Uma Mulher Perfeita
Capítulo cinquenta e seis
Fizemos o vídeo em um take. A única falha técnica era eu. Eu me recusei a usar maquiagem, olheiras ou não. Não importava, na verdade. Eu era o marido apaixonado sentado à direita da esposa. Jake e Margaret eram os pais aliviados à esquerda da filha. O foco era Angelina, que leu a declaração pré-roteirizada em um tom perfeito.
— Sinto muitíssimo pela dor que causei à minha família e aos meus amigos, e pelos problemas e inconveniências que causei às autoridades e aos muitos voluntários que se ofereceram para ajudar. Decisões feitas com base no medo nunca são boas, e tomei uma decisão terrível que desapontou todos vocês. Não tenho o direito de pedir perdão, mas espero que vocês entendam que eu realmente agi porque estava temendo pela minha vida. Foi só porque achei que não tinha escolha…
Ela fez todas as pausas nos lugares certos. A voz tremeu de maneira convincente. O cinegrafista precisou de trinta minutos para finalizar o vídeo.
Ele seria colocado no YouTube às nove da manhã, mas a febre da mídia tinha começado mais cedo com o release, que às oito e meia tinha se tornado viral. Desliguei meu celular para a filmagem e, quando liguei de novo, minha caixa de entrada tinha sido invadida por uma enxurrada de mensagens e ligações perdidas. As maioria era de pessoas que eu não conhecia, jornalistas e blogueiros aleatórios em busca de declarações para embelezar o release. Mas outras eram importantes. Eu devia a Carmen e Rid uma explicação. A agente Santos também.
— Preciso retornar algumas ligações — avisei a Winters.
— Falamos como uma única voz — ele me relembrou.
— Merda nenhuma.
— Abe, por favor — pediu Angelina. — Pelo menos até a loucura da mídia acabar, deixe o release e o vídeo no YouTube falarem por nós, e deixe Jeffrey lidar com as perguntas.
Meu celular tocou de novo. Outro número desconhecido. Ignorei e coloquei o aparelho no modo “vibrar”.
— Tudo bem para os estranhos — respondi. — Mas não para os meus amigos. Especialmente os amigos na polícia e na promotoria. Eles se ofereceram para ajudar sem que eu pedisse.
— As figuras principais estão na minha lista de ligações — disse Winters.
— Precisa vir de mim. Eu sou um promotor público, pelo amor de Deus. Eu trabalho com essas pessoas. Não vou conseguir olhar nos olhos deles de novo se não der uma explicação pessoal sobre o que aconteceu.
Winters pareceu entender que aquilo não estava em debate.
— Tudo bem — disse ele. — Mas se atenha à mensagem. E tome cuidado ao usar o celular. Isso vale para você também, Angelina. A mídia está cheia de espiões, e a única aposta segura é uma linha fixa ou uma conversa pessoalmente.
Concordei. Mas se eu usasse a linha fixa dele, “Escritório de Advocacia de Jeffrey Winters” apareceria na tela toda vez que eu ligasse para um amigo da polícia ou da promotoria. Não ia rolar. Estava na hora de eu ir embora, e não só para fazer as ligações. Eu tinha perguntas para fazer à minha mulher e queria as respostas longe do advogado.
— Quando posso falar com você a sós? — perguntei para Angelina.
— Vamos discutir isso — disse Winters.
— Eu estava falando com Angelina — respondi.
— Eu entendo. Mas a questão de aonde todo mundo vai daqui é o próximo item na minha lista.
— Só quero ter uma conversa com a minha mulher.
— E vai ter, assim que resolvermos isso. Cuidei para os pais de Angelina mudarem de hotel e ficarem aqui em Miami por uns dois dias. A mídia não vai conseguir entrar em contato com eles. Mais ou menos no fim da semana, quando eles estiverem descansados e prontos para ir embora, os dois vão tirar longas férias.
