a mim, a um grupo de voluntários e um dos guardas da polícia local por uma trilha do começo ao fim. Prendi a respiração umas duas vezes, mas o cheiro ruim era de uma embalagem de leite na valeta e dos restos de um texugo atropelado na via. Já estava ficando escuro quando terminamos. Eu precisava fazer uma pausa, mas outra onda de adrenalina tomou conta. Liguei para minha sogra no hotel e me ofereci para levar o jantar para ela.

— Vou pedir serviço de quarto — respondeu Margaret.

— Tem certeza?

— Tenho — disse ela, mas até a resposta de uma palavra saiu entrecortada. — Abe, estou com medo.

— Vai ficar tudo bem.

— O serial killer não estava no noticiário em Nova York, então não estou acompanhando a história. Mas parece que pode ser…

— Margaret, não pense nisso. Nós ainda não sabemos de nada.

— Exatamente. Não sabemos de nada. É por isso que estou tão preocupada. Eles mandaram um detetive para o hotel para coletar algumas informações sobre Angelina. Ele me disse que não há nenhuma atividade no celular dela desde ontem à noite, quando ela mandou uma mensagem para mim. É engraçado, mesmo depois que uma filha virou adulta e se casou, uma mãe se preocupa. Quando Angelina me deixou no hotel, pedi para ela me mandar uma mensagem quando chegasse para me avisar que estava em casa e em segurança. Foi o que ela fez. Ela me mandou uma mensagem que dizia… dizia “Estou em casa. Amo vc”.

Ela estava começando a se descontrolar.

— Margaret, eu posso ir até aí.

— Não, não. Não é necessário. Mas eu não entendo isso. É como se Angelina tivesse desaparecido do mapa. A última pessoa a vê-la foi você, e isso faz 18 horas.

Última pessoa a vê-la. Santos disse a mesma coisa enquanto saía da casa comigo, até eu entrar no carro e sair para procurá-la.

— Vamos manter o contato — eu disse. — Vamos ligar um para o outro assim que soubermos de alguma coisa. Combinado?

— Certo, combinado. Jake vem de avião mais tarde. Ele vai ficar comigo aqui no hotel.

Jake era o pai de Angelina.

— Que bom.

— Joe e Sandy estão a caminho?

Meus pais. Eu tinha ligado mais cedo para dizer que não havia nada que eles pudessem fazer, o que era verdade. Os dois gostavam muito de Angelina, mas as coisas andavam estranhas entre nós desde Samantha, e não estou falando da morte dela. Meus pais eram educados demais para serem desagradáveis em relação à sua desaprovação e, de fato, tinham sorrido e se comportado no dia do casamento. O estopim só viria seis meses depois, quando Samantha e eu fomos visitá-los em Charlottesville e passamos a noite no quarto de hóspedes. Estava tudo bem até irmos embora. Tínhamos percorrido oito quilômetros de estrada quando me dei conta de que tinha esquecido meus óculos de sol. Voltei e descobri que minha mãe não só tinha trocado a roupa da cama onde Samantha e eu tínhamos dormido, mas também jogado os lençóis no lixo. E não era porque tínhamos feito sexo neles.

— Ainda não — respondi. — Talvez eles venham mais tarde. — Quando, no funeral? Que coisa mais idiota de dizer. — Me avise se Jake precisar de uma carona do aeroporto.

— Ele se vira. Só continue fazendo o que você está fazendo. Vi uma matéria que você deu no noticiário. Foi…

A voz dela desapareceu. Eu podia ouvi-la engolindo as emoções.

— Margaret?

— Desculpe. Aquela entrevista que você deu para o canal de notícias foi uma boa ideia.

— Tem certeza de que não quer que eu fique aí até Jake chegar?

— Não, não é a melhor maneira de ocupar seu tempo. Além do mais, uma de suas amigas está vindo me ver. Não vou ficar sozinha.

— Uma das minhas amigas? Ou de Angelina?

— Sua. A agente Santos.

Foi como um banho de água fria, e odiei me sentir assim. O FBI deveria ser “amigo”.

— Foi isso que a agente Santos disse, que ela é minha amiga?

— Não tenho certeza. Talvez eu tenha presumido. O policial já tinha colhido meu depoimento, então imaginei que ela estivesse só sendo gentil e cuidando de mim. Por quê? Ela não é sua amiga?

Isso era complicado de explicar.

— Ela é boa pessoa.

— Você prefere que eu não fale com ela?

A última coisa de que eu precisava era minha sogra dizendo para o FBI que eu a tinha instruído a não falar com a agente que estava investigando o desaparecimento de Angelina.

— De jeito nenhum — respondi. — Só me conte como foi.

— Claro, eu aviso a você. Obrigada de novo, Abe. E pensamento positivo.

Prometi fazer isso, me despedi e desliguei.

“Pensamento positivo” era um bom conselho. A mídia estava envolvida. A comunidade tinha sido mobilizada. Durante toda a tarde eu estava recebendo ligações solidárias de policiais com quem eu tinha trabalhado ao longo dos anos, alguns aposentados havia muito tempo. Carmen colocou o escritório inteiro da promotoria à minha disposição. A repórter do Eyewitness News tinha dito uma coisa certa: as autoridades estavam mobilizadas para ajudar “um membro de seu time”. Com uma exceção aparente. A agente Santos. E aquilo estava começando a me enlouquecer.

Eu precisava entender o que estava acontecendo.

Era sábado à noite, mas Carmen tinha me dito para ligar a qualquer hora. Recorri a ela. Minha chefe atendeu o celular, mas estava participando de um banquete no Four Seasons e estava a minutos de receber outro prêmio por serviços prestados à comunidade, desta vez da Ordem dos Advogados Cubanos Americanos. Ela prometeu passar em casa depois, o que instigou meu próximo movimento. Comecei a checar os investigadores da cena do crime. Eles pareciam estar encerrando suas atividades, mas aquilo estava demorando demais. Se a investigadora de crimes de violência doméstica não estava dirigindo o espetáculo, era, pelo menos, uma das produtoras executivas.

Eu estava pisando na varanda quando vi o carro de Rid parar na entrada. Ele desembarcou rápido, com uma expressão no rosto ao atravessar o gramado que me deixou preocupado. Fui até ele, encontrando-o no meio do caminho, meu coração acelerado.

— Está tudo bem — disse ele. — Não é a notícia ruim final que ninguém quer ouvir.

Meu nível de ansiedade diminuiu um pouco, mas continuava alto.

— Encontramos o celular de Angelina.

Parei de respirar.

— Onde?

— Na beira da estrada. Arranhado, riscos, o vidro está quebrado. Parece ter sido jogado de um carro em movimento.

Fiquei gelado. Eu conhecia as estatísticas, tinha participado das palestras da polícia. Nunca entre num carro. Nunca, jamais, sob hipótese alguma. Chute, grite, golpeie, se contorça, cuspa, arranhe — faça o que for preciso, mas não entre naquele carro. As chances de sobrevivência de uma mulher despencam.

— Que estrada? — perguntei.

— Calle Ocho — respondeu ele, e fez uma pausa. — Lado oeste. Logo antes de se tornar Tamiami Trail.

A estrada para os Everglades. Senti meus joelhos cederem.

— Santo Deus — foi tudo o que fui capaz de dizer.