Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 8 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo oito

 

Eram quase dez horas da noite quando meu dia de trabalho terminou.

Minhas audiências tinham continuado noite adentro, seguidas de duas horas de preparação de uma testemunha na minha sala. Eu voltaria de manhã cedo. O nome oficial do principal espaço do escritório da promotoria do condado de Miami-Dade era Graham Building, mas eu o chamava de Bumerangue. O prédio tinha duas alas, e a planta tinha o ângulo de um bumerangue, mas a graça tinha mais a ver com o fato de parecer que eu nunca conseguia ir embora sem voltar.

Liguei para a agente Santos do carro e deixei uma mensagem curta:

— Alguma novidade?

Desde o nosso telefonema na hora do almoço, eu não tive mais notícias nem de Santos nem da unidade de homicídios da polícia de Miami-Dade. Teria sido um protocolo padrão da investigação visitar o apartamento de Tyla e entrevistar qualquer pessoa que a conhecesse, o que resultaria em algum tipo de atualização. Chequei duas vezes meu celular para ver se havia alguma mensagem quando parei num semáforo vermelho. Nenhuma de Santos, várias de JT.

O semáforo ficou verde, mas mantive o pé no freio por um instante, decidindo meu próximo passo. Angelina provavelmente teria preferido que eu deixasse JT quieto, mas ela estava no chá de bebê de uma amiga — o que com certeza tinha relação com a nossa conversa do almoço — e não vi nenhuma necessidade urgente de voltar direto para uma casa vazia. Trinta dias de prisão domiciliar sem pelo menos uma visita por dia de alguém parecia uma punição cruel e incomum. Virei à direita e fui para o apartamento de JT. Ele ficou tão feliz em me ver que mal consegui cumprimentá-lo em meio ao seu abraço de urso.

— Obrigado, Abe. Obrigado por vir.

JT estava vestindo um short de corrida e uma camiseta, pronto para ir para a cama. Estava com a boca cheia de espuma de pasta de dente e a escova na mão.

— Tomei meu remédio um tempo atrás, então vou dormir logo.

— Tudo bem.

— Já volto. Sinta-se em casa — disse ele escovando os dentes enquanto subia a escada para ir para o quarto.

Sinta-se em casa. Eu não tinha certeza se JT estava tentando ser engraçado ou se simplesmente tinha se esquecido de que eu já tinha morado ali com sua irmã. Fui até a sala de TV e liguei no noticiário local. Os destaque era o brutal assassinato da advogada de Miami Tyla Tomkins, o que me envolveu imediatamente. Os vizinhos a descreviam como “a pessoa mais gentil que você já conheceu”, mas a matéria também mencionava que Tyla era “a segunda mulher afro-americana a ser tornar sócia no maior e mais antigo escritório de advocacia de Miami, Belter, Benning & Lang”. O sócio-administrador grisalho, Brian Belter, falou sobre “uma advogada brilhante formada em Harvard que estava determinada a contribuir com a comunidade”.

A foto de Tyla apareceu de novo na tela, e eu fiquei hipnotizado.

— Abe, você ouviu o que eu disse? — perguntou JT.

— Hã?

Ele entrou na sala. Sua boca não estava mais cheia de espuma de pasta de dente, mas JT continuava escovando entre as frases.

— Meu Deus, Abe. Você pode pelo menos fingir que está ouvindo? Estou perdendo meu tempo aqui.

— Desculpe. Eu estava concentrado na TV.

Ele desabou no sofá ao meu lado. JT estava escovando os dentes furiosamente, mas continuava não havendo espuma.

— Você está usando pasta de dente? — perguntei.

— Só água. Estou tirando a pasta de dente.

— Por quê?

— Todo mundo tira a pasta de dente.

— Não tira, não, JT. E pare de escovar com tanta força. Assim a sua gengiva vai sangrar.

Ele continuou a escovação, os olhos fixos na tela da TV.

— É o caso de assassinato em que você está trabalhando?

— É.

— Você a conhecia?

— Conhecia quem?

— A vítima.

— Por que você me perguntaria isso?

— Por que você trabalharia o dia todo e depois sentaria na frente da TV para ouvir mais sobre ela? Eu tenho ESPN, sabia?

Peguei o controle remoto e mudei de canal.

JT escovou os molares e parou.

— Você ainda não respondeu minha primeira pergunta.

— Você está falando da que eu não ouvi?

— Tudo bem, vou perguntar de novo. Quando estávamos no tribunal ontem, por que você contou para a juíza que eu sou bipolar?

— Eu não contei.

— Você deveria ter dito a verdade, que eu sofro de estresse pós-traumático.

— JT, você não sofre de estresse pós-traumático.

— Então teve de dizer para todo mundo que sou bipolar, é isso?

