Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 35 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo trinta e cinco

 

Eu não podia ir para casa. Não naquela noite. Minha residência ainda era uma cena de crime, e os investigadores iam voltar pela manhã. Se meu plano era estar presente, eu precisava dormir. Fui para o apartamento de JT.

Liguei para os pais de Angelina. O pai dela ficou aliviado, mas fez a pergunta óbvia:

— Então, onde acham que ela está?

— Precisamos continuar procurando.

— Sei que temos uma linha direta na polícia, mas quero oferecer uma recompensa junto. Sabe, “qualquer um que tenha informações, por favor, ligue para nós”. Nenhuma pergunta vai ser feita. Talvez... quanto você acha? Vinte e cinco mil? Cinquenta mil? Não sei. Como as pessoas decidem esses valores?

De fato, como? É isso que alguém vale? O que a família consegue pagar? Outra pergunta sem resposta.

— Uma recompensa é uma boa ideia, Jake. Vamos decidir o valor de manhã.

Eu disse a ele para não perder as esperanças, meu sogro me disse o mesmo, e desligamos. Bati no meu próprio rosto seis ou sete vezes na viagem pela rodovia pedagiada só para me manter acordado. Nenhum doeu tanto quanto minha próxima ligação. Só atendi porque achei que o código de área de Palm Beach podia significar que era alguém da força-tarefa. De alguma forma, aquela repórter da TV tinha encontrado meu número de celular.

— Dr. Beckham, eu sei que era você.

Meu primeiro instinto foi desligar, mas era preciso controlar os danos.

— Peço desculpas. Foi muito rude da minha parte, mas é um momento difícil. Por favor, respeite minha privacidade.

— Eu ouvi o que você disse. E gostaria de oferecer uma chance para você se explicar.

Eu precisava ser esperto.

— Vou dizer uma coisa, srta.… qual é o seu nome?

— Heather. Heather Hunt.

Claro.

— Eu amo minha esposa, e estou fazendo tudo o que é humanamente possível para encontrá-la. O que você ouviu estava totalmente fora de contexto. Agora, se você prometer me deixar em paz, eu prometo que da próxima vez que eu tiver uma atualização para a mídia, você vai ser a primeira pessoa para quem vou ligar.

— Dr. Beckham, não quero soar insensível, mas sua esposa é um assunto regional de Miami. Quero falar sobre a Açúcar Cortinas.

— O quê?

— Depois que você saiu correndo, literalmente, o dr. Brumbel explicou o que o senhor quis dizer quando falou aquilo. Ele disse que pouco antes de ser morta, Tyla Tomkins entrou em contato sobre alguma atividade criminosa e algo que foi acobertado pela Açúcar Cortinas.

Mas que inferno, Ed. Desde o início, eu tinha deixado claro para ele que a mensagem de Tyla era confidencial.

— Sinto muito, mas não posso falar sobre isso.

— O sr. Brumbel me deu seu celular e disse que o senhor ficaria feliz em explicar.

Que merda, Ed!

— Não, eu não posso fazer isso.

— Então o senhor de fato está c-a-g-a-n-d-o sobre uma possível conexão entre Tyla Tomkins e uma atividade criminosa na Açúcar Cortinas?

— Preciso desligar agora, Hunter.

— Heather. Heather Hunt.

— Estou dirigindo na estrada a 110 quilômetros por hora e estou usando o celular. Isso é perigoso. Boa noite.

Ela ligou de novo, mas eu ignorei. E me atrapalhei com o celular ao tentar ligar para Ed. Sim, ele tinha vindo depois da meia-noite me dar apoio, e talvez eu pudesse ter encontrado uma forma mais delicada de dizer que encontrar Angelina era uma prioridade maior do que processar a Açúcar Big. Mas tagarelar para uma repórter sobre Tyla e eu era uma vingança bem mesquinha.

A ligação caiu na caixa postal. No mesmo instante, minha mente ficou cheia de ideias sobre Ed do outro lado da linha, enchendo Heather Hunt de informações sobre Tyla, eu e qualquer ação que ele estivesse tentando mover contra a Açúcar Cortinas. Deixei uma mensagem:

— Ed, eu confiei que você manteria confidencial a informação de que Tyla pudesse ter vazado informação. Por favor, não diga mais nenhuma palavra para a imprensa. Você está comprometendo uma investigação de homicídio. É tudo o que tenho a dizer.

Deixei o celular de lado, mas minha raiva se manteve pelo caminho todo até Miami. Talvez parte dela estivesse mal direcionada.

Eu ainda tinha que lidar com a bagunça do meu cunhado.

