Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 59 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo cinquenta e nove

 

O ataque da mídia começou no instante em que saí do carro. Repórteres empurraram, puxaram e correram para me alcançar enquanto eu andava pela calçada. Não era a primeira vez que microfones eram enfiados no meu rosto, mas as experiências passadas tinham sido nos degraus do tribunal, nunca no gramado da minha casa. Não corri nem forcei minha passagem, e tentei não parecer irritado quando parei e fiz uma declaração breve e inócua que eu tinha ensaiado no carro.

— Quero agradecer a cada um de vocês pela maneira profissional como a mídia fez seu trabalho enquanto respeitou nossa privacidade depois que Angelina desapareceu. O pedido de desculpas que ela divulgou hoje de manhã foi de coração. Espero que vocês continuem a respeitar nossa privacidade, especialmente em nossa casa, agora que isso ficou no passado. Mais uma vez, obrigado.

Continuei andando na direção da casa. A multidão se moveu comigo, me cercando. Eu era a gota de geleia tentando encontrar uma forma de sair do centro do donut. As perguntas vieram junto: Onde está Angelina? Por que a polícia está aqui? O que estão procurando? ; mas eu as ignorei. Passei por baixo da fita, sabendo bem como a situação ia parecer na mídia se eu subisse os degraus correndo e batesse a porta na cara dos jornalistas. Caminhei com calma, virei, acenei para as câmeras e entrei.

Meu sorriso para a câmera desapareceu imediatamente. Santos estava me esperando.

— Sua casa ainda é a cena de um crime — ela me informou. — Você não pode entrar aqui.

— Isso é ridículo — respondi. — Não pode haver uma cena do crime se não houve crime.

A detetive Reyes surgiu da cozinha e se juntou a nós.

— É uma investigação de violência doméstica, Abe.

— Não é verdade. Eu estava vendo o noticiário e vi Riddel entrar.

— Eu o mandei embora. O departamento de homicídios não está envolvido.

— Certo, porque eu sou um agressor — respondi, balançando a cabeça. — Estamos de volta a isso? Mesmo?

— Estou fazendo meu trabalho — disse Reyes. — Havia uma garrafa de cerveja quebrada no chão. O laboratório confirmou que o sangue em um dos estilhaços era de Angelina.

Eu sabia sobre o sangue, mas não sobre o relatório do laboratório. A confirmação da conexão com Angelina não foi nenhum choque.

— Ela provavelmente pisou nele.

— O exame físico revelou um hematoma no seu braço.

— Eu já tinha explicado isso. Bati o braço quando caí no apartamento do meu cunhado.

— Talvez. E talvez a gente acredite em você, se fizermos um exame físico no corpo de Angelina e não encontrarmos nada.

Mantive minha raiva controlada, mas não consegui fazer minha voz ficar totalmente calma.

— O único abuso nesta casa é o abuso de poder da polícia. Se vocês estão procurando alguma coisa, consigam um mandado. E, a propósito — eu disse, meu olhar indo para Santos — desde quando o FBI se envolve em investigações de violência doméstica?

Estávamos nos encarando como num duelo, e eu queria seriamente uma resposta.

— Vamos conversar na cozinha.

Reyes pareceu chocada de ser deixada de fora tão de repente, mas aceitou e ficou para trás. Fui com Santos para a cozinha. Ficamos de lados opostos do balcão, onde menos de três dias antes, Rid tinha devorado um prato do ossobuco de Angelina.

— Você pode nos forçar a conseguir um mandado — disse Santos. — Mas se você acha que a mídia está agitada agora, espere até eles ficarem sabendo que foi emitido um mandado e que a polícia está fazendo uma busca na sua casa. Na verdade, estou fazendo um favor para você mantendo tudo em segredo e pelo menos criando a impressão de que estamos apenas concluindo a investigação de uma cena do crime.

— Você está me fazendo um favor? — eu disse, desdenhando. — O FBI está fazendo um favor para si mesmo. Eu sei o que está acontecendo aqui. Minha casa é uma cena de crime da força-tarefa. Agora que o Cortador está detido, sua autoridade como coordenadora da força-tarefa termina, e o FBI volta a prender ladrões de banco. Você está usando a detetive Reyes e essa bobagem de violência doméstica para ir além da jurisdição federal e entrar na minha casa. O que você está procurando, Santos? O que você está realmente procurando?

