Uma Mulher Perfeita
Capítulo sessenta e um
Victoria saiu da residência dos Beckham às dez da manhã. A detetive Reyes ficou para trás para encerrar as atividades da cena do crime.
Seu destino era o escritório de Jeffrey Winters, mas ela fez o caminho mais longo, pegando a via expressa, saindo ao norte do centro em Overtown e atravessando o distrito em um ziguezague pelas ruas de mão única. Ela tinha se recusado a fazer qualquer comentário para a mídia do lado de fora da casa, e diversos repórteres a tinham seguido, curiosos para saber aonde ela e a história estavam indo. Pelo menos dois carros continuaram atrás dela durante todo o distrito do design.
— Vamos dar mais uma volta, crianças — comentou ela ao olhar pelo retrovisor.
Victoria voltou para a via expressa e começou a jornada inútil de novo, decidida a repeti-las tantas vezes quanto necessário até se livrar da perseguição. Sua preocupação não era tanto pela mídia em si. Na verdade, ela não queria que Abe soubesse pela cobertura de imprensa ou de outro jeito que o FBI estava prestes a falar com Angelina sem ele.
Na terceira volta pela cidade, a última van da mídia tinha desistido e desaparecido de seu retrovisor. Ela parou na rua do prédio de Winters, entrou e pegou o elevador até o último andar. A recepcionista jovem e atraente pareceu educada para Victoria, mas não muito esperta — na verdade, uma sonsa, alguém que iria para as audições de American Idol usando um biquíni e iria embora chorando porque ninguém tinha contado para ela que era necessário saber cantar. A jovem fez um cumprimento caloroso, que se tornou menos entusiasmado quando Victoria se apresentou.
— Você é agente do FBI? Sério?
— Sou. Sério.
— O dr. Winters está esperando você?
— Só se ele for esperto.
A recepcionista não fazia ideia de como lidar com aquilo. Aflita, ela interfonou para a assistente de Winters, informou que a “Miss Simpatia” estava no lobby e pediu para Victoria se sentar. Ela foi para a sala de espera e observou a impressionante coleção de arte do escritório, que tendia para o ultramoderno. Que provavelmente tinha vindo da Art Basel. Ou de um traficante de drogas que não tinha conseguido pagar os honorários do advogado em dinheiro.
— Sinto muito — disse a recepcionista. — Como é seu nome mesmo?
Victoria se perguntou quanto tempo levaria para ela corrigir a confusão da “Miss Simpatia”. Ela esclareceu tudo e voltou a olhar para as obras.
A história de Beckham sobre a tentativa de suborno tinha sido intrigante, e Victoria sabia exatamente aonde Abe estava indo com isso. Sem dúvida, uma nova conversa com Brian Belter estava na agenda. Mas, primeiro, ela queria saber o que o advogado de Angelina achava disso.
— O dr. Winters vai recebê-la agora — a recepcionista avisou.
Victoria a acompanhou pelo corredor até uma sala de conferência vazia. Ela sentou diante da mesa com tampo de vidro e esperou.
Não demorou muito até Winters e um de seus associados entrarem. Eles pareceram surpresos que Victoria estivesse sozinha, e não a dupla clássica do FBI. Ela não se deu ao trabalho de explicar que tinha sua própria maneira de fazer as coisas quando extrapolava os limites de sua autoridade no FBI, o que era uma razão por que ela estava de volta a um escritório regional e não mais em Quantico, no que deveria ser o auge de sua carreira. Todos se apresentaram e ocuparam lados opostos da mesa, dois contra uma.
— Sua cliente é bem-vinda para se juntar a nós — disse Victoria.
— Vamos dispensar— respondeu Winters, sorrindo.
— Tudo bem. O marido está falando bastante por ela.
O sorriso desapareceu.
— Falou onde?
— Não estou falando de um lugar específico. Em toda parte.
Os advogados trocaram olhares desconfortáveis, e então Winters se concentrou em Victoria.
— O dr. Beckham está falando diretamente com você?
— Claro.
