Uma Mulher Perfeita
Capítulo sessenta e quatro
Angelina estava acordada e na cozinha quando cheguei em casa. As vans da mídia não estavam mais do lado de fora. Eu me perguntei se ela tinha roubado minha ideia.
— O que você fez, abriu a mangueira da direção no Eyewitness News?
Ela estava de roupão, o cabelo molhado e enrolado em uma toalha. Tinha acabado de tomar banho.
— Jeffrey cuidou deles — respondeu ela, se servindo de uma xícara de café.
— Como?
Angelina misturou adoçante ao café.
— Eu disse a ele que as redes de televisão estavam lá fora. Jeffrey ligou para os produtores e prometeu uma entrevista exclusiva comigo se as vans desaparecessem.
— Você não pode prometer entrevistas exclusivas para todo mundo.
Ela provou o café e deu de ombros.
— Jeffrey pode. Deu certo.
— Quando essas exclusivas vão acontecer?
— Às quatro, com tempo suficiente para irem ao ar no noticiário da noite. Infelizmente, vou pegar uma gripe à três e meia.
Eu estava ficando cansado desse jogo.
— Vá se vestir. Quero ter uma reunião com o seu advogado.
— Sobre o quê?
— Quero renegociar nossa hipoteca. Vamos, Angelina, podemos ir?
— Desculpe.
Ela levou o café para o quarto e fechou a porta. Liguei para o escritório e marquei uma reunião com Winters para oito e meia. Não consigo imaginar porque ela demorou tanto para se vestir, mas só saímos de casa às oito e quinze. Consegui chegar no horário. De algum jeito, a mãe de Angelina também.
— Margaret? O que você está fazendo aqui? — perguntei.
— Jeffrey me avisa toda vez que há uma reunião, uma vez que sou eu quem está pagando a conta.
— Oi, mãe.
— Olá, querida — Margaret respondeu, enquanto as duas se abraçavam.
Eu estava ficando muito cansado desse jogo.
— Margaret, eu entendo que foi ideia sua contratar um advogado, mas Angelina e eu vamos pagar a conta.
— Eu quero pagar — disse ela.
— Não. Nós vamos pagar. Mas, mesmo que você estivesse pagando, isso não faz de você a cliente, e nesta manhã, o advogado só vai se reunir com a cliente e o marido dela.
Margaret demorou alguns segundos para processar o que eu estava dizendo.
— Então… você quer que eu espere aqui?
— Por favor.
— Bom, tudo bem. Acho que está tudo bem.
— Está tudo bem, mãe.
— Tenham uma boa reunião, então. Estou bem aqui. Se você precisar de mim.
A recepcionista acompanhou Angelina e eu até a sala de Winters, que estava ao telefone, mas gesticulou para nós dois entrarmos. Sentamos nas poltronas em frente à mesa dele. Winters encerrou a ligação, mas não veio nos cumprimentar. Ele parecia incomodado e abriu mão das cortesias de sempre.
— Desculpem a pressa, mas tenho seleção de júri às nove e meia — avisou ele. — Como posso ajudar?
— Abe acha que os juros da nossa hipoteca estão muito altos. Não é, querido?
A bola estava comigo.
— Ele o quê? — perguntou Winters.
— Tenho algumas questões sobre a agente Santos. Tenho duas…
— Desculpe, Abe — Winters me interrompeu. — Detesto interromper, mas você pode nos dar licença?
— Dar licença para vocês?
— Isso. Pode você sair por alguns minutos? Antes de nós três termos uma conversa, eu gostaria de trocar uma palavrinha com a minha cliente.
Céus, eu estava cansado desse jogo.
— Tudo bem. Troque uma palavrinha. Troque um parágrafo. Troque o dicionário inteiro.
— Abe, pare com isso — disse Angelina.
— Vou esperar lá fora — avisei ao atravessar a sala.
Fechei a porta e saí andando pelo corredor. Eu não estava disposto a esperar e, a cada passo em direção ao lobby, senti cada vez mais vontade de ir direto para o elevador. Margaret me viu. Ela estava sentada no sofá de couro preto diante de uma TV de tela plana.
— Foi uma reunião curta — ela comentou.
— Pois é. Mais curta do que o planejado.
— Bom, só porque você paga a conta não quer dizer que você é o cliente.
Apertei o botão do elevador seis vezes. Se não chegasse logo, cogitei pular pela janela. Margaret afundou mais no sofá e suspirou.
— Esses jornalistas da TV não estão amolecendo em relação ao vídeo de Angelina — ela comentou.
O sinal soou quando as portas do elevador se abriram. Deixei ele ir embora e fui na direção de Margaret.
— Por que você está dizendo isso? — perguntei.
— Estão falando mal do vídeo a manhã toda. — ela voltou para a edição matinal de Eyewitness News e aumentou o volume. — Veja, ainda estão falando disso.
Dei a volta na mesa para ver melhor a TV, tomando o cuidado de não derrubar a incalculável obra de arte feita de cabideiros e bola de pingue-pongue. O ex-promotor do distrito sul da Flórida era o astro jurídico du jour no noticiário da manhã.
— Na teoria — disse ele — as autoridades podem pedir o reembolso por todos os custos dessa investigação. Mas isso seria muito improvável, a meu ver, se as autoridades acreditarem no que Angelina Beckham está dizendo, que fugiu por um medo legítimo de que seria a próxima vítima de um serial killer.
— Você acredita nela? — perguntou o jornalista.
— Isso é algo que está em debate. Um vídeo no YouTube não é suficiente. Ela e todos à sua volta vão ter de responder algumas perguntas bem duras.
Margaret levantou do sofá.
— Não posso mais ver isso — disse ela, saindo do lobby em direção ao corredor.
Não perguntei aonde minha sogra estava indo. O televisor tinha me hipnotizado. Era bom que Margaret tivesse saído. O canal estava reprisando a coletiva de imprensa de domingo à noite, o pedido de Jake e Margaret para que sua filha voltasse em segurança. Jake era o único que tinha se pronunciado, mas meus olhos estavam em Margaret. Da primeira vez que vi a filmagem, eu me perguntei se Margaret ia sobreviver àquela situação. A segunda não estava sendo muito mais fácil. A recepcionista veio até mim.
— O dr. Winters está pronto para recebê-lo.
Passei com ela pela área da recepção e parei. O lobby no escritório de Winters no último andar tinha mais paredes de vidro do que a casa de espelhos de um parque de diversões, e eu queria ter certeza de que tinha visto o que achava que tinha visto. Eu estava olhando através de três folhas de vidro: uma parede de vidro bisotado atrás da recepcionista, um porta de vidro na sala de reunião principal, outra porta de vidro que dava para uma sacada na sala de reunião. Margaret estava do lado de fora, com certeza sem saber que eu, ou qualquer outra pessoa, estava olhando.
Eu não sabia que ela fumava, nunca senti o cheiro nela. Mas minha sogra estava acendendo um cigarro.
A mãe de Angelina fumava escondido.
Fiquei parado no corredor olhando, imaginando um ponto laranja brilhante no estacionamento do outro lado da rua do velório de Tyla.
Ela estava me observando. A mãe de Angelina estava me observando.
— Você está bem, dr. Beckham? — perguntou a recepcionista.
— Sim — respondi, enquanto caminhávamos para a sala de Winter. — Vou ficar.