Uma Mulher Perfeita
Capítulo sessenta e seis
Fizemos o velório de JT no cemitério Mount Olive, onde os membros da família Vine estavam sepultados embaixo dos enormes galhos dos carvalhos há mais de meio século.
Meus esforços para reanimar JT foram inúteis. Os paramédicos chegaram tarde demais. A enorme quantidade de sangue perdido causou uma parada cardíaca. Ele morreu antes de chegar ao hospital.
Um caixão simples de metal estava na estrutura acima da cova aberta. Uma tenda verde nos protegia do sol da tarde. Foi discreto e sutil: Luther, eu e o mesmo ministro que tinha realizado a cerimônia de Samantha.
Eu não podia culpar Angelina por não querer participar.
Não depois que o sangue de Tyla Tomkins foi encontrado no facão.
Era o facão de cortar cana de Luther. Que JT pegou com Samantha. Era uma das heranças que ela confiou ao irmão depois que ficou doente, junto com os jornais amarelados que a polícia encontrou no criado-mudo do JT, o relógio da mãe deles e outros itens pessoais. JT tinha guardado os objetos em um lugar seguro depois que Samantha morreu. Ele o enterrou no quintal embaixo do deque depois de usá-lo para matar Tyla. Samantha o tinha feito prometer nunca perdê-lo e só entregá-lo a um museu, então era fácil olhar pelos olhos de JT e entender por que ele guardaria o facão mesmo depois de transformá-lo na arma de um assassinato.
A coisa mais difícil de entender era por que ele quis matar Tyla.
— Não estamos reunidos aqui hoje para nos demorar no pecado nem no motivo — disse o reverendo Otis Brown, parado ao lado do caixão. — A Bíblia ensina que “aquele que cumpre a lei, mas falha em um ponto, é responsável pelo todo. Porque Ele disse ‘Não cometerás adultério’ também disse ‘Não matarás’”.
Pisquei com os dois olhos, porque aquele que tinha mencionado assassinato estava olhando direto para mim quando falou em “adultério”.
— Não é o tamanho do pecado, mas a ausência de fé que nos separa do Senhor. JT era um homem atormentado, mas não era a face do mal. Vamos orar para que ele receba o perdão e encontre a vida eterna. Vamos repetir A-mém?
— Amém — Luther e eu repetimos em voz baixa.
Um par de gaios-azuis gritaram no pinheiro atrás de nós. O reverendo voltou para a cadeira dobrável ao lado de Luther e o confortou. Levantei e fui até o CD player. Toquei uma faixa. Era a música que JT e eu tínhamos cantado juntos na apartamento, a que Samantha cantava para o irmão. Seja grato.
A cerimônia acabou às três da tarde. Luther e eu nos despedimos do ministro. Estávamos a menos de cinquenta metros do túmulo de Samantha, e sugeri fazermos uma visita.
— Vá lá — respondeu Luther. — Quero sentar um pouco.
Eu o deixei e caminhei pela trilha de pedras até o túmulo dela. Foi uma caminhada tranquila e pacífica. E solitária. Literalmente centenas de pessoas de luto tinham me seguido pelo exato mesmo caminho para o enterro de Samantha. Ouvi muitos deles chorando e soluçando atrás de mim. Eu ainda podia ouvi-los.
— Como você está, Abe?
Parei. Eu não estava imaginando coisas. Rid estava parado na sombra do maior carvalho do cemitério. Estávamos a mais ou menos uma dúzia ou mais de lápides da de Samantha.
— Bem, acho. Um pouco preocupado com Luther. Não consigo acreditar que foi o facão dele, sabe... que...
— Eu sei.
O sol estava batendo, me forçando a apertar os olhos. Fui para a sombra e cheguei mais perto de Rid.
— Você teria sido bem-vindo para se juntar a nós na cerimônia — eu disse. — Não precisava observar de longe.
— Esta distância é suficiente — disse ele. — Não quero desrespeitar a família de Tyla.
— Eu entendo.
Rid foi até o banco embaixo da árvore e sentou.
— Você sabe que não acabou.
— Acabou, sim. JT a matou. Fim de papo.
O facão não era a única prova. Até Rid me mostrar o acordo de aluguel assinado no dia da morte de Tyla, eu tinha a informação desatualizada de que todas as empresas de aluguel de carro exigiam um cartão de crédito. A ironia era que tinha sido eu quem fez JT tirar a habilitação e até abri uma conta conjunta com ele para ajudá-lo a refazer a vida. A cobrança no cartão de débito levou a polícia de Miami-Dade ao escritório da agência e, de lá, eles rastrearam o carro. Ainda havia vestígios do sangue de Tyla no porta-malas.
— Santos não vai desaparecer — disse Rid. — O motivo ainda é uma questão.