— Sobre o quê?
— É o que quero discutir com vocês. Sabe, estou trabalhando muito na força-tarefa do Cortador, e minha conclusão é que Tommy Salvo não teve nada a ver com o assassinato de Tyla Tomkins. Conversei com Abe Beckham sobre isso, e ele está fazendo pressão na direção de Brian Belter. Você conhece o dr. Belter, tenho certeza.
— Sim, eu o conheço. Sócio administrativo da BB&L, advogado da Açúcar Big.
— E supervisor de Tyla Tomkins. Então entendo totalmente a teoria de Abe. O sócio sênior está dormindo com Tyla Tomkins, a estrela em ascensão. Tyla ganha acesso à Açúcar Cortinas, que apenas alguém que está dormindo com Brian Belter teria. Ela visita a plantation da empresa na Nicarágua e é testemunha de práticas comerciais estarrecedoras, para depois voltar para Miami e pedir para um “velho amigo” no escritório da promotoria ver se alguma coisa podia ser feita. Belter descobre que ela está falando com as autoridades, talvez até que Abe Beckham é seu novo amante casado favorito, o que o deixa ainda mais furioso. De repente Belter pode perder a esposa, a amante, seu melhor cliente e tudo o que importa para ele. Tyla Tomkins aparece morta.
— Honestamente, eu não faço ideia do que você está falando — disse Winters.
— Sua cliente sabe, então tome nota, Júnior — respondeu, olhando para o associado.
— Minha cliente não sabe nada sobre a morte de Tyla Tomkins — disse Winters.
— Vamos torcer para você estar certo. Mas Angelina ainda precisa se preocupar. A teoria do marido dela sobre Brian Belter tem falhas, e eu pretendo escancarar essas falhas. Quando fizer isso, Abe Beckham vai perceber que é inútil continuar apontando o dedo para Brian Belter. Quando isso acontecer, ele vai apontar o dedo em outra direção.
Winters não respondeu, mas estava claro que tinha entendido perfeitamente a implicação de Victoria: Angelina seria o próximo bode expiatório de Abe.
— Tem se falado muito sobre homicídio — continuou Winters. — No momento, a única preocupação de Angelina é uma possível acusação criminal por se fazer desaparecer.
— Está tudo ligado — disse Victoria. — Sabe, eu vi o vídeo do YouTube e não acho que Angelina fugiu por medo do Cortador. Acho que ela fugiu por medo do marido. Mas, ao contrário de alguns amigos na unidade de violência doméstica da polícia de Miami-Dade, eu não acredito que Abe era um marido violento crônico. Acho que foi um incidente isolado. Angelina descobriu alguma coisa sobre Tyla. Especificamente, sobre seu assassinato. Acho que ela confrontou Abe, que tinha sua própria versão dos eventos, e Angelina ficou com medo ou se recusou a participar disso. Então ela fugiu.
Winters não demonstrou reação, mas o associado escrevia furiosamente. Victoria tinha plantado as sementes.
— Tudo isso é muito interessante — respondeu o advogado.
— Tem mais — ela continuou.
Ela colocou seu iPad sobre a mesa e abriu as fotos de Tyla e Abe no restaurante.
— Eu vi essas fotos — comentou Winters. — São as fotos que o assassino deixou na caixa do correio dela.
— Outra informação errônea no vídeo de Angelina — disse Victoria. — Ela não recebeu as fotos do Cortador.
— Então quem mandou?
Victoria chegou mais perto, para ter a atenção completa dele.
— Abe Beckham.
O associado parou de escrever. Nem Winters conseguiu esconder sua surpresa.
— Por que ele faria isso?
— Para criar a impressão de que o Cortador matou Tyla, não Abe Beckham. Expor-se como um adúltero é melhor do que ser condenado por assassinato.
— Você tem certeza disso? — ele perguntou. — Abe mandou as fotos?
— Ainda não — respondeu Victoria. — Mas vou provar. E, se sua cliente sabe o que é melhor para ela, vai parar de fazer o jogo do marido e me ajudar.