Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 67 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Epílogo

 

Dez meses depois

 

A cana do Natal. Alguns dizem que é a cana-de-açúcar mais doce de todas. É mentira, só uma desculpa inventada para justificar o fato de a Açúcar Big se recusar a interromper a colheita e dar folga para os funcionários no Natal.

Com o tempo, mentiras e desculpas podem se tornar verdade.

Angelina era uma dessas pessoas que mal podia esperar pela chegada do Natal. O peru do Dia de Ação de Graças mal tinha esfriado, e ela corria para comprar o pinheiro perfeito.

A maioria das pessoas tinha previsto que nosso casamento acabaria até a Páscoa, o Memorial Day ou, no mais tardar, o feriado de Quatro de Julho. Tínhamos feito um “pausa” de dois meses, o eufemismo do nosso terapeuta conjugal para “separação”, mas tínhamos voltado, o que não se podia dizer sobre Brian Belter e sua futura ex-mulher.

Os dois tinham praticamente recorrido a armas químicas e nucleares e outras formas de destruição em massa na guerra de seu divórcio muito divulgado. O segundo passo em sua queda pessoal e profissional estava chegando, uma acusação criminal por tentativa de suborno. Feliz Ano-Novo.

Mas as especulações sobre os Beckham não eram gratuitas.

— Abe, querido, você pode ir até a mercearia comprar algumas chalotas?

Angelina estava na cozinha. Eu estava sentado na frente da televisão vendo os jogos universitário de futebol americano em um campeonato de véspera de Natal que não me interessava.

— Claro — gritei de volta.

Que diabo é uma chalota?

— E açúcar-mascavo?

— Pode deixar.

— Eles fecham às quatro hoje, então ande logo.

Peguei a chave do carro e fui até a porta.

Angelina e eu tínhamos parado de tentar ter um bebê. Não que tenhamos começado. Fazer amor esteve fora da pauta durante a separação. Na marca dos dois meses, nosso terapeuta sugeriu um “reencontro” para ver em que pé estávamos. A teoria era que eu nunca tinha dado uma chance para Angelina, que nenhuma mulher tinha chance depois da morte de Samantha. Sexo não deveria fazer parte do fim de semana do “reencontro”. Aliás, o terapeuta tinha aconselhado que não acontecesse. Quando aconteceu, tirei no momento do clímax.

— Bem lembrado — sussurrou ela no meu ouvido. — Vou voltar a tomar pílula.

Fim da discussão.

Ainda parecia curioso que a primeira vez que Angelina mencionou um bebê — o almoço no restaurante Big Fish no rio Miami — foi o mesmo dia que o noticiário divulgou que Tyla Tomkins estava morta.

Era uma estranha coincidência. Ou não. Quando pensei no assunto, as palavras de Rid voltaram.

Angelina está jogando com você. Ela está jogando com você.

Manobrei o carro para sair da garagem e parei na entrada.

Açúcar-mascavo e o quê? Quando lembrei, fui até a mercearia, passando pelas palmeiras cobertas de luzes pisca-pisca e outras decorações de fim de ano do sul da Flórida.

A agente Santos tinha seguido a vida. Literalmente. Nunca fiquei sabendo o que ela fez para irritar os poderosos da sede do FBI, mas ela pagou seus pecados no escritório de Miami, e sua transferência durou pouco.

Victoria Santos estava de volta a Quantico com a Unidade de Análise Comportamental, onde era seu lugar. Eu tinha pensado em mandar um bilhete de felicitações, mas acabei nunca mandando. Ou talvez eu tivesse medo que a resposta dela fosse algo como “Ainda não terminei meu trabalho com você, Beckham. Nem com a sua mulher.”

— Com licença, onde ficam os Skittles? — perguntei para o estoquista.

— Corredor sete.

Perdi cinco minutos na área dos doces antes me dar conta de que tinha dito a coisa errada. Encontrei chalotas e açúcar-mascavo, passei mais 15 minutos na fila do suposto caixa rápido e fui para casa.

Angelina e eu não conversamos mais sobre a morte de Tyla. Nem sobre JT. Ela levou meses para se abrir comigo. Eu ainda não sabia o que fazer com a confissão.

