Uma Mulher Perfeita
Capítulo vinte e três
Fui jantar com Carmen depois do funeral. Ela escolheu o restaurante, um lugar da moda ao norte do centro, no distrito do design, chamado — dentre todos os nomes — Cana-de-açúcar.
Eu não tinha comido nada desde o almoço e estava morto de fome, mas minha cabeça estava cheia demais para apreciar a comida, que era servida em estilo de tapas.
Eu basicamente bebi enquanto Carmen tagarelava sobre pernas de rã crocantes da Flórida, purê de batata e molho verde, superado apenas pelo confit de pato com waffle. Mordisquei umas costelas glaceadas no mel entre as cervejas, e Carmen me fez parar depois de duas garrafas de alguma marca importada que era muito mais forte do que a típica cerveja americana. A última coisa que a promotoria do estado precisava era que um de seus promotores mais antigos fosse parado por dirigir embriagado.
Cheguei em casa antes das 11 horas. Angelina ainda estava fora. Eu estava cansado e queria ir deitar, mas me perguntei se meu direito à metade do colchão tinha sido temporariamente revogado. Peguei uma cerveja na geladeira, desabei no sofá diante da TV e zapeei por um tempo. A garrafa estava vazia quando a porta se abriu. Angelina estava sozinha, o que foi um alívio. Eu já estava suficientemente de castigo sem o envolvimento da mãe dela.
— Como está sua mãe?
— Bem.
De novo aquele palavrão. Angelina deixou as chaves no prato perto da porta e passou pela sala atrás de mim.
— Vamos passar o dia num spa amanhã, então é melhor você fazer planos.
Eu já tinha planos de voltar para Belle Glade.
— Beleza.
Ela parou.
— O que isso significa?
— O que o quê significa?
— “Beleza”? Quem fala com a própria esposa assim? Não sou um dos seus amigos. Com quem você passou o dia? JT?
Às vezes eu podia jurar que Angelina tinha percepção extrassensorial.
— Estamos voltando a falar do JT agora. Sério?
Um olhar de surpresa tomou conta dela, seguido de uma expressão que indicava que minha mulher sabia que estava no caminho certo.
— Você foi vê-lo, não foi?
— Eu fui levá-lo para visitar Luther na clínica de repouso.
Ela largou a bolsa na mesa de apoio, parou entre mim e a televisão e me olhou de frente.
— Podemos ter essa discussão agora. Minha mãe e eu tivemos uma conversa.
Oh, céus.
— Não revire os olhos, Abe.
— Não revirei.
Pelo menos, eu achava que não.
— Essa besteira do JT precisa parar. Estou cansada de você cuidar dele. Estou cansada de você voltar para onde costumava morar, cansada de você cuidar de Luther, cansada dessa família toda.
— Eu não posso cortar relações com eles.
— Por que não?
— Porque JT vai acabar morando embaixo da ponte de novo.
— Não é problema seu, Abe.
— Ele é meu cunhado.
— Ele me assusta, está bem?
— Você não precisa se assustar.
— Abe, ele me beijou na boca na nossa casa no último Dia de Ação de Graças.
— Já tivemos essa conversa, Angelina. JT não beijou você na boca. Eu vi a coisa toda. Ele foi beijar você no rosto, e você virou.
— Não foi assim que aconteceu.
— Foi exatamente assim que aconteceu.
— Abe, isso é o tipo de coisa de que as famílias não falam, elas aguentam e fingem que nada está errado. Até que um dia vai parar no noticiário porque algum parente maluco apareceu na ceia de Natal com uma pistola semiautomática e atirou em todo mundo.
— Eu conversei com o psiquiatra do JT. Ele não é violento.
— Não quero correr o risco, ok? Dois dias atrás nós falamos em começar nossa família, se bem que, para ser sincera, a ideia de fazer sexo com você agora não esteja no topo da minha lista. Mas que seja. Nenhuma mãe em sã consciência ia querer JT perto de seu filho. Você precisa dizer que ele não é mais bem-vindo aqui.
Desviei os olhos, mas não consegui dizer que ela estava totalmente errada.
— Certo. JT não visita mais a nossa casa.
— Também não quero mais que você vá lá. Não quero que você tenha mais nada a ver com ele.
— Não é tão simples assim.
— Faça ser simples, Abe. Isso durou tempo demais. Tentei ser compreensiva e, por mais complicado e confuso que isso possa parecer, eu sinto muito, de verdade, que sua mulher tenha morrido. Sei que parece que eu me tornei uma chata, mas não aguento mais…
Meu foco foi parar além dela, na direção da imagem na tela. O volume estava baixo, mas a matéria principal do noticiário das 23 horas era o velório da “prestigiosa advogada de Miami Tyla Tomkins”. Angelina virou e acompanhou meus olhos até o televisor. O incômodo dela por eu ter desviado da nossa conversa logo se transformou em fúria. Ali, na tela, estava eu, ao lado da promotora pública, entrando na funerária. Angelina olhou para mim com incredulidade.
— Você foi ao velório daquela mulher?
— Carmen me pediu para acompanhá-la.
— E você não podia dizer “não”?
— Ela é minha chefe.
— Eu sou sua esposa. Você não tem nenhum respeito por mim?
— Você está exagerando as coisas.
Ela me lançou um olhar que eu nunca tinha visto antes. Eu não sabia ao certo se ela ir cair no choro ou ter um ataque de fúria.
— Saia, Abe.
— O quê?
Ela não estava gritando, mas estava prestes a começar. Angelina veio até mim, me agarrou pelo braço, me tirando do sofá.
— Saia. Vá ficar com JT.
— Angelina, por favor.
— Vá!
As lágrimas estavam começando a escorrer.
— Por favor, não…
Eu comecei a falar, mas ela estava me puxando na direção da porta e gritando.
— Vá, Abe! Suma daqui!
Angelina estava falando tão alto que fiquei com medo que os vizinhos escutassem, sem contar os policiais que estavam patrulhando nosso bairro desde quinta à noite e a chegada daquelas fotos minhas com Tyla.
— Saia!
Angelina me puxou até o outro lado da sala e escancarou a porta. Peguei minhas chaves, e ela literalmente me pôs para fora. A porta bateu.
Fiquei parado na entrada por um minuto, pensando se eu de fato deveria sair. Ouvi minha garrafa de cerveja vazia se estilhaçar contra a porta, um arremesso vindo direto do outro lado da sala, o que era confirmação suficiente.
Atravessei o gramado devagar até meu carro na garagem, entrei e dei a partida no motor. Eu não queria ir embora, mas não culpava Angelina. O volante era o alvo mais próximo disponível, e eu dei um soco tão forte que achei que tinha quebrado a mão.
— Idiota! — gritei, e isso não tinha nada a ver com minha mão latejando.
A luz da varanda se apagou, e a janela da frente ficou escura. O ponto final de Angelina. Manobrei na entrada e saí pela rua, sem saber direito aonde estava indo.