Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 54 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo cinquenta e quatro

 

 

Rid me encontrou na entrada do escritório do FBI em Miami.

Ele estava certo. Eu passei pela segurança no lobby principal, e só. Santos estava mantendo uma rédea curta no interrogatório. Ela provavelmente não teria nem me deixado entrar no prédio se Rid não estivesse comigo.

— Ela deve pelo menos deixar você observar — eu comentei. — Você é um dos principais detetives de Miami-Dade na força-tarefa.

Estávamos sozinhos em uma sala de espera sem janelas. Eu estava andando de um lado para o outro. Rid estava no sofá, sentado embaixo de uma placa em homenagem os agentes mortos do escritório de Miami.

— Ela acha que sou um canal direto para você — disse ele.

— Talvez nós não devêssemos ter cancelado aquele segundo teste do polígrafo hoje de manhã.

— Abe, você não está em condição de passar por outro polígrafo.

— Você sabe disso. Você está sentado aqui comigo. Mas e se Carmen achar que eu estou só com medo de refazer o teste?

Rid olhou para mim com uma expressão séria.

— Você sabe a minha opinião sobre isso.

Ele tinha se pronunciado quando Carmen sugeriu o segundo teste. E não ia simplesmente se repetir, mas seu conselho “de amigo” apareceu de novo mesmo assim: Você provavelmente precisa de um advogado.

— Vamos ver o que acontece — respondi.

Parei e liguei para a mãe de Angelina de novo. Ninguém atendeu. Era a mesma coisa com o pai. Não me dei ao trabalho de deixar uma quarta mensagem pedindo para eles me retornarem. Eu queria ser quem contaria para eles que o Cortador tinha sido detido. Depois da maneira como Jake tinha falado comigo antes da coletiva de imprensa, estava me incomodando que nenhum dos dois atendesse.

— Ligue para eles, Rid. Veja se atendem.

Ele ligou. Primeiro para Margaret. Depois para Jake. Nenhum dos dois atendeu. Liguei para o hotel, depois para a irmã de Angelina. Tentei falar com Sloane na central. Nenhum sinal dos pais de Angelina.

— Isso está ficando estranho — comentei.

Ficando estranho? A expressão no rosto de Rid estava quase fazendo essa pergunta, mas ele se conteve. Teria sido engraçada se não fosse tão nada engraçado.

Meu celular tocou, e atendi sem ver de quem era o número, torcendo para ser Jake ou Margaret. Era Ed Brumbel.

— Fiquei sabendo que prenderam o Cortador.

Eu não falava com ele desde a minha mensagem sobre falar com a repórter, mas isso já parecia fazer muito tempo.

— Como você ficou sabendo?

— Eu leio todos os releases que a indústria do açúcar lança. Cortinas acabou de divulgar um sobre Tommy Salvo, basicamente o deserdando.

— Você pode encaminhar para mim?

— Claro. Eu também tenho uma ou duas coisas para contar sobre Tommy Salvo. Peguei o depoimento dele vinte anos atrás na época do processo coletivo.

— Sobre os pagamentos?

— Isso. Ele era um dos supervisores que conferia os pagamentos. E um mentiroso desgraçado.

— Pelo que sei ele está nas operações na Nicarágua agora.

— Eu li no release. E é isso que de fato me interessa. Comparado com a América Central, o velho programa do visto H-2 nas plantations da Flórida parece o Club Med.

— Ed, estou procurando a minha mulher. Não tenho tempo para falar…

— Eu entendo. E, sabe, peço mil desculpas sobre deixar escapar a história de Tyla para aquela repórter no sábado à noite. Ou domingo de manhã, tanto faz.

— Esqueça.

— Mas me escute. A Cortinas divulgou um release proativamente para conter os danos. Eles sabem que a empresa vai sofrer um golpe e tanto.

— Porque um de seus dez mil funcionários provou ser um assassino. Não acredito.

— Não. Porque Salvo saiu da Nicarágua três meses atrás, logo antes de a temporada de colheita começar na América Central, pouco antes de os assassinatos começarem na Flórida. A Cortinas obviamente sabia que ele não estava indo trabalhar, e eles deviam saber que ele tem uma casa não muito longe de onde os corpos estavam sendo deixados nos canaviais. Mas a empresa nunca revelou ao FBI que Salvo deveria estar no radar. Até onde o FBI sabe, Salvo estava na Nicarágua o tempo todo.

— Parece um argumento importante — respondi. — Mas estou tendo dificuldade de relacionar isso com a única coisa que importa agora, que é encontrar minha esposa.

— É uma peça do quebra-cabeça maior — continuou ele. — Isso explica Tyla Tomkins.

