Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 27 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo vinte e sete

 

Victoria estava no Ritz-Carlton conversando com a mãe de Angelina quando recebeu a ligação do detetive Riddel. Ela encerrou a conversa e foi direto para o local onde o celular foi recuperado. Seu conselho foi que Margaret esperasse no hotel.

A conversa estava evoluindo exatamente na direção que Victoria esperava. A última coisa que a mãe de uma filha desaparecida quer é acreditar que seu genro modelo é de alguma forma responsável.

Era provável que perguntas difíceis, naquele estágio inicial, provocassem uma postura defensiva, talvez até indignada. Perguntas extremamente difíceis, como às relacionadas à garrafa de cerveja quebrada, podiam esperar para o segundo round. O objetivo do primeiro round tinha sido apenas abrir a cabeça de Margaret para as possibilidades, por mais impensáveis que fossem.

Era uma viagem de vinte minutos até os Everglades, o que dava a ela tempo suficiente para revisar todas as respostas previsíveis de uma mãe aflita — e analisar algumas surpresas.

 

— Quando Angelina pediu para a senhora vir de Nova York?

Havia três mulheres no quarto de hotel. Margaret estava sentada em uma poltrona perto da janela. Victoria estava sentada na beira da cama, de frente para ela. A detetive Reyes, do setor de crimes de violência doméstica da polícia de Miami-Dade, estava sentada na cadeira da escrivaninha. Margaret era a versão de setenta anos de Grace Kelly, e a forte semelhança entre mãe e filha deixava claro como Angelina tinha se tornado uma mulher com aquela beleza clássica. No entanto, o estresse inimaginável já estava se fazendo sentir. Margaret estava mantendo o controle, mas por pouco. Uma semana vivendo assim, Victoria sabia, e as linhas de preocupação estariam cravadas em pedra.

— Foi em algum momento da manhã de sexta que ela ligou — respondeu Margaret.

— Quando você pegou o avião?

— Sexta à tarde.

— Por que a pressa?

— Não havia pressa.

— Parece que você embarcou no primeiro voo disponível.

— Um dos primeiros, acho eu.

— Angelina estava chateada com alguma coisa?

— Claro que estava. Angelina é recém-casada. Ela e Abe tinham acabado de ter sua primeira discussão depois de casados. Essas coisas acontecem. Eu precisava vir aqui ficar com ela.

— Ela contou sobre o que foi a discussão?

Margaret deu um suspiro profundo. Sua mão tremia enquanto ela tomava um gole d’água.

— O cunhado de Abe, JT.

— O que tem ele?

A voz dela endureceu.

— Ele assusta Angelina. Para ser sincera, ele também me assusta um pouco.

— Por que ele assusta a senhora?

— Por quê? — repetiu Margaret. — Você o conheceu?

— Rapidamente. No apartamento dele.

— Bom, não é o apartamento dele. É onde Abe morava. Não conheço os detalhes, mas até onde sei JT estava morando na rua por um tempo. Sabe, ele praticamente arruinou o casamento de Angelina.

— Como?

— Ele se levantou durante a festa e fez um brinde bizarro sobre Abe ser um irmão de verdade porque tinha ido de uma esposa afro-americana para uma loira. Ele é uma pessoa muito estranha. Abe precisa ser mais sensível sobre isso.

— Você acha que Abe é insensível.

— Não, não de modo geral. Só em relação a isso.

— Você acha que JT pode ter alguma coisa a ver com o desaparecimento de Angelina?

Margaret pensou por um tempo, como se não descartasse a possibilidade.

— Não sei. Mas não imagino como poderia. Ele não está em prisão domiciliar?

— A senhora acha que Abe poderia?

— Eu acho que Abe poderia o quê?

Victoria fez uma pausa longa o bastante para que Margaret soubesse que não podia fazer as questões difíceis desaparecerem fingindo que não as entendia. Então ela repetiu a pergunta.

— A senhora acha que Abe poderia ter alguma a ver com o desaparecimento de Angelina?

— Ah, pelo amor de Deus, não. Você não pode estar falando sério.

 

Victoria dirigiu rumo ao oeste na Southwest Eighth Street, passando pela Universidade Internacional da Flórida, até as luzes dos centros comerciais ficarem para trás e a escuridão dos Everglades aparecerem. Uma viagem noturna pela Tamiami Trail era como um passeio de carro à meia-noite pelas planícies do Kansas, mas a ruptura com a civilização era mais súbita.