— Eu não falei para ninguém que você é bipolar.

— As pessoas não são burras, Abe. Todos esses remédios que eu tomo são para bipolaridade.

— Eu não mencionei o nome de nenhum remédio.

— Mencionou, sim.

— Não mesmo.

— Eu ouvi — insistiu JT com firmeza, batendo a escova com força na almofada do sofá. — Você contou para eles.

Eu tinha certeza de que não tinha falado, mas sabia muito bem como era contraproducente discutir quando JT “sabia” que estava certo. Ele ia bater o pé, se tornar assertivo e em seguida ficar agitado. Depois, sentiria uma compulsão por andar sem parar. Sentar, levantar e andar mais um pouco. Sentando na cadeira, levantando da cadeira, indo de um lado para o outro. Talvez ele até fosse para outro cômodo, ainda escovando os dentes e argumentando. JT passaria a noite em claro, talvez duas noites. Talvez pudesse pegar um ônibus e fazer uma viagem de três horas, andando sem parar pelo corredor.

Não ia terminar bem.

— Sinto muito, JT, eu deveria ter sido mais cuidadoso.

— Sentir muito não resolve, Abe. Nós já conversamos sobre isso.

Era verdade. Incontáveis vezes, a mesma conversa, sem parar. “Ruminação” era como o médico tinha descrito isso.

— Vou prestar mais atenção da próxima vez — eu disse.

Ele voltou a escovar os dentes, em sua missão bizarra de remover qualquer vestígio de pasta de dente, mas em seguida parou.

— Estou cansado — anunciou JT. — Vou deitar. Você vai passar a noite aqui?

— Não. Vou para casa ficar com Angelina.

— E amanhã à noite?

— Acho que não.

— E na outra?

— JT, você precisa…

Comecei a falar o que eu gostaria de dizer, no tom que eu gostaria de poder usar, mas parei. Não era culpa dele. Mas, meu Deus, como isso tudo era cansativo.

— JT, a gente se fala amanhã, pode ser?

— Tudo bem. Ah, mais uma coisa.

— O quê?

Ele veio até mim e encostou a cabeça no meu ombro, em um abraço desajeitado.

— Obrigado, Abe.

— De nada, JT.

— Sei que não é fácil para alguém de inteligência média ter um cunhado que é um gênio.

Mais uma vez, não era fácil saber quando JT estava brincando, mas ele finalmente riu.

— Você caiu por um segundo, não foi, parceiro?

— Boa noite, JT.

Esperei ele subir a escada e voltei para o noticiário. A cobertura noturna sanguinolenta do telejornal havia mudado para o roubo de uma loja de conveniência em Hialeah. Eu me acomodei no sofá e mandei uma mensagem de texto para Angelina para perguntar que horas ela planejava chegar em casa.

Logo, veio a resposta. Umas onze. Respondi, mas não contei onde estava. Eu honestamente não sei o que a teria incomodado mais: o fato de eu estar com JT ou estar no apartamento que Samantha e eu um dia dividimos. Nós não falávamos muito sobre ela. O nome só parecia vir à tona quando Angelina e eu estávamos discutindo por causa de JT. Não que uma segunda esposa devesse fazer da primeira um tema de conversas noturnas, mas em algum momento eu esperava por, pelo menos, uma conversa séria. Quando o câncer foi diagnosticado? Por quanto tempo você soube que ela ia morrer? Vocês conversaram sobre o que você iria fazer depois que ela morresse? Você acha que tudo acontece por uma razão? Eu não conseguia me lembrar de nenhuma pergunta importante que Angelina tivesse feito sobre Samantha, com exceção de uma. Era tarde, estávamos na cama, e eu estava num estado de semiconsciência depois de fazer amor. Senti o braço de Angelina deslizar pelo meu peito e senti o vinho em seu hálito.

— Samantha foi a única negra com quem você se relacionou?

Meus olhos piscaram e se abriram na escuridão.

— O quê?

— Você me ouviu.

— Que diferença faz?

— Eu quero saber. Então faz diferença.

Eu não sabia ao certo por que Angelina queria saber. Talvez nem ela soubesse por quê. Mas a pergunta tinha sido um lembrete frio do lugar complicado que era minha cabeça. As respostas nunca eram simples. Nos tempos do colégio, eu costumava ler o caderno de esportes do Miami Tribune antes de sair de casa todas as manhãs. Durante o julgamento de O. J. Simpson, meu colunista favorito escreveu um texto sobre racismo. “As sutilezas do racismo”, foi o título que ele escolheu. Para a maioria dos brancos, dizia o artigo, era mais fácil imaginar os negros fazendo sexo do que imaginá-los com a palma das mãos suando num baile da escola. Mais tarde, depois de adulto, eu entendi o que ele estava dizendo. Quando adolescente, não entendi nada. Tudo o que sabia era que, sempre que olhava para Shawna Jones sentada ao meu lado na sala de estudos no primeiro ano do ensino médio, eu basicamente queria fazer sexo. As mãos suadas e a dança não vieram até muito tempo depois. Então todas aquelas noites em que ficava deitado na cama pensando em Shawna, eu carregava a culpa e a vergonha de ter sujado os lençóis, o que só provava que eu era, para meu colunista favorito, um racista.