Era uma e meia da madrugada quando cheguei ao prédio de JT. Passei voando pelas lombadas, parei o carro na mesma vaga de quando Samantha e eu morávamos aqui e deixei as chaves no mesmo prato perto da porta. Duas viagens de ida e volta para Palm Beach nas últimas 16 horas, e isso tinha sido a parte fácil do meu dia. Eu estava exausto, mas dormir não era a primeira coisa que eu ia fazer. A conexão com a Cortinas tinha me deixado aflito, mas eu não podia desperdiçar energia nisso. Eu precisava manter o foco. Eu ainda queria ouvir a versão do JT da conversa com a agente Santos, e não me importava se isso significava acordá-lo no meio da noite para tal. Entrei no quarto dele, acendi a luz e o chacoalhei até ele acordar.

— Você disse para a agente Santos que Angelina bate em mim?

Ele piscou, tentando se situar.

— O quê?

Puxei as cobertas, tirei JT do travesseiro e o fiz sentar na borda do colchão, virado para mim. Ele estava usando a camiseta e a bermuda de basquete de sempre.

Repeti a pergunta, tentando não soar excessivamente acusatório, mas àquela altura do campeonato, eu estava perdendo o controle. Os olhos dele estavam se ajustando à luz, mas essa não era a única razão para a reação lenta. Finalmente, ele respondeu.

— Posso ter dito.

— JT, por que você fez isso?

— Eu… hum.

As pernas dele ficaram inquietas, o calcanhar direito batendo no chão como uma britadeira. O rastreador balançava em seu tornozelo.

— Não vou ficar bravo. Eu prometo.

As duas pernas dele começaram a se mexer. A cama estava chacoalhando. Eu precisava recuar um pouco.

— JT, respire, por favor. Quero que você relaxe e me conte por que disse para a agente Santos que Angelina bate em mim.

Ele inspirou pela boca, expirou pelo nariz. Para mim, o movimento parecia estar invertido, mas a maior parte das coisas estava no mundo do JT.

— Eu estava só… só tentando ajudar.

— Ajudar? Ajudar quem?

— Você.

— A mim? Como isso vai me ajudar?

— Ela estava tentando me fazer dizer que você bate na Angelina. E não acreditou quando eu disse que não. Então… eu sei lá, Abe. Eu fui longe demais. Sabe como é, você faz pressão, eu faço pressão de volta. Então foi assim: “Ah, é, você acha que Abe bate na Angelina? Isso é ridículo. É duplamente ridículo. Angelina bate nele. Está vendo, dona?”

À estranha maneira de JT, fazia sentido. Ele estava respirando com tanta força que seu nariz assobiava a cada expiração.

— JT, não comece a hiperventilar.

A respiração diminuiu, mas as pernas inquietas continuaram.

— Que bom que você quer me ajudar — eu continuei. — Mas não me ajuda você dizer que Angelina bate em mim. A agente Santos vai distorcer isso e dizer que era um relacionamento violento, Angelina me bateu vezes demais, e eu finalmente revidei, e Angelina acabou desaparecendo. Ou pior.

— Foi isso que aconteceu?

— Não, JT! Que merda, não!

— Não grite comigo, Abe.

Ele ficou de pé. Eu recuei, na defensiva, mas JT passou direto por mim. O corpo dele parecia estar apenas reagindo àquela necessidade incontrolável de andar de um lado para o outro. Era bem inocente, mas trouxe à tona as palavras de Angelina para mim. Ele me assusta, Abe.

— JT, você está tomando seus remédios todo dia?

— Aham, estou.

Ele estava em movimento constante, de um lado para o outro no pé da cama, de um canto do quarto para o outro.

— Tem certeza?

— Não me chame de mentiroso, Abe.

— Estou só perguntando. Porque sei que você quer me ajudar, certo?

— Quero, claro — ele respondeu, mas as palavras não passavam de grunhidos.

— JT, o melhor jeito de me ajudar neste momento é você se cuidar. Você pode fazer isso por mim?

— Quero ajudar, quero ajudar, quero ajudar. Só isso.

— JT, você pode me prometer?

— Eu só queria ajudar, era tudo o que estava tentando fazer, mas agora eu estraguei tudo, e ninguém nunca mais vai querer minha ajuda. Eu devia ter dito só: “não, vá embora, não posso falar agora, vejo você depois, chata do FBI que eu peguei olhando para o meu pau preto.”

Fui até ele, mas JT estava andando com muita fúria. Se eu não fizesse alguma coisa rápido, ele ia começar a pular pela sala e, por mais engraçado que as pessoas achem que isso é, não tinha nada de engraçado.

— Eu não devia ter dito nada, Abe!

— Não se preocupe. Preciso que você se acalme, pode ser?

— Eu sou um idiota.

— Qual é, JT.

— Idiota, idiota, idiota — disse ele, batendo na testa a cada “idiota”.

— JT, pare com isso!

Eu falei tão alto que me assustei, mas JT não se abalou. Ele abaixou e começou a mexer na tornozeleira.