— Eles estão pensando em ir para a Nova Zelândia — Angelina comentou.
— Perfeito — Winters comentou.
— Eu tenho um emprego — disse eu. — Não vou me esconder nem fugir para o outro lado do mundo.
— Não é o que tenho em mente para você e Angelina. A vida de vocês deve voltar ao normal.
— De acordo — respondi. — Quanto antes melhor.
— Meu plano é fazer a polícia de Miami-Dade retirar o status de cena do crime da casa de vocês imediatamente. Eu gostaria que vocês dormissem lá hoje.
Eu me perguntei se isso significava na mesma casa.
— Parece bom — eu disse, olhando para Angelina.
— Para mim também — emendou ela, sem me olhar nos olhos.
— Essa é nossa meta — explicou Winters. — Mas, antes, temos trabalho a fazer. A presença da mídia vai ser enorme. Minha preferência é que nenhum de vocês saia deste prédio até minha consultora e eu coreografarmos tudo, da viagem de carro para casa até a maneira como vocês olham um para o outro ao entrar pela porta.
— Não é necessário — eu disse. — Angelina, por mim nós saímos agora mesmo e acabamos com isso.
— Não, não, não — interveio Winters. — A única imagem que quero para o público hoje é o vídeo do YouTube. Deixe que ele fique no ar umas oito ou doze horas. Isso nos dá tempo para ensaiar.
— Não preciso ensaiar como entrar na minha própria casa.
— Você vai ser bombardeado com perguntas assim que sair do carro. Dizer a coisa errada ou simplesmente olhar para a câmera do jeito errado pode invalidar tudo de bom que acabamos de fazer. Minha consultora vai ensaiar com vocês e garantir que os dois estejam preparados para o primeiro encontro ao vivo com a mídia.
Olhei para minha mulher.
— Angelina, vamos para casa.
— Por que você está sendo tão difícil? — perguntou ela.
— Eu estou sendo difícil? Por que nós não trocamos uma palavra até agora sem um advogado presente?
— Isso não é justo, Abe. Eu tomei algumas decisões terríveis nos últimos dias. Preciso de bons conselhos.
— Os meus são de graça.
— Os de Jeffrey são objetivos.
— Jeffrey está cuidando de Jeffrey.
Pronto. Precisava ser dito. Eu acreditava nisso desde o dia em que o conheci no escritório da promotoria. Sua determinação em transformar Angelina em queridinha da mídia e sensação do YouTube tinha me convencido de que isso era mais verdade do que nunca.
— Abe, você devia pedir desculpas para o Jeffrey agora mesmo.
— Não é necessário — disse Winters. — Abe tem o direito de ter sua própria opinião.
Ambos estavam certos, mas essa farsa estava toda errada, e eu não pretendia me desculpar.
— Abe? — ela me chamou, me cutucando.
Eu não ia cair.
— Já vi isso antes — continuou Winters. — Policiais, promotores, todo mundo no sistema judiciário. Nada pessoal, Abe, mas eu preparei Angelina para a sua reação.
— Tudo o que eu quero são trinta minutos a sós com a minha esposa.
— E você vai tê-los — respondeu ele — talvez hoje à noite mesmo, se tudo correr bem. Mas as próximas 12 horas são cruciais. Angelina precisa de um advogado. Como tal, eu a aconselhei a evitar ficar a sós com qualquer um que tente convencê-la de que ela não precisa de um advogado. Mesmo seu marido.
— Especialmente seu marido?
— Eu não disse isso — corrigiu Winters. — Desconfio que você esteja nessa categoria. Seu comportamento nesta manhã confirma isso.
— Vou fazer algumas ligações — avisei, me levantando.
Winters pareceu feliz que eu estivesse indo embora.
— Lembre-se do que eu falei sobre o celular. A recepcionista pode colocar você em uma sala de reunião com um telefone.
— Obrigado, mas vou fazer essas ligações do meu escritório.