Os Everglades marcavam o fim abrupto do desenvolvimento a oeste e das luzes da cidade, e a fileira de faróis ao longo da Trail se estendia como um filamento solto até a completa escuridão.

Foi o chip do GPS no celular de Angelina que possibilitou sua recuperação. A busca noturna por ela estava concentrada no lado norte da Trail, o lado onde o aparelho foi encontrado. A área de armazenamento, que era o local da missão de busca das autoridades, era o mesmo estacionamento de chão de cascalho usado pela equipes que estavam trabalhando na ponte nova. Victoria parou ao lado de uma escavadeira colossal e caminhou pelo acostamento da estrada. A detetive Reyes estava junto. O trânsito não estava mais intenso do que o de sempre, mas estava começando a se acumular dos dois lados. Uma equipe de policiais de trânsito impediu que os curiosos atrapalhassem o trânsito na Trail.

Victoria viu Riddel no centro da atividade perto de um feixe portátil de luzes de vapor de sódio. Dois geradores ruidosos abasteciam seis feixes no total, fazendo as águas tranquilas dos Everglades brilharem, mas só por uma distância de aproximadamente vinte metros. Um helicóptero da polícia sobrevoava a área, a varredura de sua luz de busca alcançando mais longe na restinga. Os trabalhadores do resgate nos pontões se moviam devagar pelo canal, os raios das fortes luzes da navegação riscando a noite. Na escuridão além, incontáveis pares de olhos dos jacarés captavam apenas uma nesga de luz artificial e brilhavam como vaga-lumes na escuridão.

O lado norte da Trail só estava aberta para as autoridades. A fita da polícia se estendia por centenas de metros ao longo do acostamento. Do outro lado da rodovia, atrás do perímetro secundário, estava Abe Beckham. As luzes das viaturas faziam seu rosto se alternar entre vermelho e laranja. Beckham não pareceu notar quando Victoria e a detetive Reyes passaram por baixo da fita, e as duas não tentaram atrair sua atenção. Elas foram direto falar com Riddel.

— Como estão as coisas? — perguntou Victoria.

Riddel deu um passo em sua direção, se afastando do gerador barulhento.

— Nada além do celular até agora.

— A que distância estamos do local onde Tyla Tomkins foi encontrada?

— Eu marquei. Tomkins estava a dois quilômetros para o oeste. É uma grande diferença. A área do acostamento e do aterro é maior aqui.

— Alguma marca de pneu ou pegada?

— Sim, um milhão. As equipes da construção vão da área de armazenamento da obra até a ponte e voltam todo dia. Mas nada mais perto da água. Nenhuma pegada, nenhuma marca de pneu, nem uma planta quebrada. Honestamente, não vejo este lugar como uma área de recuperação.

— Como você acha que o celular veio parar aqui?

— Meu chute é que o sujeito chegou até aqui na Trail e, de repente, lembrou que o GPS dos smartphones têm chips de rastreamento. Ele entrou em pânico, jogou o aparelho pela janela e seguiu viagem. Você mesma pode checar o celular, mas parece que foi atirado de um veículo em movimento. Estou torcendo para ser esse o caso. Nunca é um bom cenário para uma mulher estar no carro de seu sequestrador a caminho de Deus sabe onde. Mas ela ainda pode estar viva.

— Ainda pode — disse Victoria.

Riddel olhou mais adiante na estrada.

— No pior caso, ele foi até a metade do caminho para Naples antes de parar para se desfazer do corpo no meio dos Everglades. Ou foi até Naples e continuou dirigindo para o norte, talvez com ela ainda viva.

Victoria olhou na direção de Abe e virou para Riddel.

— Qualquer coisa é possível a esta altura.

— Emiti um aviso de alerta para a costa oeste, do condado de Collier em diante — continuou ele.

— Eu mandei o alerta seis horas atrás — disse Santos.

— Eu sei. É consistente com o seu.

— Não me interessa. Você precisa coordenar comigo. Você emitiu o alerta em relação a exatamente o quê?

— Aqui, veja você mesma — ele abriu o alerta em seu celular, e Victoria leu na tela.

— Não é melhor que o meu — comentou ela. — Nem pior.

— A situação é o que é — disse Riddel. — Além de uma foto de Angelina e do perfil criminal do Cortador, homem branco na casa dos trinta, o que mais podemos dizer? O carro de Angelina ainda está na garagem, então não sabemos que tipo de veículo procurar, a menos que, de novo, mantenhamos o perfil do serial killer e façamos uma busca por vans comerciais sem janelas.

