Uma Mulher Perfeita
Capítulo cinquenta e três
Victoria sabia que ia fazê-lo falar.
Apesar de ter feito as autoridades acreditarem que ele estava na Nicarágua, o Cortador não era muito esperto. Ela tinha passado as primeiras duas horas do interrogatório tentando fazê-lo entender que não havia como escapar daquilo: Victoria ia acabar com ele. Em seguida, ela e o parceiro saíram da sala, deixando-o sozinho na mesa olhando para as paredes nuas por dez minutos, vinte, meia hora. Os dois agentes do FBI ficaram assistindo da sala de observação, atrás do espelho.
Com eles estava Bert Franklin e o parceiro, ambos detetives de homicídios do departamento do xerife do condado de Palm Beach.
— Vamos deixá-lo cozinhando por mais quanto tempo? — perguntou Franklin.
— Mais alguns minutos — respondeu ela.
— É uma estratégia boba — disse ele. — Se você deixá-lo ali por mais muito tempo, e ele vai pedir um advogado.
Franklin ainda estava furioso com o fato de ser apenas um simples observador. O FBI tinha reivindicado a jurisdição com base na enorme quantidade de pornografia infantil encontrada no computador do Cortador — o que era um crime federal. Foi o gancho que permitiu que Victoria assumisse o controle do que, de outra forma, teria sido estritamente uma violação de uma lei estadual: homicídio. Victoria tinha convidado Franklin e o parceiro como uma cortesia profissional em uma força-tarefa multiagências.
— Deixe comigo — disse ela.
Victoria chegou mais perto do espelho, estudando seu suspeito. Salvo era um homem grande, 1,87 m, bem mais de noventa quilos. Musculoso, mas não como um marombeiro. Ele tinha o físico e a aparência desgastada de um fazendeiro que passou a vida trabalhando no campo. Sua barba grisalha não estava aparada, era apenas o resultado de um homem que não gostava de se barbear. Um corte militar tornava menos óbvio que ele estava ficando careca. Aos 48 anos, ele era mais velho que o perfil elaborado por Victoria, o que explicava o Viagra que tinham confiscado na casa. Disfunção erétil só explicava uma parte da abundância de consolos, todos pretos, tudo isso confirmando o perfil feito por ela de um homem branco e raivoso que escolhia mulheres brancas com namorados negros. Ainda gosta da coisa preta, vadia?
— Fase dois — anunciou Victoria.
Estava na hora de voltar para a sala de interrogatório. Ela já tinha feito isso muitas vezes em muitos casos. Era quando os mais espertos começavam a barganhar. Eu conto onde deixei os cinco corpos que você não sabe que existem se você não pedir a pena de morte. Victoria não esperava isso do Cortador. Ele precisava mostrar como era esperto. Veja quantas pistas você perdeu, como eu estava bem diante do seu nariz e rindo da sua incompetência. O Cortador gostava de se gabar. Ela podia sentir.
Victoria colocou um maço de cigarros diante dele.
— Cigarro?
O Cortador aceitou. Ela deslizou um isqueiro pela mesa, e ele o acendeu.
— Eu sabia que você fumava — comentou Victoria.
— Muito bem, Sherlock. Foram os cinzeiros espalhados pela minha casa ou os pacotes de cigarros que me entregaram?
Exibicionista.
— Foram as marcas de queimadura nas suas vítimas — respondeu ela.
O Cortador soltou a fumaça, sem dizer nada.
Victoria dispôs metodicamente quatro fotos de autopsia na frente dele, quatro das vítimas de Palm Beach, excluindo a que ficou irreconhecível com as queimaduras no canavial. Só o rosto aparecia nas fotos.
— Mas não são cinzas de cigarro espalhadas no rosto delas — Victoria comentou. — Não é?
Ele deu mais um trago.
— Você sabe o que é.
— Por que você não me diz?
O Cortador recostou na cadeira, batendo as cinzas no chão. Está se acomodando, Victoria pensou.
— Você sabe por que as mulheres eram chamadas de sexo frágil? — ele perguntou.
Ela sabia que tinha a ver com uma noção arcaica de beleza e pureza — Espelho, espelho meu — mas queria saber a opinião dele.
— Nunca pensei muito nisso.
— É porque, quando você as compara com os homens, elas de fato são mais frágeis.
— De que maneira?
— Você está prestando atenção? Do que você acha que estamos falando aqui? Estou falando da pele. Existe uma diferença de pigmentação entre homens e mulheres.
— Eu diria que isso depende da pessoa.
— Isso é porque você é burra — disse ele. — E eu sou muito mais esperto do que aparento.
Converse comigo, espertalhão.
— É um fato químico e molecular — continuou ele. — Obviamente, não é uma diferença tão dramática quanto um homem negro e um branco. Mas, se você comparar um homem branco com uma mulher branca, ou um homem negro com uma mulher negra, os homens têm mais melanina e hemoglobina. Os homens são mais escuros. As mulheres, mais claras. As mulheres são o sexo frágil.
Victoria mal podia esperar para ver o que esse sujeito andava lendo na internet.
— É mesmo?
— Não me trate com condescendência.
— Não estou tratando.
— Estou vendo a expressão em seu rosto. Você me acha um racista que tem uma bandeira confederada e uma carteirinha de membro da Ku Klux Klan.
— Eu não disse isso.
— As pessoas acham que, porque eu trabalho com agricultura e não fiz faculdade, eu não ia bem na escola. Na verdade, eu era bom aluno. Química era minha matéria favorita.
Tradução: você cozinhava metanfetamina.
— E já morei no mundo todo. Nicarágua, República Dominicana, Brasil.
— Impressionante.
— Não estou tentando impressionar você. Estou explicando uma coisa. Meu cérebro, e o que vejo com meus dois olhos, me diz que a cor da pele é cada vez menos uma questão de raça.