Ainda não se sabia exatamente onde ele tinha matado Tyla. Uma quantidade tão pequena de sangue no porta-malas sugeria que o golpe fatal tinha sido dado depois da viagem de carro, provavelmente não longe de onde ele descartou o corpo, e a maior parte do sangue que serviria de evidência tinha sido engolido pelos Everglades. A ausência de marcas nos ligamentos significava que ele devia tê-la deixado inconsciente antes de levá-la, talvez com um golpe do lado chato da lâmina — mas, como Rid tinha comentado no começo da semana, um cadáver sem cabeça impedia a confirmação de que houve fratura no crânio e contusão. JT teria seguido Tyla no carro alugado e a sequestrado enquanto ela estava correndo? Ou tinha usado o fato de que era cunhado de Abe Beckham para convencê-la a se encontrar com ele em algum lugar?
Uma única questão ainda importava de verdade: por quê?
— As razões podem ser complicadas — eu disse. — Especialmente para alguém como JT.
Ele se inclinou para frente com uma expressão séria.
— Santos não acha que JT queria matar Tyla. Ela acredita que ele a matou porque outra pessoa a queria morta.
— JT, o assassino contratado?
— Você precisa levar isso a sério, Abe. Existem muitas possibilidades. Santos vai considerar todas. E a maioria envolve você.
Fui até o banco e me sentei ao lado dele. Estávamos olhando na direção do túmulo de Samantha, uma longa fileira de lápides diante de nós.
— O que ela está pensando?
— Que você é um homem casado que precisava eliminar um dos problemas mais antigos do mundo. Uma teoria é que você pediu para JT matar Tyla. Outra é que JT fez isso por conta própria, achando que estava fazendo um favor para você.
— Isso não aconteceu.
— Faz mais sentido do que JT matar Tyla sem nenhum motivo.
— Ele tinha um motivo.
— Que você vai manter em segredo.
Olhei para o longe.
— Vou.
Rid balançou a cabeça e levantou.
— Certo. Espero que isso funcione para você.
— Eu também. Pelo menos enquanto Luther estiver vivo.
Ele colocou a mão no meu ombro.
— Cuide-se.
Assenti e o vi ir embora. Continuei sentado no banco por mais um minuto. Depois, levantei devagar e comecei a andar na direção do túmulo de Samantha. Doía colocar um pé diante do outro, mas só por dentro. O que provavelmente não era diferente da dor que tinha atormentado JT depois da morte da irmã.
Tyla tinha ligado para o apartamento onde Samantha e eu tínhamos morado. Talvez ela de fato quisesse delatar a Açúcar Cortinas por crimes cometidos na Nicarágua. Era mais provável que fosse uma desculpa para me ver de novo, uma vez que um promotor de Miami não tinha como fazer nada sobre crimes na Nicarágua. Da primeira vez que ela ligou, JT não atendeu. Tyla deixou uma mensagem para mim na nossa antiga secretária eletrônica, que nunca foi apagada, e que Santos, Rid e eu tínhamos ouvido. Mas será que tinha sido a única? Como seria possível saber se Tyla não tinha ligado de novo? E se JT tivesse falado com ela? Não existiria registro, porque JT atendeu um telefone fixo. Ele pode ter conversado com Tyla, e ninguém além dela e de JT saberia. Santos, Rid e eu só nos concentramos na mensagem. Mas talvez tenha sido a conversa — uma conversa de que ninguém sabia — que tivesse convencido JT de que Tyla estava de olho em mim.
Parei no túmulo de Samantha. A grama tinha sido aparada recentemente. Um visitante tinha deixado um buquê de flores fazia pouco tempo. Não havia cartão. Anônimo. Samantha tinha tantos amigos, tanta gente que a amava.
— Me desculpe, Samantha.
Matar Tyla tinha sido a redenção de JT. A punição de Tyla era o preço de um pecado, um pecado de que JT só sabia porque estava mexendo no meu celular um dia e viu evidências explícitas de sua obrigação. Tyla era um pouco mais nova e muito mais descuidada naquela época, e eu só podia presumir que meu cunhado descobrir uma mensagem de texto de conteúdo sexual para mim era a razão por trás do celular pré-pago e da precaução extrema que Tyla passou a ter depois, e nada de mandar mais mensagens.
De todo jeito, o segredo agora estava só comigo. O outro pecador.
Morrer não era uma vergonha. Mas é uma pena morrer por causa de um coração partido.
Samantha não tinha morrido por causa de um coração partido. Ela tinha morrido com um coração partido. Eu nunca traí Angelina. Mas tinha traído a minha mulher.
Caí de joelhos e toquei a grama no túmulo de Samantha.
— Eu sinto muito — sussurrei.
A morte de Tyla tinha sido uma justiça imperfeita, mas era justiça na cabeça de JT. Certo ou errado, JT nunca me culpou pelo meu “erro” com Tyla, pelo menos não depois que Samantha contou para ele que tinha me perdoado e que ele também precisava me perdoar. JT culpava apenas Tyla pelo coração partido de Samantha. E se culpava pelo fato de não ter podido salvar a própria irmã com um transplante de medula óssea porque não era compatível. Ele fez o que achou que precisava fazer para acertar as coisas.
De certa forma, Tyla Tomkins morreu por causa de um coração partido.
O de Samantha.