— Alguma ideia de como descobrir quais veículos passaram pela Trail nas últimas vinte e quatro horas?

Riddel balançou a cabeça.

— Não há nenhum pedágio na Tamiami Trail, então nenhuma câmera para checar a placa dos carros. Pedi aos xerifes do condado de Collier para visitar estações de serviço ao redor de Naples. Estão falando com frentistas, checando câmeras de segurança. As pessoas, em geral, param para abastecer depois de uma viagem pela Trail. Talvez alguma coisa apareça.

Uma comoção na faixa da esquerda chamou a atenção de Victoria. Uma van da imprensa estava tentando forçar sua passagem perto demais da cena do crime, e os policias de trânsito estavam fazendo seu trabalho. Sem dúvida mais vans viriam na sequência.

— Precisamos elaborar um release para a imprensa — disse Victoria.

— Estou cuidando disso.

— Eu gostaria de vê-lo.

Ele hesitou.

— Antes de você liberar o texto — disse ela. — Ao contrário do alerta.

Riddel olhou por sobre o ombro, na direção de seu amigo Abe, e fez uma expressão séria para Victoria.

— Vou deixar uma coisa clara desde já. Todos nós sabemos as estatísticas de mulheres assassinadas pelo marido, e senti uma certa energia vinda da casa de Abe hoje à noite. Mas, a esta altura, não vou dizer absolutamente nada que insinue que Abe Beckham está, de qualquer forma, situação ou ocasião, sob qualquer sombra de suspeita. Ponto.

Victoria não concordou nem discordou.

— A comunicação com a imprensa é função da força-tarefa. Eu preciso ver o release.

Ele a encarou por um momento, como se para reenfatizar que certas coisas não eram negociáveis.

— Está no meu carro. Vou buscar.

Victoria esperou na beira da estrada com a detetive Reyes, as duas observando a equipe de busca em ação. Reyes rompeu o silêncio.

— Eu concordo com Riddel — anunciou ela.

Havia quase um tom de desculpas em sua voz.

O olhar de Victoria continuou fixo, na direção dos Everglades. A agente do FBI não disse nada.

— Abe é um sujeito exemplar — continuou a detetive. — Já trabalhamos juntos. Ele é muito respeitado.

— E também é um mentiroso — interveio Victoria. — Ele teve um caso com Tyla Tomkins. E mentiu para a esposa sobre isso. Ele mentiu para a própria chefe sobre isso comigo na sala.

— Nem sabemos ao certo se ele estava tendo um caso.

— “Ao certo” quer dizer cem por cento de certeza? Não. E Tyla está morta, então talvez nunca tenhamos.

— Mesmo que estivesse tendo um caso, isso não faz dele o assassino.

— Não, mas explica muita coisa. Angelina recebe as fotos de Abe com Tyla. Ela liga para a mãe que está em Nova York. Volta para casa do jantar e descobre que, enquanto ela e a mãe estavam tentando achar uma maneira de salvar seu casamento, Abe foi ao velório da amante. Angelina o coloca para fora, o casamento acaba. Os dois discutem. Uma garrafa de cerveja voa pela sala. Uma coisa leva à outra e, quando acaba, Abe tem um cadáver nas mãos. Ele atira o celular da mulher na Tamiami Trail para nos fazer pensar que foi o Cortador. Só Deus sabe onde ele jogou o corpo.

— São muitas suposições.

— Seja honesta — continuou Victoria. — Muitos maridos modelo já estiveram no topo da sua lista de suspeitos por muito menos que isso.

— Eu estaria mais do seu lado se tivéssemos um histórico de violência doméstica.

— Duas noites atrás encontrei uma taça de vinho quebrada na mesa de apoio deles.

— Não foi o que eu quis dizer. Nada que ouvi da mãe de Angelina sequer levantou a possibilidade de uma relação abusiva.

— A mãe mora em Nova York. Ela sabe o que a filha quer que ela saiba. Precisamos nos concentrar nas testemunhas locais.

— As amigas de Angelina?

— Elas estão na lista. Mas vou romper o padrão aqui. Começar onde Abe não imaginaria que eu começasse.

— Onde?

Victoria olhou o relógio. Eram apenas nove horas. Ainda era cedo, havia tempo suficiente para seguir outra pista.

— Um personagem recorrente. A única pessoa que esteve na primeira fila dos dois casamentos de Abe — explicou ela.

Reyes pensou por um instante.

— Você não está falando do cunhado, está?

A expressão de Victoria se tornou muito séria.

— É exatamente dele que estou falando.