Não tinha havido um segundo telefonema de Tyla para o JT. Aquela mensagem de voz tinha sido a única comunicação, o que, por si só, não seria suficiente para provocar JT e convencê-lo de que Tyla me queria de volta. Foram as fotos de Tyla comigo no restaurante que fizeram JT perder o controle. Fotos mostradas por Angelina.

Liguei para ela do carro.

— Comprei o que você queria — avisei.

— Obrigada, querido. Volte logo.

A mãe de Angelina era uma mulher esperta. Esperta o bastante para ver como a filha estava infeliz no casamento. A tal “outra” tinha sido a suspeita imediata de Margaret.

O detetive particular que Margaret contratou me seguiu em minha viagem para Orlando e fez valer seu pagamento com as fotos de Tyla comigo. Por que Angelina as mostrou para JT era um mistério para mim. Conversamos sobre isso pela última vez no fim de semana do Dia do Trabalho. Ela tinha me contado que estava apenas coletando todas as informações que podia sobre Tyla, e que queria checar se JT sabia a verdade sobre ela e eu. A explicação era plausível. Mas havia outra possibilidade, que usava as paranoias, os medos e a vulnerabilidade de JT: Angelina tinha ido falar com ele e apresentado Tyla Tomkins como uma inimiga em comum que precisava ser eliminada?

Não, ela respondeu. De jeito nenhum, Abe.

Mas eu tinha minhas suspeitas. Naquela época, eu ainda usava o aniversário de Samantha como senha do meu iPhone, e Angelina teria ficado ainda mais brava quando descobrisse. Quem mais teria atendido meu celular quando eu estava no banho e conversado com Tyla por dois minutos? Quem mais teria checado minhas mensagens de voz e deletado quatro de Tyla? Quem mais teria me ouvido falar com Rid ou Santos sobre a marca registrada do Cortador, e por que outra razão ela teria espalhado cinzas nas fotos e as mandado para si mesma, fazendo parecer que o serial killer tinha matado Tyla e estava atrás dela?

Por que outro motivo ela tinha fugido?

Angelina não fugiu porque achou que seria a próxima vítima do Cortador. Ela não fugiu para me ensinar uma lição ou porque estava com medo de mim. Angelina fugiu porque sabia que JT tinha matado Tyla Tomkins. Ela estava com medo de que JT a mencionasse como cúmplice — a pessoa que tinha colocado a ideia na cabeça dele e talvez o encorajado a matar. Talvez ela tivesse ido ainda mais longe, convencido Tyla a encontrá-la em um lugar discreto para uma conversa de mulher para “outra mulher”, mandado JT em seu lugar e ajudado a alugar o carro que ele — ou eles — tinham usado para jogar o corpo nos Everglades. Ela entrou em pânico no meio da noite, vendeu o anel de Samantha na loja de penhor, pedido uma carona para duas garotas até o Miccosukee Resort no Everglades e jogou o celular na Tamiami Trail quando passaram pelo local onde o corpo de Tyla foi recuperado — Ei, meninas, estou meio enjoada, então vou abrir o vidro. Angelina tentou desaparecer, mas voltou dois dias depois de se dar contar de como dava trabalho desaparecer.

Eu não podia provar. Não queria nem pensar no assunto. Mas às vezes eu me perguntava. Às vezes eu ainda pensava que ela estava jogando comigo.

Deixei as chalotas e o açúcar-mascavo no balcão.

— Aqui está.

— Obrigada, querido.

Ela estava sorrindo. Angelina andava feliz e estava cada vez maior. A pílula, nosso obstetra explicou, só tinha 99,5% de garantia, não 100%. Eu, às vezes, me perguntava se Angelina de fato estava tomando a pílula, e se o nosso “reencontro” tinha sido planejado na época de seu período mais fértil. Mas deixei os pensamentos ruins de lado. Uma menina estava a caminho. A vida era boa, não era?

— O jantar vai ser servido às seis.

— Ótimo — respondi. — O que vamos comer?

— Seu prato favorito. Ossobuco.

Sim, Angelina continuava jogando comigo.

O que me fazia pensar qual seria o nosso último jantar.

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