— O Cortador não matou Tyla Tomkins. Quero descobrir quem foi.

— Se ela não é uma das vítimas do Cortador, então não é da sua conta. Saia de cena e deixe a polícia local investigar.

Ela chegou mais perto, apertando os olhos.

— Você gostaria disso, não gostaria? Deixar seu amigo Riddel cuidar da investigação do assassinato de Tyla Tomkins.

Eu queria contra-argumentar, mas sabia que isso não ia me levar a lugar nenhum. Eu precisava partir para a ofensiva.

— Tudo bem, se você está determinada a enfiar o nariz do FBI onde ele não é chamado, melhor fazer isso no lugar certo. Quando foi a última vez que você bateu na porta de Brian Belter?

— Estou de olho em Belter.

— Não tanto quanto deveria. Ele está partindo para um acobertamento pesado.

— Não é uma surpresa que um escritório de advocacia lutaria contra uma intimação para que os e-mails e computadores de um de seus sócios sejam examinados. Especialmente, uma sócia como Tyla, que era uma das consultoras mais próximas da Açúcar Big.

— Não estou falando da sua intimação. Belter me ofereceu um suborno ontem. Duzentos e cinquenta mil dólares.

— Ontem? E você só está me contando isso hoje?

— Contei para Carmen ontem à noite — eu menti, sem saber ao certo por quê.

Estava se tornando um mau hábito quando as perguntas de Santos me deixavam desconfortável.

— E a promotoria do estado vai convocar um grand jury?

— Não sei. Ainda nem fiz um relatório completo. Acredite ou não, eu tinha outras coisas em mente nas últimas 16 horas.

Isso era verdade.

— O que Belter queria em troca dos 250 mil dólares?

Eu hesitei, sem saber o que contar para Santos antes de ter uma discussão completa com Carmen. Mas não era Carmen que eu precisava que saísse da minha casa. Um pouco de cooperação entre agentes da lei traria bons resultados. Pelo menos, essa tinha sido minha experiência antes da agente Santos.

— Ele estava enrolando um pouco, e fui duro. Mas tenho uma boa ideia de aonde Belter estava indo.

— Quer compartilhar?

— Quer parar de me infernizar?

— Talvez. Vamos ouvir sua teoria.

De novo, eu hesitei. Eu não tinha motivos para acreditar que a “minha teoria” me tiraria por completo da lista negra de Santos. Mas eu podia pelo menos desacelerar as coisas.

— Certo, mas lembre que isso envolve algumas suposições da minha parte. Belter acredita que o principal suspeito do assassinato de Tyla Tomkins é alguém que dormiu com ela. Acho que ele estava tentando estabelecer uma trégua entre nós dois. Ele não aponta o dedo para mim, se eu não apontar o dedo para ele, contanto que nenhum dos dois aponte o dedo para o sr. Cortinas.

— Cortinas estava dormindo com Tyla Tomkins? Você tem certeza disso?

— Sei que Tyla usava um celular pré-pago para falar com alguns homens. O dono de um dos números para os quais o celular dela ligou nunca foi identificado. Certo?

Ela não respondeu.

— Foi o que pensei — continuei. — Belter diz que é de Alberto Cortinas. Ele tinha seu próprio celular pré-pago que era usado quando ele e Tyla conversavam sobre outras coisas.

Santos observou minha expressão com cuidado enquanto pensava no que eu tinha dito. Minha honestidade parecia ter consertado uma parte do estrago. Pelo menos, por enquanto.

— Obrigada por isso — disse ela.

— De nada.

— Vamos encerrar na sua casa em uma hora. A fita de cena do crime vai desaparecer. Você e a sua esposa estão livres para voltar. Parece justo?

— Parece justo — respondi.

Ela virou e voltou para a sala. Saí pela porta dos fundos e atravessei o quintal do vizinho até a outra rua. A mídia podia ficar com o meu carro. Um táxi era mais do que suficiente para mim.