Uma Mulher Perfeita
Capítulo quarenta e sete
— Peguei o jornal com a Samantha — explicou JT.
Éramos só ele e eu na sala de TV. A polícia tinha ido embora. Nada de celular. Tinham levado só o exemplar velho do Miami Tribune. Peguei as almofadas do sofá do chão e as recoloquei exatamente onde estavam antes, então pedi para JT sentar. Ele me ignorou e ocupou seu pufe laranja.
— É a merda do seu sofá, Abe. Sente nele.
— Foi o que fiz.
— Quando você diz que pegou o jornal com a Samantha, está dizendo que ele estava aqui, como o sofá e todos os outros móveis, e você encontrou por acaso quando se mudou para cá? Ou que ela literalmente deu o jornal para você?
— Foi um presente — falou ele.
— Quando foi?
— Pouco antes de ir para o hospital — respondeu ele, engolindo em seco. — Da última vez.
Não era nosso assunto favorito.
— Me conte o que aconteceu.
JT grunhiu, apertando os olhos com a base das mãos, claramente não querendo embarcar nessa viagem.
— JT, isso é muito importante.
— Tudo bem! — respondeu ele, com raiva na voz.
Dei um minuto para meu cunhado. Ele se recompôs.
— Samantha me disse que provavelmente não ia mais voltar para casa. — ele fez um pausa para recuperar o fôlego. — Ela disse, “JT, a mamãe morreu. Devon se foi. O papai não vai durar muito. Quando eu me for, só vai ficar você”.
Devon era o irmão mais velho, que eu não tinha conhecido.
— Continue — pedi.
— Foi quando ela me contou a história.
— Que história?
— A maldita história do jornal, Abe. Meu velho era um desses homens que as empresas de açúcar traziam do Memphis como escravos. Faz parte da nossa família. É uma parte da história. Precisamos cuidar dela, passá-la adiante. Informar as pessoas que a escravidão não acabou em 1865.
— Onde ela conseguiu o jornal?
— Onde você acha? Ela disse que havia mais coisas.
— Mais coisas?
— Sim, Luther tinha um monte de merda de quando era cortador de cana. A empresa o fez comprar com seu próprio dinheiro: um cobertor, todas as roupas e o equipamento. Ele é tão pão-duro. Se Luther comprou, então ele guardou.
Eu me lembrava dessa parte da história. Antes que a primeira fileira de pés de cana fosse cortada, os homens estavam tão endividados que nunca iam conseguir sair da plantation. Pelo que eu me lembrava, também faziam cada trabalhador comprar um facão. Não entrei nessa questão. Não especificamente.
— Onde está o resto das coisas?
— Não sei, Abe. Ela me deu a matéria de jornal e falou que o resto estava em uma caixa em algum lugar. Nunca fui procurar. Samantha disse que eu precisava passar aquilo para a próxima geração, mas para quem vou passar alguma coisa, Abe?
— Samantha contou onde a caixa estava?
— Está com todas as merdas antigas do meu velho. Não sei onde. O que aconteceu com as coisas dele quando vocês o colocaram no asilo?
Finalmente, uma pergunta que eu sabia responder.
— Está num depósito — respondi.
Com alguns outros artigos pessoais de Samantha, coisas que não fui capaz de doar para a caridade, e que eu sabia que Angelina não ia querer na nossa casa.
— Então é lá que está — disse JT. — No depósito. Mas por que isso importa? Por que tudo isso importa?
— Não importa — respondi.
JT levantou do pufe e começou a andar de um lado para o outro.
— Importa para Santos. Aquele mulher é louca. Ela apareceu na minha casa noite passada, fazendo perguntas como se tivesse sido você quem matou a Angelina. Agora ela vem para a minha casa com um mandado de busca, agindo como se eu tivesse matado a sua mulher. Ou talvez ela ache que eu matei todas essas mulheres. É isso que ela acha, Abe?
— JT, relaxe. Ela não acha que você matou ninguém. Santos está colocando pressão em você para colocar pressão em mim.
— Então ela acha que eu não fiz nada?
— Não.
— Ela acha que você fez?
Desviei os olhos de JT, para o meio da sala.
— Honestamente, não sei mais o que ela acha.
Levantei do sofá e peguei a chave do carro no bolso.
— Aonde você vai? — meu cunhado perguntou.
— A lugar nenhum — respondi, indo em direção à porta.
Ele veio atrás.
— Como assim, a lugar nenhum? Você está indo a algum lugar.
Abri a porta.
— Vá dormir, JT.
Ele me segurou pelo braço.
— Aonde você vai, Abe?
Não respondi, mas minha expressão estava dura o bastante para fazê-lo soltar meu braço.