Meu celular tocou. Era minha chefe. Na verdade, a chefe do meu chefe. A ligação vinha de Carmen Jimenez, a promotora sênior que tinha me contratado recém-saído da faculdade de direito e aprovado todas as minhas promoções desde então. Não era sempre que Carmen me ligava depois das dez da noite. Aliás, a última vez de que eu me lembrava de um telefonema a essa hora tinha sido durante um protesto de rua.

— O que foi, Carmen?

— Você está sozinho?

— Estou, por quê?

— Abe, normalmente eu diria que não é da minha conta, mas acho que você sabe por que eu preciso perguntar: você estava tendo um caso?

Levei um susto com a pergunta, mas era o estilo de Carmen. A maioria dos advogados começaria um depoimento perguntando onde a testemunha morava, seu histórico profissional. Carmen, na sua época, ia direto para a jugular desde a primeira questão.

— Se eu estava tendo um caso?

— Exato, é o que eu estou perguntando — disse ela. — Você estava tendo um caso?

Como promotor, eu sabia melhor que a maioria das pessoas que a única maneira de reagir a uma pergunta direta era com uma resposta direta. Incontáveis foram as vezes em que eu havia me colocado diante de um júri e retratado uma testemunha como mentirosa por desviar de uma pergunta respondendo com outra. Mas lá estava eu.

— Por que você me perguntaria isso?

— Não precisa dizer mais nada — disparou Carmen.

— Espere um segundo. Eu não disse que estava. Eu não estou.

— Você conhecia Tyla Tomkins?

— Conhecia. Há muito tempo atrás.

— Certo. Pode parar aí, porque sei que você mentiu para mim pelo menos uma vez. E quando você mente para mim, se torna pessoal.

— Eu não estou mentindo!

— Abe, se acalme, ok? Não falo como inimiga, mas você vai ter que responder algumas perguntas difíceis, e vai precisar se sair melhor do que fez comigo. Victoria Santos exigiu uma reunião com a gente amanhã cedo no primeiro horário.

— O quê? Por que o FBI está se envolvendo nisso?

— É direito dela. E sempre que o FBI enfia o nariz no meu escritório, eu preciso seguir o protocolo à risca.

— Não estou vendo o porquê desse drama todo. Eu ia contar para você sobre Tyla amanhã.

— Que bom. Vamos deixar assim. Durma com essa informação, organize as coisas na sua cabeça, e amanhã de manhã tudo vai correr bem. Não fale coisas para que possam cavar um buraco maior do que aquele em você já está.

— Que buraco?

— Abe, eu não posso orientar você. Isso é o máximo que eu posso falar aqui pelo telefone. Santos é esperta. Não minta para ela. Vamos conversar de manhã. Na minha sala. Oito em ponto.

— Ok. Nos vemos amanhã.

Quando desligamos, minhas próprias palavras ecoaram na minha mente. Por que você me perguntaria isso?

Por que essa tinha sido minha resposta é algo que nunca vou saber. Carmen estava do meu lado, e se eu tivesse dito apenas “não”, ela teria comprado a briga por mim e dito a Santos para engolir sua lista de perguntas. Eu não tinha dado escolha se não deixar a reunião acontecer e “seguir o protocolo à risca”. Ela não tinha especificado qual era esse “protocolo”, mas eu não era um incauto. Tinha sido um dia bizarro, do cadáver inchado e sem cabeça no escritório do legista até minha esposa pedir para ter um filho minutos antes de a identificação oficial do que parecia ser a quinta vítima do Cortador. Eu estava em circunstâncias complicadas, que atenuavam a linha que divide o pessoal e o profissional. Mas também sabia que Carmen Jimenez não estava apenas sendo curiosa. Claro que eu teria de responder perguntas sobre qualquer relação com uma vítima de assassinato, e a promotoria tinha o direito de saber se era uma coisa antiga ou alguma informação que poderia estar nas manchetes de amanhã. Eu não sabia ao certo como colocar em palavras, mas, na essência, eu estaria respondendo à pergunta que Angelina tinha me feito no escuro e na privacidade do nosso quarto.

Não, Samantha Vine não tinha sido minha única negra com a qual me relacionei.

Abri o calendário do meu celular e agendei a reunião para as oito da manhã. No escritório da promotoria. Último andar do Graham Building.

O Bumerangue.