Estávamos chegando a algum lugar.

— Como?

— Tyla estava tentando contar para você sobre algum tipo de atividade criminosa envolvendo as empresas Cortinas. A operação na América Central está fora de controle. Sabe qual é a segunda coisa que mais mata os homens na Nicarágua e em El Salvador? Doença crônica dos rins. Sabe onde 99 por cento desses homens trabalham? Nos canaviais. É uma doença misteriosa. Eles não sabem se é a exposição aos pesticidas ou se as empresas de açúcar estão fazendo esses homens literalmente trabalharem até a morte. Chama de “a doença da cana-de-açúcar”. Homens saudáveis na casa dos vinte estão indo parar na diálise e morrendo. Isso é criminoso, Abe.

— Eu sei, mas sou um promotor de Miami. Por que Tyla viria até mim para falar sobre crimes na América Central?

— Ela estava delatando seu próprio cliente e confiava em você. Alguma coisa ou alguém disse a ela que Tommy Salvo estava imerso em alguma coisa acontecendo lá. E Tyla ficou incomoda de que a Cortinas não quisesse que as autoridades locais o entrevistassem, mesmo que ele estivesse envolvido nesses crime.

— Espere um minuto. Você está dizendo que Cortinas sabia que ele era o serial killer?

— Não. Estou dizendo que não deram a mínima se ele era ou não. Que é como essa empresa sempre funcionou. A única coisa com que se importam é o fato de Tommy Salvo ter informações sobre “a doença da cana-de-açúcar”, e a última coisa que a empresa queria era Salvo falando com o FBI. Acho que era isso que Tyla Tomkins estava tentando contar para você. Talvez ela tivesse descoberto alguma coisa sobre o histórico dele, ou talvez tivesse uma intuição sobre esse sujeito porque ele estava na Flórida ilegalmente. Mas estava tentando dizer para você que as autoridades locais precisavam falar com Salvo.

Eu precisava dar um desconto sobre tudo o que Ed falava sobre a Açúcar Big. Mas ele de fato estava fazendo sentido.

— Pode ter sido isso que a matou — concluiu ele.

— Mas a agente Santos parece ter bastante certeza de que o Cortador não matou Tyla.

— Talvez a agente Santos esteja errada.

Santos também não achava que o Cortador tinha nada a ver com o desaparecimento de Angelina.

— Ela pode estar errada — concordei. — Ou nós dois podemos não estar vendo alguma coisa.

Meu celular vibrou com a chegada de uma mensagem. Era uma mensagem de texto da mãe de Angelina.

— Ed, obrigado, eu ligo para você depois — eu disse, desligando rápido.

Rid me perguntou alguma coisa sobre o telefonema, mas eu estava concentrado demais na mensagem de Margaret para ouvir.

IMPORTANTE. Você vai receber uma ligação de Jeffrey Winters. Atenda. Não a ignore!!!

Eu conhecia Winters. Ele tinha saído do escritório da promotoria do estado quando Carmen me promoveu, e não ele, a promotor sênior. Era difícil saber quem tinha “ganhado”. Ele era um dos principais advogados criminais em Miami.

— Rid, o que você sabe sobre essa ligação de Jeffrey Winters?

Rid olhou para mim, confuso.

— Winters? Nada.

Não acreditei.

— Você não para de me dizer que preciso de um advogado. Você e Margaret armaram isso?

— Não falei com Margaret.

Eu estava ficando bravo.

— Rid, eu sei o que está acontecendo. Jake não está do meu lado. Margaret está. Você disse para ela que eu preciso de um advogado. Minha sogra contratou Winters sem Jake saber. A ligação é sobre isso, não é?

— Abe, não tenho nada a ver com isso.

A porta se abriu. Um dos agentes do FBI encarregado da força-tarefa do Cortador entrou na sala de espera.

— Detetive Riddel, pode entrar, se quiser. A agente Santos e eu estamos disponíveis agora.

— E quanto ao Abe? — perguntou ele.

— Desculpa. Somente a força-tarefa.

Meu celular tocou. O identificador me mostrou que era do escritório de Jeffrey Winters.

— Vá em frente — eu disse. — Eu espero.

Rid e o agente desapareceram. Meu celular continuou tocando. Eu não tinha nenhuma vontade de falar com Jeffrey Winters, mas, de repente, eu queria saber se Rid “não tinha nada a ver com isso” ou, se, pela primeira vez, ele tinha mentido para mim.

Mais um toque, e a ligação teria caído na caixa porta. Atendi.

— Abe?

Fiquei paralisado.

— Abe, sou eu.

Quase derrubei o celular.

Era minha esposa.