Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 14 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo catorze

 

Antes que o ossobuco esfriasse, nossa casa tinha se tornado uma cena de crime.

Eu estava convencido de que as fotos tinham vindo do assassino de Tyla, o que significava que um serial killer tinha estado na entrada da nossa casa e tocado nossa caixa do correio. As fotos e o envelope tinham sido embalados e enviados para o laboratório. A caixa do correio tinha sido analisada em busca de impressões digitais. A entrada da casa foi conferida em busca de marcas de pneu; o jardim e a passagem, de pegadas. Um policial uniformizado estava estacionado na nossa rua, de olho na nossa casa, e ia passar a noite ali. Era o pior pesadelo de todo promotor que seu trabalho colocasse sua família em perigo, e eu não ia correr riscos.

Angelina ficou no nosso quarto. Ela não atendeu quando bati na porta, mas Rid conseguiu entrar e estava falando com ela a sós, recolhendo seu depoimento. A porta da frente estava escancarada, membros da equipe forense entrando e saindo, quando a agente Santos chegou. A atenção dela se voltou imediatamente para a taça quebrada sobre a mesa de apoio. Eu já tinha lidado com casos de violência doméstica suficientes para saber o que aquilo devia parecer.

— Um pequeno acidente — expliquei.

— Estou vendo.

— Só um pouco de vinho derramado.

Ela não respondeu. Eu estava começando a achar que os astros estavam se alinhando contra qualquer esperança de recuperar sua confiança.

Rid veio do corredor e se juntou a nós na sala. A declaração de Angelina estavam em sua prancheta.

— Não há muito mais para acrescentar — anunciou ele. — O envelope estava na caixa com o resto da correspondência. Ela tem certeza de ter checado ontem e de que não estava lá, então podemos nos concentrar nas últimas 24 horas quando falarmos com os vizinhos sobre qualquer um que eles possam ter visto.

Santos pegou a prancheta e passou os olhos rapidamente pelo texto.

— Só vi cinzas na última foto — disse ela. — Você perguntou se ela limpou alguma das outras?

— Não limpou — respondeu Rid. — Aliás, ela não fazia ideia do que eu estava falando quando mencionei as cinzas. Ela nunca chegou à última foto. Depois da terceira, Angelina correu para o banheiro e vomitou.

Aquilo me machucou. Como se eu precisasse me sentir pior do que já estava...

Um fotógrafo da equipe entrou na sala, pedindo desculpas. Levei nosso grupo para a cozinha, deixando Santos entrar primeiro e conseguindo trocar algumas palavras em particular com Rid no caminho.

— Como Angelina está? — perguntei.

— Totalmente bêbada.

— Você acha que ela vai falar comigo esta noite?

— Eu esperaria até amanhã de manhã se fosse você.

Confiei na leitura dele e me perguntei se todos nós iríamos trabalhar até de manhã. Tecnicamente, eu estava fora da força-tarefa da investigação do Cortador, mas as fotos tinham me colocado de volta ao caso, pelo menos até certo ponto. Nós nos sentamos na mesa da cozinha, e eu estava prestes a retomar a conversa, mas Rid mudou o rumo.

— Cara, está um cheiro incrível aqui. É rabada?

— Paleta de vitela — respondi. — Angelina é uma cozinheira incrível.

— Você é um sujeito de sorte, Abe — comentou Santos.

— Sei que sou. Posso não merecê-la, mas sou um bom marido.

— Espero que vocês se acertem — disse ela, sem nenhum sarcasmo no comentário. — De verdade.

— Obrigado.

Talvez aqueles astros estivessem se alinhando, afinal. Ou ela estivesse querendo me confundir.

— Então, qual é a história das cinzas? — perguntou Rid.

— Não tenho dúvidas de que o laboratório vai confirmar que é cana — comentou Santos.

— Vamos supor que seja — eu disse. — Para determinar um perfil, você considera as cinzas da foto equivalente à marca registrada dos assassinatos do condado de Palm Beach?

Santos pensou com cuidado antes de responder.

— Em primeiro lugar, posso dizer que nunca vamos saber se havia cinzas no rosto de Tyla de fato.

— Você não tem mais esperanças de recuperar o restante do corpo dela? — perguntei.

— Não por completo, mas estamos completando seis dias. Com predadores, parasitas e a aceleração da decomposição dos Everglades de modo geral, é improvável que encontremos pele, quanto mais vestígios de cinzas de cana.

— Então me deixe formular a pergunta de outra forma — continuei. — A foto é suficiente para você afirmar oficialmente que Tyla é a vítima número cinco do Cortador?

— Eu estaria mais propensa a afirmar se Tyla fosse branca e tivesse um namorado negro, como as outras vítimas.

Rid se levantou para ver a travessa de ossobuco sobre o balcão.

— A conexão inter-racial ainda está ali. Tyla é uma mulher negra que se envolveu com homens brancos.

Não revelei que Carmen tinha me contado sobre Tyla e Brian Belter.

— Imagino que você esteja falando de dez anos atrás — eu disse.

— Claro, desculpe — emendou Rid.

— Quem quer que seja, quando quer que seja — disse Santos. — O fato é que temos nossa primeira vítima negra, sem ter como saber se havia cinzas espalhadas no rosto dela como no caso das brancas.

Rid pegou um garfo.