— Precisamos tirar essa coisa de mim, Abe.

— Não!

— Não posso mais usar essa merda!

Era uma encrenca de que nós não precisávamos. De que eu não precisava. Por instinto, avancei sobre ele antes que tivéssemos um bando de viaturas no estacionamento e a polícia batendo na porta. Meu pé ficou preso na quina da cama, e eu caí. Meu reflexo foi jogar o braço para a frente e amenizar a queda, e bati meu tríceps com tanta força no pé da cama que praticamente vi estrelas.

— Que inferno, JT!

Ele não ouviu, nem chegou a notar. Meu braço estava me matando, mas o problema era a tornozeleira.

— Preciso tirar esta maldita coisa de mim, Abe!

Entrei em desespero. Eu só tinha uma carta na manga, que eu tinha guardado por 19 meses. Eu não tinha certeza se daria certo, mas, se algum dia houve uma ocasião certa para tentar, era aquele dia.

Comecei a cantar.

Eu estava fora do tom, minha voz entrecortada, em parte porque eu era um cantor terrível, mas principalmente porque eu não estava fazendo jus a uma lembrança especial. Era uma música que eu tinha ouvido Samantha cantar para o irmão em momentos ruins, alguns piores do que aquele. Samantha tinha uma linda voz. Não era uma surpresa que tivesse funcionado para ela. Eu estava fazendo o melhor que podia.

— Você pode cantar comigo, JT?

Cantei a primeira estrofe sozinho, com menos força do que o compositor tinha pretendido, sem lembrar em nada o coral da antiga igreja dos dois. Mas foi o suficiente para fazê-lo parar de andar e sentar na borda do colchão. Eu não sabia a segunda estrofe, então comecei de novo, e JT se juntou a mim.

 

Deus me deu um arco-íris

Depois de uma tempestade.

Durante todo o inverno Deus me diz

Que vai esquentar de novo.

Nos momentos difíceis

A graça Dele

Me deixa grato, tão grato.

Sou grato por Ele ser tão grande.

Seja grato.

 

Cantamos duas vezes. JT ficou calmo. Parou de andar, as pernas ficaram quietas. O quarto ficou estranhamente silencioso, uma raridade na minha vida com JT, e eu saboreei aquele momento.

— Tente voltar a dormir — eu disse a ele.

JT deitou na cama e se cobriu. Apaguei a luz e fui em direção à porta.

— Abe? — chamou ele na escuridão.

Parei no batente.

— Pelo que você é grato? — ele perguntou.

A pergunta me atravessou como uma faca, me cortando ao meio. Metade de mim estava dentro de um quarto cheio de memórias de Samantha. Metade está lá fora, em algum lugar, procurando Angelina.

— Boa noite, JT — eu disse, fechando a porta.

 

***

 

Fiz minha cama no sofá e deitei na escuridão. Mesmo com a porta de JT fechada, eu podia ouvir os roncos. Mas não foi isso que me manteve acordado. Eu não conseguia fechar os olhos sem voltar para o hospital. No entanto, os fechei mesmo assim.

Era uma manhã quente de verão, mas Samantha não sabia disso.

Estávamos num hospital por força das circunstâncias. Era a ala para pacientes terminais e, mesmo que as intenções de todos fossem boas, minha cabeça ia explodir se eu ouvisse as palavras “faça ela ficar confortável” mais uma vez. Samantha estava dormindo e acordando por causa dos analgésicos.

Eu mesmo estava meio dormindo, na cadeira ao lado da cama, quando os olhos dela se abriram

— Abe?

— O que foi, querida?

Ela gesticulou para eu me aproximar. Eu me inclinei sobre o protetor da cama.

— Me prometa uma coisa — sussurrou ela.

Pensei que seria nosso momento Ryan O’Neal e Ali MacGraw, nosso próprio Love Story, em que minha esposa me diz no leito de morte que quer que eu me case de novo.

— Qualquer coisa — respondi.

— Me prometa que você vai cuidar do JT.

Peguei a mão dela, aquela mão esquelética.

— Prometo.

Samantha teria se apoiado em um cotovelo, mas não teve forças. Ela me olhou bem nos olhos.

— Não, não diga só “prometo”. Fale isso para mim. Diga, “Samantha, eu prometo a você, vou cuidar do JT”.

Eu engoli com dificuldade. Eu estava tentando não apertar os dedos dela com muita força, ela parecia tão frágil, mas estava esmagando os meus com a força que ainda tinha.

— Samantha, eu prometo a você, vou cuidar do JT.

Uma paz pareceu tomar conta dela. Ela soltou minha mão, recostou no travesseiro e fechou os olhos.

Não foi a última coisa que eu disse para minha esposa. Mas tenho bastante certeza — aliás, certeza absoluta — de que foram as últimas palavras que Samantha Vine ouviu.