Uma Mulher Perfeita
Capítulo quarenta e cinco
Saímos da delegacia de Miami-Dade às oito horas. Rid dirigiu meu carro e foi para casa ver sua esposa. Eu não sabia ao certo onde passar a noite. Eu não tinha certeza se seria capaz de lidar com JT. Dirigi rumo ao oeste na Tamiami Trail até chegar à ponte. Parei no acostamento, andei até o guarda-corpo e olhei para a noite. Não havia nada além da escuridão dos Everglades à minha frente. A margem ao longo do canal não era mais uma cena de crime. A busca por Angelina nesse trecho estava encerrada, pelo menos naquela noite. Talvez eles voltassem de manhã. Talvez uma nova pista surgisse à noite e mudasse a busca para outro local. Talvez uma notícia sinistra desse fim a todas as esperanças.
O pensamento fez minha cabeça girar.
Estávamos chegando ao fim da importante marca de 48 horas desde o desaparecimento de Angelina. O tempo estava passando. Algumas pessoas diziam que as primeiras sessenta horas eram cruciais, mas se você ouvir isso, provavelmente está falando com um homem que está na quadragésima nona hora de busca pela esposa. Eu tinha perguntas que precisavam ser respondidas antes que fosse tarde demais. Liguei para Rid.
— Por quanto tempo o Cortador manteve as vítimas antes de matá-las?
— Abe, não faça isso com você mesmo.
— Eu preciso saber. Quanto tempo nós temos?
— Varia.
— Qual foi o máximo de tempo que ele manteve viva uma vítima?
— Não é uma ciência exata. Você precisa saber exatamente quando a vítima desapareceu, e a estimativa do horário do óbito é sempre isso, uma estimativa.
— Tudo bem, estamos fazendo uma estimativa. Qual foi máximo de tempo que ele manteve qualquer uma das vítimas antes de matá-la? Três dias? Dois dias? Um?
Rid não respondeu de imediato.
— Menos — disse ele finalmente.
— Uma questão de horas, então.
— Sim. Com exceção da primeira.
— Ela ficou viva por mais tempo? — perguntei, esperançoso.
— O corpo dela foi encontrado queimado no canavial. Não dá para fazer uma estimativa do horário da morte, então não temos como saber quanto tempo se passou entre o desaparecimento e a morte dessa vítima.
Parei para respirar.
— Certo. Tudo bem. Isso ajuda.
— Não ajuda, não. Siga o conselho de Carmen e vá dormir, Abe. Isso vai ajudar.
Desligamos. Dei mais uma olhada nos Everglades, uma vista panorâmica, meus olhos varrendo a escuridão. Eu me perguntei quantos corpos aquele impressionante corpo hídrico nunca tinha liberado. E me perguntei se Angelina estaria entre eles. Ela tinha me avisado, na verdade. Ouso dizer que ela tinha previsto esse momento. Eu tinha me esquecido dessa conversa, mas as palavras voltaram para mim como uma enxurrada no quarto de JT depois que cantamos juntos, quando ele me chamou no escuro e perguntou, “Pelo que você é grato, Abe?” Angelina tinha me perguntado a mesma coisa de uma forma um pouco diferente, com um tom de voz muito diferente. Aliás, Angelina estava gritando, chorando, lágrimas escorrendo por seu rosto.
— Mas que inferno, Abe! Sou gentil, sou bonita, eu mereço ser mais bem tratada do que isso. Um dia você vai parar de lamber suas feridas, vai parar de viver no passado, e acordar. Mas vai ser tarde demais! Porque não vou estar mais aqui, e então você vai perceber como sente a minha falta.
Seja grato.
Dei a partida no carro. Meu telefone tocou. Era o JT. Quase não atendi. Eu tinha certeza de que ele ia me pedir para ir para lá. Só mais um toque, e ia cair na caixa postal. Alguma coisa me fez atender. Ele não parecia nada calmo.
— Abe, você precisa vir para cá agora!
Eu sabia.
— O que foi desta vez, JT?
— A polícia está aqui.
— O quê? Por quê?
— Eles têm um mandado.
Estava difícil pensar com clareza, mas o conselho casual de Rid ecoou claramente na minha cabeça. Você provavelmente precisa de um advogado. Tinha sido um grande aviso de um amigo que não podia me dizer abertamente o que estava acontecendo, e eu tinha ignorado.
— JT, escute com cuidado. Não interfira no trabalho da polícia. Mas quero que você repita estas palavras: “Policial, eu não autorizo a busca de nenhum item que não esteja listado no mandado, e eu não autorizo a busca em qualquer lugar não descrito no mandado.”
— Certo.
— Não, não diga “certo”. Repita o que eu acabei de falar.
Ele tentou. E se enrolou.
— JT, onde os policiais estão agora?
— No meu quarto.
— Fique na linha, entre no quarto, pare em um lugar onde os policiais possam ouvir você. Vou repetir exatamente o que você deve dizer.
— Certo — disse ele, eu percebi que JT estava se movendo. — Estou no quarto.
Repeti o mantra em trechos curtos, e pedi para ele repetir alto o bastante para os policiais, os vizinhos e até os mortos ouvirem. Policial, eu não autorizo…
— Muito bem — eu disse. — Agora aguente firme, estou chegando.