— Não sei se estou entendendo o que você disse.
— Você pode prestar atenção? É simples. Você vai a um lugar como Manágua, Santo Domingo ou São Paulo, quem sabe de que maldita raça são aquelas pessoas? Brancas? Negras? Hispânicas? Indígenas? Multirracial, o que quer que isso signifique? A verdade é que os rótulos não servem para nada. É um processo milenar, mas o mundo está evoluindo na direção de uma única raça humana em que a cor da pele só é importante para uma coisa: sexo. O macho mais escuro é atraído pela mulher mais clara.
— Essa é sua teoria?
— Não é uma teoria. É um fato. É por isso que homens negros sempre quiseram as nossas mulheres.
— Isso deixa você bravo?
— De jeito nenhum. Passei minha vida adulta inteira cercado de homens de pele escura nos canaviais. Não tenho nenhum problema com eles. Atração física pelo sexo frágil é totalmente natural. — Ele se inclinou para a frente, a fumaça do cigarro indo na direção de Victoria. — O que me irrita são as mulheres brancas querendo parir bebês negros.
Victoria tinha ouvido o suficiente. Com os vídeos caseiros das vítimas no computador dele, as evidências físicas coletadas pela equipe forense e o desejo demonstrado de encher o mundo com baboseiras antropológicas, Cortador estava a caminho de um sono bastante longo no fim do corredor da morte. Estava na hora de descobrir o que ele sabia sobre os crimes fora do condado de Palm Beach.
Victoria recolheu as fotos das vítimas e as guardou no envelope.
— Tem outra razão por que eu sabia que você fumava — disse ela. — Além das marcas de queimadura nas vítimas, quero dizer.
Ele apagou o cigarro e acendeu outro.
— Isso faz parte do seu brilhante perfil criminal? Homem, branco, fumante compulsivo?
Victoria abriu outro arquivo e dispôs uma única foto de Tyla Tomkins sobre a mesa. Não Tyla, a vítima. Era Tyla, a advogada, a profissional numa foto em preto e branco do site da BB&L.
— Vi você do outro lado da rua no velório de Tyla Tomkins — comentou Victoria.
O Cortador sorriu.
— Era você, não era? Aquele ponto laranja brilhante no estacionamento?
Silêncio.
Ela se inclinou para frente, encarando-o do outro lado da mesa.
— Você matou Tyla Tomkins?
— Não — respondeu ele, sem hesitar. — Mas nós teríamos gostado de matar.
— O que você quer dizer com “nós”?
— Todos nós na Nicarágua. Ela fazia parte do time de advogados de Miami que vieram encher nosso saco.
Não era o que Victoria esperava.
— Quem mais estava no time?
— Um monte de engravatados. Não lembro.
— Eles foram encher o saco de vocês por quê?
— Tudo. A operação de corte de cana inteira na Nicarágua.
— O quê, especificamente?
— A mesma merda de sempre. Questões trabalhistas. Pergunte para os advogados se quiser saber mais.
Victoria olhou para o parceiro, que fez uma anotação. Eles iam perguntar para os advogados.
Ela colocou mais uma foto na mesa. Era um registro da câmera de segurança do restaurante em Orlando, Tyla jantando com Abe Beckham.
— Por que você mandou isso para Angelina Beckham?
— Quem é Angelina Beckham?
Victoria ignorou a pergunta e colocou uma cópia da foto do restaurante sobre a mesa, bem ao lado da primeira, mas essa tinha uma mancha de cinzas no rosto de Tyla.
— Angelina Beckham encontrou essas fotos em sua caixa de correio. Sei que foi você quem as mandou. É sua marca registrada.
— Minha marca registrada?
— Cinzas de cana no rosto de Tyla.
Ele olhou mais de perto, quase rindo.
— Por que alguém espalharia cinzas pretas num rosto que já é preto?
— Não sei. Por quê?
O Cortador deu um longo trago no cigarro.
— Não faz sentido para mim.
Para Victoria também não. Ela colocou uma foto de Angelina sobre a mesa.
— Onde está Angelina Beckham?
— É esta aqui?
— Você sabe que é.
— Nunca ouvi falar — respondeu ele.
— Por que você foi ao velório de Tyla Tomkins? — perguntou Victoria, uma mudança rápida, para confundi-lo.
— Eu não fui ao velório dela.
— Por que você estava fumando no estacionamento do outro lado da rua?
— Tenho uma pergunta melhor: por que vocês, imbecis, acham que o Cortador matou essa Tyla?
Cortador, um nome criado pela mídia. Obviamente ele estava acompanhando a cobertura da imprensa.
— Cortador a matou?
— Pergunte para ele.
— Estou perguntando.
Ele deu mais um trago, apertando os olhos. Era um desses momentos reveladores que não podiam ser reproduzidos, e Victoria só podia torcer que o vídeo mostrasse que ele estava falando de si mesmo na terceira pessoa.
— O Cortador não faz essa merda preta — disse ele. — Você deveria saber disso, gênia.
Victoria empurrou a foto na direção dele. Ela odiava conversar no nível de um psicopata, mas às vezes era necessário.
— O Cortador “fez” Angelina Beckham?
Ele olhou para a foto, um sorriso doentio curvando seu lábios.
— Ele faria. Se ela precisasse de um lembrete.
— Angelina precisava desse lembrete?
Ele balançou a cabeça e deu de ombros.
— Como é que vou saber? Nunca vi essa mulher antes.
Victoria o olhou no olhos, se recusando a piscar. Ele não desviou. Ela podia ter insistido, provocado, feito a mesma pergunta repetidas vezes, de cinquentas maneiras diferentes. Mas não achou necessário.
Victoria acreditava nele.