— Posso provar um pouco?

— Vá em frente. — Mantive meu foco em Santos, que, na minha opinião, estava sendo excessivamente cautelosa. — Se ainda estivesse no caso, eu não teria problemas em argumentar para um júri que se trata do mesmo assassino.

— O advogado dele diria que a foto chegou cinco ou mais dias depois da morte de Tyla — comentou Santos. — Quase como uma decisão tardia.

— O que você quer dizer com uma decisão tardia?

— Não posso descartar um imitador — disse ela. — Você ouviu o médico legista descrever a diferença nos ferimentos de Tyla dos das vítimas de Palm Beach. Então, digamos que seja um imitador que vê o noticiário e decide que atacar as vítimas com um facão é a marca registrada do Cortador. Ele golpeia sua vítima no pescoço e se desfaz do corpo nos Everglades. Depois, de alguma forma, ele descobre que a marca do Cortador não é o uso do facão, são as cinzas no rosto da vítima. O que o nosso imitador pode fazer? Bom, uma opção é mandar fotos para o principal promotor com cinzas no rosto de Tyla.

— Como ele descobriria que as cinzas eram a marca registrada? Isso foi mantido em sigilo.

— Nossa força-tarefa está aumentando, o número de pessoas que sabe está crescendo, a atenção da mídia, se expandindo; é possível haver vazamentos.

— Estou entendendo — eu disse. — Mas isso faz surgir outra questão. Quer estejamos falando do Cortador ou de um imitador, como ele conseguiu essas fotos de mim com Tyla das câmeras de segurança de um restaurante para começo de conversa?

— Estou trabalhando com o Departamento de Polícia da Flórida e com o delegado do condado nessa questão. Mas só existe uma forma de o assassino ter sabido que ela estava jantando com um homem branco naquela noite naquele restaurante. Ele devia estar seguindo Tyla.

— Desde setembro? — perguntou Rid.

— Não é incomum — disse Santos. — Já olhei computadores de serial killers e encontrei fotos de vítimas de anos antes.

— Já participei do julgamento de alguns deles — eu emendei. E me ouvir falar aquilo fez minha preocupação com Angelina aumentar mais uma vez. — Sem querer mudar de assunto, sei que temos uma viatura na nossa rua pelo resto da noite. O que vamos fazer a longo prazo? Deus me livre que a mensagem aqui seja que minha esposa é a próxima da lista.

Santos balançou a cabeça.

— Angelina não se encaixa no perfil das vítimas. Ela não é uma mulher branca namorando um homem negro nem uma mulher negra que namora homens brancos.

— Isso me reconforta muito — respondi.

Rid ainda estava no balcão, com a boca cheia.

— Podemos aumentar a patrulha nesta vizinhança, Abe. Isso não é problema.

— Obrigado.

— O arroz grudento está ótimo.

— É risoto de cogumelos.

O telefone fixo tocou. Estava no balcão ao lado de Rid.

— Quer que eu atenda? — perguntou ele.

— Quem é?

Rid olhou para o identificador de chamadas.

— É você mesmo.

— Deixe — respondi.

— Sei como é, eu também não atendo as suas ligações.

O toque parou.

— É o JT — expliquei. — Ele mora no apartamento onde Samantha e eu morávamos. E não tem crédito. Todas as contas ainda estão no meu nome.

O telefone voltou a tocar.

— É você de novo — anunciou Rid.

— Deixe.

— Certo, mas se você ligar mais uma vez, vou ter de levar você para a delegacia por perseguir a si mesmo.

— Muito engraçado — respondi, mas, de repente, a piada ganhou outro sentido. O elefante na sala era que aquelas fotos de Tyla comigo, nosso jantar em setembro, não podiam ser vistos isoladamente. Ela tinha ligado para o meu celular depois. Os registros mostravam cinco telefonemas do celular pré-pago. Talvez não fosse o suficiente para configurar “perseguição”, como Rid tinha brincado. Mas subitamente eu me perguntei se tinha havido outras ligações. Tyla tinha uma personalidade persistente. Ela não era o tipo de mulher que liga para o celular de um homem, não obtém resposta e deixa passar. Eu me perguntei se ela tinha tentado falar comigo de outra forma. Meu telefone antigo, por exemplo, que é o único número que ela teria conseguido pelo serviço de informações se tivesse solicitado o telefone de Abraham Beckham. A linha fixa da minha casa com Angelina estava no nome dela.

O telefone fixo tocou pela terceira vez.

— Chega — disse Rid. — Você está preso.

Eu me afastei da mesa e atendi o telefone. A voz do outro lado da linha estava calma para o padrão de JT.

— Oi, Abe. O juiz disse que posso visitar meu velho uma vez por semana durante a prisão domiciliar. Podemos ir amanhã?

O “velho” era meu sogro, Luther Vine.

— Claro — respondi. — Podemos fazer isso. Já estou indo.

— Não, hoje não. Amanhã — explicou JT.

Era um chute, mas eu estava ansioso para ir lá checar a secretária eletrônica de JT — minha antiga secretária eletrônica.

— Estou entendendo — continuei. — Estou indo.

Desliguei e pedi desculpas para a equipe do caso Cortador que estava na minha cozinha.

— Fiquem o tempo que precisarem. Preciso sair.

Santos ficou me observando, Rid se serviu, e eu saí.