— Você está indo embora? — perguntou Angelina.
— Estou. Você vem?
Ela olhou para o advogado, mas não se mexeu. Winters a tinha dominado com os comandos “senta” e “quieta” como se estivesse em um apresentação de cachorros.
— Achei que não mesmo — eu disse, e saí da sala.
O trânsito do horário de pico da manhã deixou o distrito do tribunal travado, e não fazia sentido adiar minhas ligações até chegar a uma linha fixa. Liguei para Carmen do carro enquanto estava parado no trânsito.
— Isso pode se transformar num inferno — disse ela.
Minha primeira ligação tinha sido para o Rid, mas caiu na caixa postal. Carmen foi a próxima. Ela tinha lido o release de Jeffrey Winters, e eu contei sobre o vídeo do YouTube que estava prestes a ser divulgado. Claro que ela ficou feliz que Angelina não estivesse machucada, mas isso não aliviou suas preocupações com o “inferno” cada vez maior. — Você está falando da mídia?
— Com essa parte eu posso lidar — respondeu ela. — Estou falando da agente Santos.
— Você já falou com ela?
— Já. Ela tem perguntas que eu simplesmente não posso responder e, se Santos não obtém respostas, essa situação vai virar uma bola de neve muito ruim. É um crime federal forjar o próprio desaparecimento e atrapalhar um trabalho de investigação de uma força-tarefa multijurisdicional.
— Nós sabemos. É por isso que Angelina tem um advogado.
— Escute o que estou dizendo, Abe. Santos não acredita que sua mulher fez isso sozinha. Ela acha que a única maneira de isso ter acontecido é se alguém de dentro indicou o caminho errado e fez os policiais ignorarem pistas e fazerem vista grossa. Alguém como o marido dela.
— Isso é loucura. Mesmo que ela tenha dito isso, deve ter sido alguma sessão de lavagem cerebral. Ela não pode acreditar nisso de verdade. Por que eu me envolveria em uma farsa como essa?
— Você tem razão. Não sei o que está dentro da cabeça de Santos. Mas posso pensar em uma razão para você: talvez tanto você quanto Angelina chegaram à conclusão de que a única maneira de mantê-la a salvo do Cortador seria fazê-lo acreditar que ela foi morta por um imitador.
Um imitador. Pensei de novo em como o celular de Angelina tinha ido parar na Tamiami Trail, perto de onde o corpo de Tyla foi encontrado.
— Carmen, você sabe que eu nunca faria nada assim. Eu posso perder minha licença.
— Pode, sim.
— É isso que Santos quer?
— Como eu disse, não sei aonde Santos está indo com isso. Talvez ela só esteja furiosa que a mídia esteja prestando mais atenção no retorno de Angelina do que no fato de o FBI ter prendido um serial killer. Mas meu conselho para você é descobrir o que está por trás disso.
— Bom conselho — respondi. — Vou fazer isso.
Desliguei e parei no farol. Eu estava prestes a ligar para Santos mas meus pensamentos voltaram ao fato de Carmen ter mencionado um assassino imitador, o celular de Angelina, e sua enfática negação de ter qualquer conhecimento de como ele tinha ido para no local onde o corpo de Tyla foi encontrado.
Não. Eu não joguei meu celular na Tamiami Trail. Você está perguntando para a pessoa errada.
Isso me fez pensar. Quem era a pessoa certa?
O trânsito estava finalmente andando, mas parei em um posto de gasolina e liguei para Rid. Caiu na caixa postal de novo. Liguei mais três vezes sem sucesso. Era possível que ele estivesse ocupado a manhã toda, e ia contra meu discernimento achar que ele pudesse estar qualquer outra coisa além de muito ocupado para atender. Mas eu estava bem certo de Rid estava ignorando minhas ligações.
Fiz uma manobra rápida, e os pneus cantaram quando peguei o caminho de volta para o escritório de advocacia.