Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 39 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo trinta e nove

 

Não conversamos no carro. Rid foi dirigindo. Fiquei olhando pela janela do passageiro.

A Calle Ocho já tinha sido o coração de uma comunidade de exilados cubanos, um lugar onde homens idosos podiam ser encontrados no parque José Martí jogando dominó, fumando charutos e conversando sobre béisbol. Muitas tiendas do bairro ou tinham desaparecido, ou foram esmagadas por El Costco ou apenas uma fatalidade da mudança demográfica. Lojas de penhor continuaram aparecendo, resilientes como sempre, atendendo o fluxo sem fim de recém-chegados a Miami que careciam de crédito e precisavam de dinheiro rápido, sem que nenhuma pergunta fosse feita.

A Pawn 24 era uma dessas lojas que nunca fechava, mas a porta estava sempre trancada. Barras de segurança feitas de ferro reforçavam a vitrine onde, uma ou duas décadas antes, qualquer coisa, de estátuas de jardim da Virgem Maria até bolos de casamento cubanos podiam estar expostos. Rid e eu fomos até a entrada e tocamos a campainha. Um homem na casa dos vinte anos apareceu. Tatuagens cobriam seus braços. Um palito de dente estava pendurado em sua boca enquanto ele falava do outro lado do vidro.

— O que vocês querem?

Rid mostrou o distintivo. O homem o conferiu, destrancou a porta, nos deixou entrar e a retrancou imediatamente.

— Domingo à tarde é o melhor momento para assaltos — explicou ele. — Meu tio diz para deixar a porta trancada.

— Seu tio é um homem esperto — disse Rid.

O nome do sujeito era Manny. O tio dele era dono da loja, e Manny trabalhava no turno da noite e nos fins de semana. Trocamos um aperto de mão — apenas um, uma formalidade. Rid me apresentou como promotor público antes e depois como marido de Angelina.

— Vi você no noticiário — comentou ele. — Sinto muito pela sua mulher.

— Obrigado — respondi.

— Não sei como posso ajudar, mas, quando os policiais apareceram de manhã, perguntaram se alguém suspeito apareceu sexta depois da meia-noite. Respondi que todo mundo é suspeito na sexta depois da meia-noite.

— Você estava aqui sozinho quando o sujeito apareceu para vender o diamante? — perguntou Rid.

— Claro que eu estava sozinho. O que você acha que isto é, o Walmart? Basicamente, somos eu ou meu tio cuidando do lugar.

— Como era o homem? — perguntou Rid.

— Sem-teto, se você quer a minha opinião. Talvez um metro e oitenta, cabelo escuro. Mas essa não é a parte suspeita. Os policiais perguntaram se alguém apareceu tentando obter dinheiro fácil com objetos femininos. Anel de diamantes, brincos, colar, uma bolsa de marca, sapatos caros, esse tipo de coisa. Foi quando mencionei o anel de noivado.

— Por que você não mostrou o anel para eles?

— Porque meu tio ia acabar comigo se soubesse que um bando de policiais apareceram na loja para xeretar, inspecionando a mercadoria, certo? Se o anel é da mulher do sujeito, ele pode me dizer, e aí vocês podem falar com meu tio. Se não for dela, paramos por aqui. Meu tio não precisa nem saber que vocês estiveram aqui.

— Estou bem ansioso para ver o anel — eu disse.

— Está no cofre — avisou Manny. — Vou buscar.

— Vamos com você — disse Rid.

— Não precisa.

— Quero minimizar o manuseio — explicou Rid.

— Se estão procurando impressões digitais, esqueçam. Foi o que eu disse para os policiais de manhã. Eu limpei bem o anel, deixei mergulhado em solução o dia todo ontem e poli.

— Entendi — disse o detetive. — Mas é melhor mantermos o mínimo de manuseio.

A voz de Manny ficou mais séria.

— Preciso que vocês relaxem, pode ser? Eu não precisava ser um bom cidadão. Podia ter ficado de boca fechada e deixado meu tio vender o anel. A menos que vocês tenham um mandado, não podem entrar no estoque. Ponto final.

— Não precisa ficar na defensiva — disse Rid.

— Também não preciso perder meu emprego. Vocês estão fazendo eu me arrepender de ter me envolvido. Coloquei o anel em uma pequena caixa de joia, então não preciso nem encostar nele para trazê-lo para cá. Vocês querem ver, ou não?

Nem todas as lojas de penhor eram tão cuidadosas, mas na minha opinião havia um monte de mercadoria roubada nos fundos dessa. Eu não dava a mínima para o produto de furto do tio do sujeito.

— Pegue o anel, Manny. Vamos esperar.

— Mas não encoste nele — advertiu Rid.

Ele virou e desapareceu. Rid e eu esperamos no balcão. A Pawn 24 não era o tipo de lugar que mantinha joias caras expostas. A maior parte dos itens nas prateleiras estava entre 75 e duzentos dólares. Pelo jeito, ferramentas elétricas eram peças cobiçadas. Instrumentos musicais não ficavam atrás. Pistolas eram o que mais vendia. A placa no caixa dizia: “Não passamos cartão de crédito”, o que, do ponto de vista semântico, não ficava muito claro.

— Aqui está — anunciou Manny.

Ele colocou a caixa sobre o balcão. A maior parte do veludo azul estava gasta.

— Abra, por favor — pediu Rid.

Ele levantou a tampa da caixa velha. O diamante refletiu a luz e brilhou nos meus olhos. Fiquei paralisado.

— Uma beleza — comentou Manny. — Deve ter um quilate e meio.

Era isso mesmo. Exatamente. Corte marquise. Ouro branco. Eu não conseguia desviar os olhos, mas senti o peso do olhar de Rid — em mim. Era como se ele soubesse que alguma coisa estava acontecendo antes que eu abrisse a boca.

— Não é da Angelina — eu disse.

— Como assim?

Eu sabia que ia parecer loucura e não tinha certeza se Rid ia acreditar em mim. Eu mesmo não podia acreditar.

— Não é o anel da Angelina — eu repeti. — É o da Samantha.