— Vou procurar algumas respostas. Tranque a porta e vá dormir.
Não esperei amanhecer. O Depósito AAA ficava aberto 24 horas por dia, sete dias por semana. Fui para casa, peguei a chave da unidade e dirigi até o depósito. O prédio de cinco andares estava deserto e parecia mais um mausoléu. Os sensores acionaram as luzes do lobby quando eu entrei.
A unidade 403 ficava no quarto andar. O elevador não estava funcionando, então subi a escada. Tecnicamente, o prédio tinha ar condicionado, mas eu estava suando nos degraus. Mais suor quando atravessei o corredor. Talvez fosse o ar parado. Talvez fossem os meus nervos.
Abri a porta de metal que parecia a de uma garagem. Estava mais fresco do lado de dentro do que no corredor, mas foi minha única sensação de alívio. As memórias me encararam, dificultando minha entrada.
Minha última visita à unidade 403 tinha sido seis meses depois do funeral de Samantha. Eu tinha doado alguns pertences dela. Outros, achei que deveria guardar, mas não necessariamente em casa, ainda mais depois que comecei a namorar Angelina. Carmen tinha passado pelo mesmo exercício com a morte do marido. Ela me disse para olhar uma gaveta ou um armário por vez e fazer três pilhas: das coisas para guardar, das para doar/jogar no lixo e uma pilha “não sei ao certo o que quero fazer com isso”. Era uma linha tênue entre “Guardar” e “Não tenho certeza”. Por um lado, era inútil guardar um diploma emoldurado, mas ele representava quatro anos da vida de Samantha. E quanto à enorme casa de bonecas que Luther fez para a filhas com as próprias mãos e que Samantha estava guardando para a própria filha?
Entrei na unidade e vi as coisas que eu tinha embalado com tanto cuidado, ainda sem saber o que fazer com elas. Aquilo tudo tinha ido parar na unidade 403 — junto aos artigos pessoais que Samantha tinha levado do apartamento de Luther quando ele foi para o asilo. Ela tinha lacrado as caixas, escrito o nome do pai com caneta preta e guardado tudo na nossa garagem. Eu nunca tinha olhado dentro de nenhuma dessas caixas. Elas tinham ficado lacradas desde que Samantha as embalou. Quando ela morreu, “Luther Vine” era a maioria da minha pilha “Não tenho certeza”, mas em grande parte era por procrastinação minha. Eu planejava cuidar delas um dia.
Aquele era o dia.
As caixas estavam empilhadas do chão ao teto à esquerda. Comecei de cima, levando duas caixas por vez para o corredor e cortando a fita com a chave. Eu não fazia ideia por que Samantha tinha guardado algumas das coisas de Luther. Quem precisa de um Guia de TV de 1972?
Meu chute era que ela tinha embalado o apartamento todo sem decidir o que guardar e o que descartar. Se Luther tinha guardado alguma coisa, era importante. Eu entendia. Era uma aposta segura que, dez minutos depois de jogar fora o Guia de TV, Samantha teria recebido uma ligação urgente da clínica de repouso: “Ei, o que aconteceu com aquele guia de 1972?”
A nona caixa chamou minha atenção, mas só depois que a tirei do alto da quarta pilha. Do lado que estava encostado na parede, que não estava visível, em letras pretas, Samantha tinha escrito: “Luther Vine 1941. GUARDAR.”
Levei a caixa para o corredor e a coloquei no chão. Com a parte mais afiada da chave rasguei a fita. Abri as abas. Havia toda a antecipação ao abrir uma cápsula do tempo, com a diferença de que eu sabia exatamente o que estava procurando.
Um cobertor velho estava por cima, bem dobrado. Eu o tirei e deixei no chão. Embaixo, encontrei um grupo aleatório de coisas. Algumas eram fáceis de reconhecer, e foram as que tirei primeiro. Um cantil para água. Uma lancheira de adulto. Um par de luvas de trabalho. Botas pesadas com biqueira de aço. Outras coisas eu tive que olhar mais de perto para entender o que eram. Um par de joelheiras de metal. Munhequeiras. Havia até um crachá com o nome de Luther, identificando-o como funcionário da Companhia Nacional de Açúcar. O registro de pagamento e o controle das tarefas era interessante. Dizia que Luther tinha cortado 43 toneladas de cana na primeira semana de trabalho. Ele devia à empresa 19 dólares e 27 centavos.
Esvaziei totalmente a caixa, a parte da história sombria de Luther espalhada pelo chão. Voltei para dentro da unidade e procurei em mais caixas, mas só havia uma de 1941. Olhei uma segunda vez. Fiquei lá até meia-noite.
Não encontrei o facão de cortar cana.